sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

hit de dezembro

** Em versão violãozinho, a canção do momento - (sor) risos.

desejo de natal: generosidade

"Sorriu compreensivamente - muito mais do que compreensivamente. Era um desses sorrisos raros que têm em si algo de segurança eterna, um desses sorrisos com que a gente talvez depare quatro ou cinco vezes na vida. Um sorriso que, por um momento, encarava - ou parecia encarar - todo o mundo eterno, e que depois se concentrava na gente com irresistível expressão de parcialidade a nosso favor. Um sorriso que compreendia a gente até o ponto em que a gente queria ser compreendido, que acreditava na gente como a gente gostaria de acreditar, assegurando-nos que tinha da gente exatamente a impressão que a gente, na melhor das hipóteses, esperava causar." *
(Francis Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby)

*à mainha, que me sorri assim todos os dias.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

metal sem ferrugem

Foi acordada às oito e vinte com o telefonema mais imprevisto daquele quente mês de outubro. "Pequena?". Reconheceu imediatamente a voz rouca, resquício de doses de uísque e cigarros amarfanhados, embora o número na tela não remetesse aos verdes anos. "Você?!?!". Riram, a mesma gargalhada de antes.

Queria alguém para dividir uma história de fracasso retumbante, um fracasso pelo qual torceram e sonharam juntos. Queria alguém, não; queria ela. Carolina não só estava a par do assunto como ainda ofereceu detalhes sórdidos. Sentiu muita vontade de contar para ele assim que ouviu a primeira suspeita, boato ainda, mas estava à espera de qualquer sinal para avançar. Felizmente, o telefonema atropelou seu (raro) cartesianismo. "Estaremos sempre juntos nessa campanha" - conseguiu dizer, feliz com a surpresa. Ele concordou, rindo. Como sempre, só alegria.

Somente os dois sabiam o tanto que precisaram lutar para impedir aquela tragédia. E lutaram, de fato, juntos, como o tanto mais que realizaram, juntos sempre, naqueles tempos já perdidos. Conversaram sobre o ano: doenças e mortes, shows e escândalos de conhecidos, projetos e mudanças, faculdades e viagens, fins e zeros esticados. Usaram os mesmos apelidos. Ela teve vontade de cantar algum verso da época, mas as canções escaparam. Ele quis agradecer, de novo, o empenho em meio à (quase) derrocada. Ela não aceitou: recebera leveza daquelas mãos, um presente definitivo para se transformar na borboleta de agora.

Paulo entregara o pacote sem se dar conta do tamanho da oferenda, espontâneo como todos os legítimos, sem sequer imaginar o tamanho do buraco da namorada. Carolina teve vontade de dizer a verdade, verdade jamais sugerida, mas preferiu desviar do assunto. Se estavam ali, dividindo aquele fracasso tão sonhado, era porque algo muito grandioso permanecia vacinado contra a ferrugem, a despeito do espanto da turma, tão presa em picuinhas, à revelia deles mesmos, às vezes tão prontos para o mal. Jamais se esqueceriam, e tal sentença não cabia em palavras.

Despediram-se sorrindo, a mesma gargalhada de antes.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A dor que ninguém mais sente*

Respirou fundo, contemplando a feiúra desajeitada dos arredores de Paris. Avistou o céu, límpido como naquela manhã tão distante, dentro do táxi lento, e lembrou que dali a poucos dias estaria olhando para cima sob outro ângulo, o temido ângulo das terras do sul. Desceu os olhos até o chão, ainda com alguma esperança, mas logo relacionou também aquela morte à velha vitória do cotidiano caprichoso: os dedos dos pés continuavam rígidos e tesos. E talvez continuassem assim para sempre, tensos como ela própria, perdidos em dramas exclusivos, ao mesmo tempo vítimas e algozes daquela dor inacessível e única. Relaxou-os um a um, triste, em busca de novas crenças para disfarçar o sofrimento; encontrou de volta aquela fé insistente, sempre plena de palavras doces e promessas infalíveis. Afinal, partira do próprio Tom a redentora sugestão: só a grande dor traz liberdade, e quase ninguém recebe esta chance.
(livro de gaveta)

* Publicação é meta 2010.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Presentes 2009

A gente nunca tinha se cruzado, fato raro na cidade-ervilha. Depois da indicação de uma amiga jornalista, fui contratada para escrever o seu perfil literário, texto principal do recém-criado site de divulgação do trabalho delicado da designer. Virou o freela mais especial do ano, graças à simpatia imediata. Sentimento compartilhado, Laurinha já não é mais (apenas) uma coleção de letrinhas.
Ela agora faz parte do show.

O triunfo do plano B

Encontros com o papel

Laura tomou um susto quando reconheceu o objeto camuflado pelos laçarotes do pacote: uma máquina de costura cor-de-rosa, especialmente pensada para o público infantil, capaz de dar pontos de verdade. Tinha seis anos e se acostumara a acompanhar a rotina da avó costureira, para quem enfiava algumas linhas na agulha e cortava uns tantos retalhos. Fascinada pelo presente, atravessava as tardes entretida com as próprias invenções. Em vez de roupinhas de boneca, porém, perverteu a genética apresentando uma surpreendente coleção de bloquinhos de papel acabados com esmero. Já ali, menina ainda, insinuava-se o embate pela escolha do protagonista da sua rotina: papel ou tecido?

Dez anos depois a batalha parecia concluída: a ligação inexorável com o papel simplificou os dilemas de juventude ao acelerar a escolha pela faculdade de Design Gráfico. Já dentro do curso, aproveitou ao máximo cada lição: colecionou papéis, matriculou-se em cursos extraordinários, estagiou numa editora e oficina tipográfica, alcançou as notas máximas. O trabalho de conclusão de curso não deixou dúvida da dedicação: na área da semântica dos produtos, pensou uma produção gráfica com potencial para acompanhar a significação do conteúdo do livro.

Mas Laura nunca conseguiu se encontrar de fato no design. Influenciada pelo vazio daquela realização pela metade, começou a agrupar planos alternativos, caso tudo desse errado. Antes mesmo de se formar era importante enumerar saídas, válvulas de escape, projetos alheios àquela realidade que já lhe parecia um tanto gasta. Na época do trabalho de conclusão de curso, angustiada com a proximidade da formatura, e as angústias trazidas com o fim da faculdade, decidiu que lhe faltava um trabalho manual. Andava cerebral demais.

O chamado das agulhas

Uma amiga reavivou sua antiga inclinação à costura, comentando sobre um curso simples e prático, daqueles repletos de donas de casa ávidas pela técnica perfeita para pregar botões e fazer bainhas. Criou então uma nova rotina: todas as quartas-feiras desembarcava na classe, onde passava aproximadamente cinco horas costurando tudo o que tinha vontade. Na primeira aula, já tentou levar para casa seu primeiro produto, um porta-moeda. O resultado não foi dos melhores, mas já começava a tomar gosto pelo processo. Logo em seguida, fez uma bolsa de mão, pequenina e modesta. Fechou o curso com uma boina, tornada pop pela professora, que passou o molde para todos os alunos que apareceram depois de Laura.

Tirou o pó da máquina de costura da mãe e seguiu com as lições. Já encontrara até um rascunho de estilo: entendia-se melhor na costura de acessórios, e não de roupas; apresentava facilidade para moldes, conseqüência da dedicação às aulas de geometria descritiva; e criava com a mão no material, sem qualquer tipo de desenho. Construiu, então, sua primeira echarpe, enriquecendo o produto com a aplicação de dois tecidos, um sobre o outro – uma inovação no universo das echarpes. Sem nenhuma pretensão, começou a vender entre amigos e familiares, anotando os pedidos com gosto e lutando para fixar os preços – até hoje vender é um verbo que prefere não conjugar. Tudo parecia caminhar; ela só não se lembrava ainda da máquina cor-de-rosa.

Uma vitória imprevista

Quando a formatura chegou, as coisas já pareciam bastante distintas do marco zero, cinco anos antes, quando optara pelo mundo do desenho. A vitória do papel sobre o tecido já não lhe parecia legítima. As horas sobre a máquina de costura desconstruíram o conceito de hobby para remexer de modo irremediável em sua rotina – logo com ela, que adora a possibilidade de tomar café da manhã sempre no mesmo horário e acredita que uma das rimas mais preciosas é “felicidade” com “tranqüilidade”. Cada vez mais certa da invalidade do futuro sacramentado na academia, abandonou a cidade mais uma vez e partiu em busca da sua verdade, aquela que não cabe em diplomas.

Na capital paulista, passou quase um ano estudando moda. O plano B, título antes oferecido aos retalhos e as horas sobre a máquina, já se transformara em projeto de vida, com toda a importância do principal. A mudança ocorreu de forma tão espontânea que hoje é difícil definir o ponto da virada. Simplesmente não havia outro caminho. E se queria se tornar profissional, pensava, teria de aprender sobre moda, um território bastante distante da sua experiência até ali. Graças às disciplinas cursadas, entrosou-se com os estilistas mais criativos do país, além de receber noções fundamentais de lógica de mercado, estruturação de coleções, calendários próprios do circuito.

De volta a Florianópolis, procurou um apartamento onde pudesse dar partida e começar de fato. Ajeitou os retalhos numa sala iluminada, agrupou botões e zíperes por cor, construindo um cenário delicado como sua própria criação. Na pequena sala-ateliê, passa boa parte do dia, recusando o imperativo do cartão-ponto, trabalhando quando tudo flui, e buscando referências quando algo inexplicável parece empacar o processo.

O estilo consolidado

A nova rotina, de design de acessórios agora, também já guarda alguns segredos. Como buscou a costura como um trabalho manual, continua abolindo os croquis. Cria com as mãos, sem qualquer interferência, e tendo em vista o material que encontra. Para facilitar, mantém toda a matéria-prima numa arrumação milimétrica: botões, tecidos brilhosos, algodão, zíper, joaninhas, passamanaria, fitas, miçangas, cetins. Quando começa a trabalhar, olha para os lados, bate o olho em tal ou qual coisa, decide-se. Senta e começa a construir, como se ainda estivesse lidando com geometria espacial na faculdade.

Outra peculiaridade do seu estilo é o aproveitamento total de qualquer tecido sobrado do corte. Laura odeia obras, e se empenha em dar vida aos retalhos. Nas suas mãos, qualquer pedacinho de tecido constrói um novo produto, e assim muitas peças derivam dos produtos maiores, construindo uma lógica bastante especial. Com naturalidade, fluindo, como deve ser tudo na vida, uma de suas verdades mais repetidas. Sempre de acordo com o material e o desejo, num processo intransferível e legítimo. Intransferível porque é apenas de Laura, com sua mania de só decidir depois de muito observar, processando com calma antes de interferir, seja na vida ou na arte. Legítimo porque nasce lá dentro, brotando com espontaneidade, sem qualquer intervenção de vagas disciplinas de planejamento.

É com esta naturalidade que ela cozinha, um dos hobbies favoritos: abre o armário, seleciona os ingredientes e cria os pratos, de improviso. E é assim que organiza seu espaço também, seja as roupas do armário, seja a gaveta destinada à coleção de papéis, firme e forte na rotina da designer. A diferença é que a tipografia agora é mais um dos seus hobbies, junto às canções de rock contemporâneo, às organizações de gavetas, às coleções de fotos, às viagens realizadas. Se a tipografia é mais um hobby, costurar já é a profissão.

Basta olhar a pequenina máquina de costura cor-de-rosa numa estante logo acima da sua mesa de trabalho. Ela agora está em todos os lugares, presente, perene, permanente.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

tim tim*

afirma um princípio zen que a gente encontra o caminho correto quando desaparecem os obstáculos. embora longe, mas muito longe mesmo, de direcionar minha experiência a partir de referências budistas, confesso certa simpatia pela idéia do espontâneo, do natural, do livre. da mesma forma, abomino algumas pérolas do pensa/sofri/mento judaico-cristão, sobretudo a clássica: só tem valor quando é bem difícil. mesmo marcado por agressões e imprevistos, e surpresas sempre me pareceram muito mais assustadoras do que socos e pontapés, 2009 curiosamente me ensinou o sentido da palavra fluidez:


:: nada como, após seis anos de distância geográfica, encontrar a mesma cumplicidade para as bobices deliciosas, as rabugices necessárias, a irmandade irrestrita.

:: nada como perceber que algumas pessoas e cenas e experiências, ainda que raras, permanecem com o mesmo viço, à revelia da ferrugem do tempo.

:: nada como mudar radicalmente de profissão e ver que ali tudo caminha sem amarras, para frente, com comprometimento e prazer.

:: nada como duas ou três aproximações instantâneas e inadiáveis - "como isso não existia antes?"

:: nada como reencontrar alguéns do passado, que ressurgem com o frescor do presente, sobretudo quando ainda somos capazes de compartilhar nortes e sensações.

:: nada como conhecer pessoas novas e perceber que elas sempre estiveram ali, amigas, irmãs, amigas-irmãs, ainda que não fisicamente.

:: nada como adotar um bichinho para reconhecer que alegria é fácil e contamina.

:: nada como perceber, sapatilhas de ponta nos pés, que certas coisas a gente não esquece, mesmo que se valha das borrachas mais potentes.

:: nada como joelhos sem dor.

:: a vida nunca deixa de oferecer presentes.


* às novidades do verão (movimento é felicidade).

** um dezembro de flores pra todo o mundo. que seja doce, que seja doce, que seja doce, que seja doce, que seja doce, que seja doce, que seja doce.

*** Mano, Diego, Bebel, Maninha, Wolff, Laura, Claudia, Marco, Camila, Dudu, Eve, Fernanda, Raquel, Cristiane, mainha, painho, meus avós: vocês fizeram muito por mim até aqui. obrigada sempre.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

a lição de pandora

tentou listar a coleção de males na madrugada anterior: desastres permanentes, delírios imperdoáveis, pressões impraticáveis, miseráveis opções. a dor da (possível) negativa seria sempre mais forte. caminhava sobre espinhos, com as mãos cheias de pedras. desfiava o novelo do destino, morto de medo dos abismos. fins sem finalidade, escudos sem flechas: o infortúnio citado pelo médico do romance americano. "o que diria, depois dos erros todos?". como reagem os exagerados diante dos freios necessários? inacreditável o tamanho do mundo após aquele imprevisto: resto, caco, quase nada. vivia algo impossível no seco, exigente de segredos e promessas, imperativo em falhas e dores, quase insuportável de tão demolidor. já não conseguia cantar. nem escrever. mal podia encarar os outros todos. era impossível sair de si. o engasgo, porém, ainda permitia uma sentença: "acredito, acreditamos". mesmo que tudo pareça maculado, manchado, desbotado. à revelia do rosário de tristezas. ou, na versão dela, rezada entre sussurros e lágrimas já secas: "continuamos, seguimos, vivemos". com a benção da coragem. se intensidade é combustível de gigantes, esperança é a virtude de quem ama com vontade. aprenderam.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

uma manhã despenteada

Lição para pentear pensamentos matinais
(Caio Fernando Abreu)

Pensamentos, como cabelos, também acordam despenteados. Naquela faixa-zumbi que vai em slow motion, desde sair da cama, abrir as janelas, avaliar o tempo e calçar os chinelos até o primeiro jato da torneira – feito fios fora de lugar emaranhando-se, encrespam-se, tomam direções inesperadas.Com água, mão, pente, você disciplina cabelos. E pensamentos? Que nem são exatamente pensamentos, mas memórias, farrapos de sonho, um rosto, premonições, fantasias, um nome. E às vezes também não há água, mão, pente, gel ou xampu capazes de domá-los. Acumulando-se cotidianas, as brutalidades nossas de cada dia fazem pouco a pouco alguns recuar – acuados, rejeitados – para as remotas regiões de onde chegaram. Outros como cabelos rebeldes, renegam-se a voltar ao lugar que (com que direito?) determinamos para eles. Feito certas crianças, não se deixam engabelar assim por doce nem figurinha.

Pensamentos matinais, desgrenhados, são frágeis como cabelos finos demais que começam a cair. Você passa a mão, e ele já não está mais ali – o fio. No travesseiro sempre restam alguns, melhor não olhar para trás: vira-se estátua de cinza. Compacta, mas cinza. Basta um sopro. Pensamentos matinais, cuidado, são alterados feito um organismo mudando de fuso horário. Não deveria estar ali naquela hora, mas está. Não deveria sentir fome às três da tarde, mas sente. Não deveria sentir sono ao meio-dia, mas. Pensamentos matinais são um abrupto mas com ponto final a seguir. Perigosíssimos. A tal ponto que há risco de não continuar depois do que deveria ser uma curva amena, mas tornou-se abismo.

E só vamos em frente porque começam a acontecer urgências. Enquanto a manhã dispara e o telefone toca e a campainha soa e as crianças vão precisam sair para a escola e o relógio de ponto ou qualquer coisa assim – incluindo os outros, sobretudo os outros – não esperam. Nada espera, ninguém. Você lava o rosto, finge não ter visto coisa alguma. É possível também ligar o rádio. Um banho frio, o café feito uma bofetada. Há pensamentos-matinais-despenteados que põe o rabo entre as pernas e dão o fora, mas outros – mulheres de Nelson Rodrigues – adoram apanhar.

Quanto mais você bate, mais ele arreganha os dentes e intica para apanhar mais. Isso magnetiza e atrai outros pensamentos, ainda mais descabelados e até então escondidos. Se era um nome, vem um sobrenome. Se era um rosto, vem a textura da pele, um cheiro um jeito de olhar. Se fantasia, ganha cor, e assim por diante. Pensamentos desse tipo são quase sempre proustianos: loucos pelo velho e bom tempo perdido.

Soluções mais grosseiras, há. Como papel higiênico, amarrotá-los, jogá-los na privada, dar descarga. Acontece que descargas, não quero parecer alarmista, às vezes entopem. E devolvem justamente aquilo que deveriam levar embora, num comportamento que é o avesso daquele para qual foram programadas. Ah, o avesso, esse é o problema. Pensamentos assim são um sintoma do avesso. E o avesso é a superfície correspondente, igual em tamanho e forma, a tudo aquilo que você considera o direito. Conhecer de cor-e-salteado o direito absolutamente não dá direito a conhecer também o outro lado. Sinto muito, mas ele sempre está lá. Incógnito, invisível, inviável. In, enfim.

Por ser assim, desordena-se. Pelas manhãs, mesmo que o de-manhã de alguns aconteça às seis da tarde. Mesmo nos calvos, a cabeleira abstrata pode amanhecer tão eriçada quanto a da Medusa. E se em vez de veneno as cobras tiverem mel? Tudo depende não me pergunte de quê. Só sei que deve-se olhar direito nos olhos deles, tocar sem nojo nem medo suas mãos cobertas de musgo, teias de aranha. Passar num susto a mão pelos cabelos, reais ou não. Deve-se sempre com a doçura e paciência possíveis nessas situações, mudar rápido de assunto. Ou cair no poço.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

livre da cortisona

atendendo a pedidos: minha pequena Lina, em pose de garota.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

literatura do fim de semana

Don't Wait Too Long
(Madeleine Peyroux)

You can cry a million tears
You can wait a million years
If you think that time will change your ways
Don't wait too long

When your morning turns to night
Who'll be loving you by candlelight
If you think that time will change your ways
Don't wait too long

Maybe I got a lot to learn
Time can slip away
Sometimes you got to lose it all
Before you find your way

Take a chance, play your part
Make romance, it might brake your heart
But if you think that time will change your ways
Don't wait too long

It may rain, it may shine
Love will age like fine red wine
But if you think that time will change your ways
Don't wait too long

Maybe you and I got a lot to learn
Don't waste another day
Maybe you got to lose it all
Before you find your way

Take a chance, play your part
Make romance, it might brake your heart
But if you think that time will change your ways
Don't wait too long
Don't wait
Hmm... Don't wait Hmm...

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

facilidades (im) possíveis

Pés esticados no meio-fio, buscou equilíbrio com os braços finos. Sandália de salto nas mãos, memória recente em giros velozes: “Amada”. Daquela vez, dispensara as árvores da praça sem flores. Embora o luto ainda enchesse a alma de furos, a madrugada oferecia algo além de taças, encantos, promessas e sorrisos. Felicidade é seguir adiante – sussurraram, tantos, horas antes. Em apenas dez minutos se convenceu da sugestão. Palavras fluidas, conversas esticadas, nada de falar dos outros, nem do passado. Alívio, oportunidade: silenciar sobre o principal era desejo antigo. Olhos pregados no presente, ignorando qualquer horizonte – primeira vez? De posse da borracha mágica, esqueceu, abandonou. Benditos os que têm a chance de reescrever os enredos mais doídos. Descobriu: a verdadeira rima ocorre entre dureza e liberdade. Encontrou flores ali, surpreendentes, enfeitando palavras e arredores. Olharam-se, estranhos à facilidade aconchegante. Seria assim a vida dos outros? Riram, a primeira de muitas. Havia cada vez mais sol no céu sem nuvens.

* Amém.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

viver é uma festa....

"A conduta pode basear-se em rocha sólida ou em pântano alagadiço, mas, depois de certo ponto, pouco me importa aquilo em que ela se baseie. Quando voltei ao Leste, no outono passado, senti que queria que o mundo todo estivesse metido em uniforme e colocado numa espécie de posição de sentido moral permanente; estava farto de excursões turbulentas, com privilegiados relanceares de olhos, ao coração humano. Somente Gatsby, o homem que empresta seu nome a este livro, se achava isento dessa minha reação - Gatsby, que representava tudo aquilo por que sinto natural desdém. Se a personalidade consiste numa série ininterrupta de gestos bem-sucedidos, então é certo que havia nele algo magnífico, uma apurada sensibilidade para as promessas da vida, como se ele tivesse alguma relação com esses intrincados maquinismos que registram terremotos ocorridos a dez mil milhas de distância. Essa sensibilidade nada tinha a ver com essa flácida impressionabilidade dignificada pelo nome de "temperamento criador": era um dom extraordinário de esperança, uma presteza romântica como jamais encontrei em qualquer outra pessoa e que, provavelmente, jamais tornarei a encontrar. Não... Gatsby saiu-se bem, no fim; o que perseguia Gatsby - a abominável poeira que pairava sobre a esteira de seus sonhos - é que fez com que eu perdesse temporariamente o interesse pelas tristezas abortivas e pelas ofegantes alegrias dos homens".

(O Grande Gatsby, Scott Fitzgerald)



PS: Se fosse vivo, Fitzgerald só dançaria Madonna!

PPS: Dezembro chegando, florido e calorento, com uma penca de (felizes) novidades: Let's celebrate!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

meditação


Quem acreditou / No amor, no sorriso, na flor / Então sonhou, sonhou... / E perdeu a paz / O amor, o sorriso e a flor / Se transformam depressa demais / Quem, no coração / Abrigou a tristeza de ver tudo isto se perder / E, na solidão / Procurou um caminho e seguiu, / Já descrente de um dia feliz / Quem chorou, chorou / E tanto que seu pranto já secou / Quem depois voltou / Ao amor, ao sorriso e à flor / Então tudo encontrou / E a própria dor / Revelou o caminho do amor / E a tristeza acabou.

* sábio mestre Tom!

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

sem engano*

Acordou na companhia daquela velha e ambígua frase: "Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo". Não estava de ressaca, nem recorrera aos milagrosos remedinhos para chamar o sono. Muito pelo contrário: embalada pelas promessas recentes, escondidas em caixas com chaves, adormecera enquanto desenhava o reveillon. Um esboço possível, ainda, apenas. Mesmo assim, já conseguira enfiar começo, meio e fim na cena que encerraria seu ano mais desmontado. Vestiria branco, e ofertaria flores aos santos, e pularia sete ondas, e prepararia lentilhas e sobremesas geladas, e brincaria de adivinhar canções e cálices. Estaria num lugar distante, rodeada de desconhecidos e palavras estrangeiras, sozinha entre sonhos desfeitos, feliz com as promessas recentes, já não mais encaixotadas. Grécia, incógnita total? Rio de Janeiro, entre gringos de Copacabana? Não sabia direito, mas haveria praia, e sal, e areia nos pés descalços. Assustou-se com o cruel talento para virar a mesa e sair pelos fundos. Como cogitava virar o ano de forma oposta aos desejos da primavera? Despertou triste com os (novos) buracos da alma. Não queria começar a priorizar a felicidade.

* "quando a gente conversa, contando casos, besteiras / tanta coisa em comum / deixando escapar segredos (...)"

** pro Diego, jornalista desde ontem, que ama essa música.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

baby cat

Lina: o (gracioso) motivo das minhas últimas injeções de cortisona.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

muito lindíssima

Eu traço tantos planos / Brilhantes, antes / De te ganhar num salto / Mortal, de iniciante / Na pirraça de te ter / Por enquanto, por enquanto / Eu miro o índio que eu sou / No teu ser / E alcanço / Viagens tão óbvias / Loucuras tão sóbrias / De um iniciante / De um iniciante / Aprendiz das piscinas / Tão tingidas de escuro / Aonde, peixe safo / Eu nado até você / Até o teu mundo / Que eu também procuro / Nesse quarto sem luz / Nessa ausência de tudo / Se prepare, eu tô "locky" / Só precisas de um toque / De um toque de iniciante / De um toque de iniciante

(Blues do Iniciante, Cazuza)

PS: Adoro Cazuza, desde sempre.
PPS: Um viva aos planos, desbotados ou novos, gastos ou imprevistos, refeitos ou levados adiante.
PPPS: Eve, linda, toda felicidade do mundo pra você. Um beijo de feliz aniversário, e um cheirinho no nosso pequeno Zig.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

alfabeto de urgências

(suspiros de) alívio :: beiradas :: coragem :: dureza :: entrega :: futuro :: grandeza :: horizonte :: intensidade :: juventude :: leveza :: misturas :: nuanças :: ordem :: pai (xão) :: quereres :: risada :: sossego :: tesouro :: união :: verdade :: virtude :: vida :: zeros (de recomeço)

* pra mim, pros meus, pros seus. sempre.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

as dores que não curam em botecos

Desde garotinha coleciono livros de psicologia e psiquiatria, sobretudo relacionados a comportamento, tipos de personalidade e distúrbios de humor. Sempre fiz questão de manter os conceitos na ponta da língua, bem como a anamnese necessária para diagnosticar cada caso. Por uma infinidade CONSTRANGEDORA de motivos, e para (tentar) compreender os inexplicáveis da experiência humana, reli uma penca deles em 2009. Abaixo, uma palhinha da introdução de um dos melhores da estante. Se não o mais acessível aos leigos, já que pressupõe algum conhecimento prévio da teoria de Freud, epicentro das escolhas da autora, ao menos o mais tocante, pelas difíceis questões trabalhadas. Chama-se Perdas Necessárias, e é da psicanalista Judith Viorst.

"Um tanto enrugada, altamente vulnerável e definitivamente mortal, examinei essas perdas. Essas perdas de uma vida inteira. Essas perdas necessárias. As perdas que enfrentamos quando nos vemos face a face com o fato do qual não podemos fugir...
que nossa mãe vai nos deixar, e que nós vamos deixá-la;
que o amor da nossa mãe jamais será só nosso;
que as dores que nos machucam nem sempre desaparecem com um beijo;
que estamos no mundo essencialmente por nossa conta;
que teremos de aceitar - nos outros e em nós mesmos - um misto de amor e ódio, de bem e de mal;
que, por mais sábia, bela e encantadora que seja, nenhuma garota pode se casar com o pai quandro crescer;
que nossas opções são limitadas pela anatomia e pela culpa;
que nosso status neste planeta é implacavelmente efêmero;
e que somos completamente incapazes de oferecer a nós mesmos ou aos que amamos qualquer forma de proteção - proteção contra o perigo e a dor, contra as marcas do tempo, contra a velhice, contra a morte, proteção contra nossas perdas necessárias."

* Um brinde aos heróis que concluem o trecho sem engasgar em nenhum tópico!

** Quando leio teoria, sempre volto à ficção, e vice-versa. Um dos melhores TRATADOS sobre a perda está no conto Babilônia Revisitada, de Scott Fitzgerald. Escrita em 1931, a história narra uma sucessão de perdas devastadoras porque irremediáveis, inadiáveis porque inexoráveis, definitivas porque contingenciais. "Tudo acabou, inclusive eu" - diz o protagonista Charles Wales, alcóolatra regenerado, abrindo a narrativa. Para conferir, 25 Contos Escolhidos, da Companhia das Letras, com (excelente) tradução de Ruy Castro.

*** Drops do melhor de Fitzgerald:
"Já se fartara do afã e da inventividade de Montmartre. Constatou que, ali, a oferta de vício e extravagância se dava numa escala tremendamente ingênua, e só então se deu conta do significado da palavra 'dissipar' ― dissipar no ar; transformar qualquer coisa em nada. Às altas horas da madrugada, cada deslocamento de um lugar para outro era um gigantesco salto humano, e pagava-se um preço cada vez mais alto pelo privilégio de movimentos mais e mais lentos.
Ele se lembrou das notas de mil francos dadas a orquestras para tocarem uma única canção, das notas de quinhentos francos atiradas a porteiros por terem chamado um simples táxi. Mas esse dinheiro não tinha sido em vão. Mesmo as quantias mais loucamente desperdiçadas haviam sido dadas como oferenda ao destino…"

terça-feira, 17 de novembro de 2009

outra dele*


"Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder.
Tudo é tão vago como se não fosse nada."

(Caio Fernando Abreu, em Os dragões não conhecem o paraíso)

* à mainha, que me apresentou caio f.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

alívio literário

"Viver é muito perigoso..."

(Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

a (im) potência dos círculos

Quando encarou a imagem do espelho, precisou recorrer à velha dureza para seguir adiante. O coque esticado com grampos mais escuros do que o cabelo, o collant apertado em tons de cinza, a meia calça cor-de-rosa sem rasgos ou riscos e as sapatilhas de pontas desafiadoras denunciavam uma nova rachadura, talvez a maior de todas. Algum desespero inquietante já afastara o horizonte com tanta crueldade que apenas um resgate das grades do passado parecia capaz de colorir a vida de possibilidades.

Há dez anos não vestia as sapatilhas, há dez anos evitava aquele retorno antes tão incerto, há dez anos o mundo prometia aventuras dignas da alta literatura. Se estava ali agora, dividindo a barra com uma turma de crianças espantadas com os respingos de tristeza, é porque tudo se desmanchara mais uma vez. Antevia, porém, e sem dificuldade, a falência do mergulho – jamais teria dezoito anos novamente. Já desejava pouco demais para realizar tamanho avanço. Desejava cada vez menos: gestos vagos, inocências perdidas, perdões pelo excesso, construções atrasadas, mais tempo.

Olhou-se de perfil e contabilizou as destruições dos últimos meses; provavelmente jamais se manteria de pé sobre as sapatilhas novamente. O furacão arrancara todas as árvores: profissão, canções, parentes, amizades, rotina, projetos, parte da casa. Bastava um tantinho de equilíbrio para agilizar a retomada – mas onde? Quem lhe estenderia as mãos se continuava precisando estender aos outros? Sentiu medo dos abrigos hipotéticos.

Pensou nas novidades que povoavam o mundo descascado de então, tantas, diversas, cheias de promessas e alívios. Cuidaria bem da gata ainda sem nome? Ainda não sabia, como não sabia um sem fim de dados importantes, e urgentes, e inadiáveis. Conseguiria de fato? Sim, conseguiria, conseguiriam todos – assim era sempre. Limpou as lágrimas da alma, apertou o estômago dolorido em queimaduras de gastrite; encarou uma a uma as manchas roxas das pernas. Contara dezoito na semana anterior.

Equilibrou-se apenas na perna esquerda, recebeu um sorriso suave de criança. Retribuiu, rodopiou, abandonou o pior. Ainda havia amor, e ainda havia esperança, e ainda havia expectativa. Além do mais, não pode existir receio no coração das bailarinas. Agradeceu às sapatilhas, à vida, a ele. Não faltavam motivos.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

coração + agir = coragem*

Meio Silêncio
(Caio Fernando Abreu)

Águas de vidro à luz doentia da madrugada. Um vidro verde e fino refletindo longe o tremor das luzes da cidade. Aproxima lento o próprio dedo da ponta acesa do cigarro até senti-lo retrair-se num afastamento involuntário. O rosto do outro também parece feito de vidro. Um vidro ainda mais frágil que o da madrugada. Tem a impressão que se sair caminhando o ar irá quebrar-se em ruídos e estilhaços. A lua está tão bonita que dói por dentro, fala. Depois retrai-se como o dedo não queimado. Sempre o medo de chegar perto demais, de não poder voltar atrás, pensa, e solta devagar a fumaça pelas narinas.

"Quer ouvir música? meus dedos avançam até o rádio. Um gesto e três palavras para encher o silêncio. Que de tão repleto não cabe em si mesmo. Mas ele diz não. Sua resposta me enche de uma brusca vergonha. Como se tivesse descido mais fundo do que eu, dispensando as facilidades que também são fuga. A luz da lua bate nas pedras, elas brilham feito mil luas brancas, mil luas ásperas, mil luas à beira de um céu-rio sem estrelas. Está tudo quieto - há quanto tempo? - e meus ouvidos já não descosturam do silêncio o rumor dos carros passando distantes na estrada."

Olham-se, mas não se vêem. A escuridão não é uma parede, mas o silêncio os imobiliza na busca da palavra maior. Os dois fumam. As pontas acesas desvendam o escuro, e por instantes colocam um brilho avermelhado nas pupilas de ambos.

Perguntou se eu queria ouvir música. Não, eu disse sem pensar. Então ele calou como se tivesse ficado ofendido por eu recusar alguma coisa sua. Desconhecidos: como isso é, a um só tempo, terrivelmente bom e terrivelmente assustador. Pensar que eu estava só, no bar, esperando nem sei que, nem sei sequer se esperando: de repente os olhos me buscando no balcão em frente. Verdes. No primeiro momento foi a única coisa que percebi. Verdes, os olhos, atrás da fumaça, no meio das gentes, na frente do espelho. E o espelho refletindo o meu espanto. Depois vi os cabelos, a boca, os ombros. Mas era nos olhos, só nos olhos, que se fixava aquele mudo apelo, aquele grito. Nem sei. Aquela clara maldição. Saí, saiu. Não dissemos nada. Eu só tenho esperas. Ele traz a tranqüilidade de mais nada esperar.

"Um menino. Aquele ar espantado. Um pouco trêmulo. Cigarro atrás de cigarro. Tenho medo de tocá-lo. De quebrá-lo."

Eu disse: a lua está tão bonita que dói por dentro. Ele não entendeu. É tudo tão bonito que me dói e me pesa. Fico pensando que nunca mais vai se repetir, é só uma vez, a única, e vai me magoar sempre. Não sei, não quero pensar. Neste espaço branco de madrugada e lua cheia, preciso falar, e mais do que falar, preciso dizer. Mas as palavras não dizem tudo, não dizem nada. O momento me esmaga por dentro. O espanto esbarra em paredes pedindo exteriorização.

Você vê? as pedras parecem luas também. Ou estrelas, ele diz. Chão de estrelas. Vamos pisar nos astros distraídos? Ele ri. Nesse segundo cheio de riso alguma coisa se adensa. Nossos pés pisam em pedras. Mas por cima dos sapatos, sinto que são frias e duras, e sei que seu significado está em nós, não nelas. Uma vontade que a manhã não venha nunca. Vai voltar a grande busca. As noites vazias. Amargura de estar esperando. Repetir mil vezes: não quero esperar. E a certeza de que esse não querer já traz implícitas as longas caminhadas, o olhar devassando os bares, a náusea, os olhares alheios, a procura, a procura: seus ombros largos, um jeito de quem pisa mesmo em luas, não em pedras.

As sombras se projetam alongadas na praia deserta. Rumor de carros e faróis que devassam a noite sem achar. Pára de súbito, o corpo ferido por um sentimento indefinível. Precisa falar, precisa dizer.

Afinal, não foi para enfiar pérolas que você me trouxe aqui: eu digo. Ele está a meu lado. Então me olha sério, por um instante abalado, depois ri e diz: desista. Positivamente o cinismo não fica bem em você. E se com essa citação só quer mostrar que já leu Sartre, eu também já li. Por que feri? Por que feriu? Por que estamos dizendo coisas que não sentimos nem queremos?

"Um menino assustado querendo mascarar o medo com a agressividade. Um menino. Curvo-me para ele. Tão esguio que meus braços o rodeariam por completo. Por um instante ele ficaria inteiro preso dentro dos meus limites."

O rosto dele próximo do meu. Mais adivinho do que vejo o verde dos olhos deslizando pelas órbitas. A sua mão toca no meu ombro, sobe pelo pescoço, me alcança a face, brinca com a orelha, alcança os cabelos. O seu corpo cola-se ao meu. A sua boca vem baixando devagar, vencendo barreiras, colando-se à minha, de leve, tão de leve que receio um movimento, um suspiro, um gesto, mesmo um pensamento. Estou em branco como a noite. Ele me abraça. Ele está perto.

Ergue o braço lentamente, afunda as mãos nos cabelos de outro. E de súbito um vento mais frio os faz encolherem-se juntos, unidos no mesmo abraço, na mesma espera desfeita, no mesmo medo. Na mesma margem.

* post dedicado às felizes proximidades.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

urgente & loucamente

- Ainda dá tempo - Frederico sugeriu, com os olhos molhados.
- Tempo há.
Lívia fez uma pausa, para continuar:
- A esperança é que sempre termina antes do tempo.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

surpresa das boas

Nunca fui tarantinomaníaca, longe disso. Do diretor nerd & over & pop, gosto de Cães de Aluguel, cujo roteiro considero genial, e Pulp Fiction, bacaníssimo (principalmente pelo retorno do carismático John Travolta). Adoro também, e muito, Natural Born Killers, mas como Tarantino garante que Oliver Stone destruiu o roteiro dele, não posso reinvindicar o posto de fã (ainda que Juliette Lewis permaneça até hoje como minha musa suprema). No mais, nunca consegui terminar Jackie Brown, muito menos Kill Bill, chatíssimos - na minha modesta opinião de poucas referências. Despida, então, de QUALQUER expectativa, fui assistir Bastardos Inglórios, crente de que a apropriação do tema 2ª Guerra Mundial pelo amante dos miolos estourados resultaria em algo, no mínimo, kitsch e mal intencionado.

Adorei me enganar redondamente.

Bastardos Inglórios reúne as melhores armas do diretor (sem trocadilhos): diálogos afiados, roteiro bem amarrado, estruturação circular, referência pop, trilha surpreendente, violência gratuita, releitura dos seus clássicos (jamais os clássicos da história do cinema), cultura do pastiche, kitsch como orientação e aquelas tantas oitavas acima, sua marca mais original. Desta vez sem picotes (estréia no estilo?), o roteiro é dividido em capítulos que narram duas histórias mais ou menos paralelas, com uma penca de rabichos pelo meio (destaque para a espiã trapalhona de Diane Kruger e a maravilhosa historinha do herói de guerra ovacionado pelo povo alemão, apaixonado pela maior inimiga da sua amada pátria).

A primeira história central é a da bela Shosana, única sobrevivente de um massacre judeu, dona de um cinema na França. A segunda, do bando Bastardos Inglórios, "sanguinários" dispostos a exterminar o nazismo com as estratégias mais primitivas ("o negócio é abater todos os uniformes nazi"; "só vale escalpelado"). A motivação para ambos os núcleos é a mesma, mas nenhum deles sequer desconfia da coincidência, o que rende momentos muito engraçados, sobretudo no desfecho - uma sucessão de confusões que, graças ao improvável sucesso, culmina numa espécie de justiça tardia para toda a civilização ocidental ainda assombrada pela ascensão de Hitler.

Descontado o primor do roteiro, repleto daqueles viciozinhos deliciosos de Tarantino, como concluir sempre com alguma gag exposta no primeiro terço do enredo, o filme chama a atenção por conseguir imprimir ao evento de horrores uma visão exclusiva (e original). A Alemanha nazista de Tarantino é o território de proliferação do kitsch, do bizarro, do freak, do estúpido, do nonsense e do gratuito. Tudo aqui rima com simulacro, absurdo - inclinação que potencializa ainda mais os préstimos da exploração da violência gratuita, colocada à serviço de uma história (História) que se alimenta desta mesma aviltante gratuidade.

Bastardos Inglórios apela para o pastiche como estilo de narrativa, o que fica bastante evidente já a partir do segundo capítulo*, sobretudo com os histrionismos de Brad Pitt no papel de Aldo, o chefe do bando (atuação que não agride, já que dialoga com a estética do filme). A 2ª Guerra Mundial aqui é refeita com base numa paródia (relativa) que consegue ser debochada, crítica e respeitosa ao mesmo tempo. Diferentemente de A vida é bela, que imbeciliza a tragédia dos campos de concentração ao apostar num enredo fabular, Tarantino constrói uma versão inteligente que nos traz um Hitler histérico, um Goebbels medroso e um chefe da polícia nazista vaidoso e confuso. E já estava na hora de alguém sujar as mãos pra falar dessa gente com menos dados e mais rancor.

Bastardos Inglórios ainda acerta as contas com o passado, apostando num desfecho apoteótico e insano, bem à Tarantino, que diverte ao mesmo tempo em que nos faz pensar sobre os rumos do mundo pós-Shoah**. E conseguir reler um tema de tamanha complexidade, sobretudo tão afastado do seu próprio universo, não é pouca coisa.

Bonzíssimo - mesmo sem a Juliette Lewis.

* Em tempo: os primeiros 20 minutos do filme já compõem o rol das melhores aberturas da história do cinema (alimento essa lista há anos). Muito, muito, muito bom. Magistral.

** Pra quem não sabe, Shoah é o termo hebreu que designa catástrofe. Vem sendo utilizado no lugar de holocausto, que significa sacrifício, por ser considerado mais adequado ao massacre perpetrado pelos nazistas e aliados contra os judeus (só fui saber disso na pós, quando estudos de testemunho da Shoah viraram uma das minhas obsessões, por isso a explicação).

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

meus mais (parte dois)

:: Palmeiras Selvagens (William Faulkner, 1939)*

"Estamos entre a dor e o nada", sentencia uma das personagens centrais da narrativa, o médico e virgem Henry Wilbourne, de 27 anos. Charllote, a perturbada companheira, casada e mãe de duas filhas, ouve calada, atada aos próprios fantasmas. Tentando driblar os sofrimentos indizíveis desta paixão de verão, o casal exila-se numa praia, de frente para a natureza selvagem. Ilhados, então, apenas um e outro, potencializam ao máximo as feridas e exercitam alguns tipos cruéis de intimidade: rancor, ódio, mágoa, desencontros, desacertos.

Palmeiras Selvagens, a história de (des) amor, é apenas uma das partes do romance de Faulkner. O Velho, apelido do Rio Mississipi, compõe o restante da obra, recebendo o mesmo número de páginas. Deslocado da temática anterior, e estruturalmente recusando qualquer elo narrativo, o escritor esmiúça aqui a luta de um presidiário para sobreviver à furiosa enchente, após cair na água durante o translado de bote e ser tragado pela correnteza do dilúvio.

Aparentemente, não há conexão entre as duas fatias. Conhecido pela habilidade na arquitetura dos romances, pensados e erguidos a partir de sofisticados artifícios, Faulkner agora dispensa qualquer intersecção, recusando os manjados (e muitas vezes necessários) cruzamentos ao fim da narrativa. Não espere explicação, nem alento, sequer sugestão. Ainda assim, concluída a leitura, permanece uma impressionante sensação de que estamos lendo versões diferentes de um mesmo ato, o ato da resistência.

Autor (por excelência) das mazelas e idiossincrasias do sul americano, projeto central da sua ficção, Faulkner é especialista no retrato dos limites da experiência humana. Até quando resistimos? Até onde vai a nossa força? Quanto possuímos de fé? Somos corajosos ou acomodados? Em Palmeiras Selvagens, anterior ao Nobel de 49, esta espécie de ética da persistência costura os grandes achados do texto, unindo, relativamente, as duas narrativas.

O presidiário que inspirou seu assalto em leituras de folhetins tenta desesperadamente manter-se vivo em meio à fúria destrutiva da natureza. O casal insólito (e proibido) luta para sobreviver diante das impossibilidades do contemporâneo. Charllote, aparentemente frágil, é quem mais insiste: "aguento meses seguidos de fome no estômago, mas não aguento um minuto sequer de fome no peito". Uns remam, literalmente, contra as forças da chuva. Outros, contra as forças internas. Para Faulkner, são todos uns desgraçados, mortificados por batalhas inglórias.

Se o tema da resistência insinua-se nas entrelinhas, não há quase nada de factual no plano aparente. O visto não passa de uma sequência de cenas, historinhas, cotidianos. O ápice do drama, inclusive, está já na abertura do romance: o aborto de Charllote, que marca a consequente condenação de Henry, autor do feito, a 50 anos de cadeia, por homicídio. Na segunda narrativa, o auge da atividade ocorre quando o presidiário ajuda num parto, roçando certo contato com a trajetória do casal enclausurado, e desafiando as leis da lógica e do dilúvio.

Enquanto o primeiro texto parece determinado segundo leis trágicas, sobretudo pela plena consciência dos envolvidos na inviabilidade do projeto que tentam manter de pé, persistindo dia após dia no erro, O Velho mantém certa dose de humor, característica do autor (evidente em Enquanto agonizo**). Até mesmo pelo empenho bizarro do presidiário: chegar a qualquer lugar onde consiga se entregar à polícia e voltar à cadeia. Quando consegue retornar, finalmente, enfrenta uma horda de burocracia para se "alojar" porque é dado como morto.

De resto, pouquíssima ação, justificada num projeto ficcional calcado na reconstrução da vontade humana como uma pálida intenção diante das verdades do mundo. As personagens do autor estão sempre à deriva: da história, da natureza, dos desejos, da experiência, da vida. Se a enchente é obra do acaso, nos obrigando à entrega, o amor aqui também recusa o paliativo da escolha: imperativo, ele devora os sujeitos. Não temos, no fundo, a oportunidade de agir.

Em Faulkner, o monumental está sempre no entrevisto. O mundo quase sempre é sugerido como um espaço inabitável, embora tal sentença não se torne texto em nenhum momento. Há sempre algo maior que assombra a existência individual - por certo um resquício escamoteado das incertezas levantadas pelos anos de Guerra Civil, na construção do ethos sulista. Talvez por isso não seja o fracasso que derrota o indivíduo faulkeriano, e sim a desistência.

Ao passo que economiza na ação, esteticamente constrói uma obra majestosa (e o adjetivo não é gratuito). Especialista em escrever sobre nada, Faulkner narra com toda a categoria o insólito, descortina o corriqueiro, transforma cenas prosaicas em narrativas construídas à facão, num labirinto de escolhas cuidadosas e originais. Posicionar a humanidade entre a dor e o nada foi a forma encontrada aqui para dar voz a uma das máximas da sua civilização: estamos sozinhos, somos sozinhos, do princípio ao fim. E a maneira como realiza tal empreitada, com frases sinuosas, recortes imprevistos, monólogos sem travessão e todo tipo de digressão, sobretudo as descritivas, esmaga qualquer escritor. Qualquer, mesmo. Mestre absoluto.

* Sei, sinto e reconheço a superioridade de Luz em Agosto, romance de 1932, para a compreensão da obra do autor. É gritante a diferença, em relação a qualquer outra experiência literária, e eu mesma acho um dos livros mais bem escritos de TODOS os tempos. Ainda assim, mesmo bem menos ambicioso, não tão perfeito na mescla de tema e estrutura, não tão representativo da sua ética e dos seus dilemas, meu eleito sempre foi/será Palmeiras Selvagens. Sem qualquer razão além da mais indesejada no cenário crítico: me fala ao coração.

** Nunca consegui concluir O som e a fúria, de 1929. Ainda espero triunfar na empreitada.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

resenha para um amigo

Sem medo do clássico*
(versão do autor)

João Hernesto Weber pertence àquele rol de professores que marcam a trajetória dos alunos, seja pela ironia impressa nos debates orientados em sala de aula, seja pelo extenso conteúdo apresentado nas grades. Acompanhar seu pensamento, porém, já não é exclusividade dos freqüentadores dos embates literários brasileiros, circunscritos num universo de congressos, pesquisas e artigos científicos. O lançamento de Tradição Literária & Tradição Crítica, sua mais recente coleção de ensaios, expande a experiência do autor para além dos limites da academia, reposicionando ricas discussões sobre o Brasil, a literatura daqui e sua crítica.

A direção de Weber, importante frisar, é avessa a modismos teóricos de qualquer espécie. Se a universidade muitas vezes remaneja expectativas em função do filósofo estrangeiro em voga no momento, ele dispensa o hype e se debruça sobre a cartela habitual de preferências, com raízes bem fincadas. Pensando o processo de formação da nossa literatura, dialoga com Antonio Candido, Roberto Schwarz, Alfredo Bosi, pelos quais nunca deixou de nutrir certo “respeito-ternurinha”, como sugere já na escolha da epígrafe, de Carlos Drummond de Andrade. Analisando nossos pontos altos, recorre a ficções do porte de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos. Na base da paisagem, norteando o pensamento, multiplicando a profundidade, a sombra do filósofo alemão George Lucacks, autor de Teoria do Romance. Weber é clássico, e Tradição Literária & Tradição Crítica comprova a eternidade do olhar que lança sobre povo e nação, ficção e história, ordem e desordem - sempre na releitura dos seus eleitos.

Estimulado pelo objetivo de relacionar literatura e sociedade, legítima missão à linhagem de Weber, e título de clássico recorrente ao longo do livro, o grupo de 14 textos compõe um sofisticado painel das discussões formativas mais relevantes da nossa historiografia crítica. A complexidade aqui está no intercruzamento, perseguido também, do pensamento brasileiro com as ficções mais profícuas da nação. Discutindo afastamentos e zonas de contato entre as teorias de Candido, Schwarz, Raymundo Faoro e outros tantos, em Algum “desconforto crítico”, Weber revitaliza a obra de Machado de Assis, construindo sua própria Capitu, ao mesmo tempo em que remete às construções de Schwarz sobre as meninas do bruxo do Cosme Velho. Partindo do título do livro de poemas de Guilhermino César, também crítico e historiador, em Arte de Matar, desconstrói o discurso contemporâneo das desconstruções, numa metateoria repleta de ironia, reivindicando a validade das análises marxistas que buscam relacionar literatura e sociedade. Clássico, sem dúvida, inclusive nas críticas.

Quando discute diretamente formação, seja crítica ou literária, Weber ratifica a potência de um pensamento que resiste mesmo diante das flutuações teóricas típicas do meio por onde transita. Sua compreensão da importância de Antonio Candido, bem como das relações tecidas entre o crítico e seus seguidores, ainda que distanciadas em tantas instâncias, ajuda a explicar não apenas os (des) caminhos da nossa literatura como também a própria consolidação da experiência intelectual brasileira. A riqueza da abordagem encontra-se nos desdobramentos infinitos: enquanto desvela a literatura por meio da estrutura social, e a própria sociedade por meio da ficção, Weber ainda incute significado nos desdobramentos da trajetória de cada um dos críticos com quem dialoga, ao longo dos ensaios. O Candido autor de Formação da Literatura Brasileira, por exemplo, difere em muito do ensaísta de Dialética da Malandragem, quando já revia os próprios vácuos teóricos. Lançar luz sobre tais nuances, imperceptíveis muitas vezes, é um empreendimento executado com cuidado (e raro respeito) pelo pesquisador.

Dotado de incisivo espírito crítico, até mesmo quando discorre sobre os seus mais caros companheiros de jornada, Tradição Literária & Tradição Crítica oferece lições definitivas ao leitor sobre o que é ser brasileiro. Discute nossa formação, literária e crítica, apontando pontos culminantes e seqüestros impróprios; revê e relê nossos clássicos, incentivando o consumo permanente; apresenta novas entradas de leitura, expondo em muitas páginas abordagens diferenciadas e originais, sobretudo nas análises de Machado de Assis e Guimarães Rosa; homenageia um método de trabalho que permanece contemporâneo mesmo em meio à enxurrada de novidades, ao mesmo tempo em que se posiciona no centro dele, fazendo parte, agora ele próprio, Weber, de uma tradição que ajudou a esboçar, construir, pensar, analisar, consolidar.

Tradição Literária & Tradição Crítica interessa a qualquer brasileiro. Estudiosos e curiosos encontram aqui uma chance única de conhecer um olhar apurado sobre os atos mais definitivos da crítica e da literatura brasileiras. Ex-alunos e colegas têm ainda mais sorte: as 167 páginas de ensaios nos levam de volta às salas de aula, palco no qual o autor apresenta ao vivo as lições ofertadas aqui. Essa, sim, é a melhor parte.

Jade Martins é doutora em Teoria Literária pela Universidade Federal de Santa Catarina.

* Texto publicado no caderno DC Cultura, do Diário Catarinense, em 17 de outubro.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

like a flower, waiting to bloom...

"Virou-se então para a direita, em busca das vozes que soavam um pouco mais distantes do que quando atravessara deslumbrada o charmoso galpão. Bateu o rosto num emaranhado de samambaias que desciam do teto, presas por fios de nylon quase imperceptíveis, e teve a impressão de ouvir lamentos de despedida. Dobrando de novo à direta, e agora já quase no terraço que se abria para a rua, de lado para o mar, encontrou um grupo de oito ou nove pessoas bajulando-se num tilintar alegre de taças, envoltas em perfumes doces e vestidos suaves, trocando sutis palavras de agradecimento, preparadas para se servirem em bando de mais bebida, e logo retornarem. Espiou entre as plantas, avistou o grupo partindo e deteve o olhar sobre aquele que restou, ele, o garoto, quase o motivo para aquela noite, Tom, como poderia ter esquecido? Sem notar que estava sendo observado, ele saltou imediatamente para o parapeito do terraço, equilibrou-se com apenas uma mão, na outra segurava uma taça de champanhe, e espichou-se inteiro, recebendo de braços abertos a fresca brisa do início da madrugada. Os pés, enormes, ocupavam quase toda a extensão do parapeito, numa estreiteza de medidas que acentuava ainda mais a impressão de que tombaria a qualquer instante. Bastou um olhar demorado, porém, para logo reconhecer a velha administração competente dos riscos, peito aberto, queixo firme apontado para a frente, corpo grande e largo em total equilibrio, como o leme de um barco que jamais afundaria, seguro como só ele conseguia ser e parecer, sobretudo parecer. Estava mais gordo, ela reparou, embora tenha sido uma criança quase sempre acima do peso, por mais que corresse com a amiga pela praia até precisar se jogar na areia para acalmar os saltos do coração. Estava mais bonito também, como se os anos tivessem lhe arrancado as bochechas e os olhos infantis, como se a vida tivesse lhe presentado com um traçado mais fino, ângulos quase agudos agora, talvez até um olhar mais grave. Quando levantou uma perna, cambaleando em busca de um novo ponto de equílibrio, só pelo prazer de sentir aquele aperto no estômago, apenas para se sentir corajoso como nenhum outro, em guerra, sempre, quando brincou e se mexeu e pulou e quase saltou dali do alto, fingindo estar num murinho baixo de garagem, Nina percebeu que era o mesmo Tom, sim, não restava dúvidas."

(by myself)

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

trechinhos

"O chacoalhar vagaroso e lento do táxi desviava sua atenção das lombadas frequentes. Enquanto o sono sussurrava palavras de consolo, sentia o desejo da conversa definitiva, antes tão vago, transformar-se em imperativo; diferentemente das outras vezes, o pensamento agora tomava a forma de decisão, à espera da maneira mais rápida e indolor de alcançar o mundo. Desde a chegada na cidade, reconhecia a necessidade daquela ordem penetrar de maneira irremediável dentro de sua intimidade; então, não dependeria mais de palavras de encorajamento nem ensaios em frente ao espelho. Seria logo, na manhã seguinte, e a nova dor originava-se justamente do caráter inadiável recém-impregnado na situação. Com os pensamentos um tanto desordenados, mais pelas últimas horas levadas diante do passado inacabado do que pela certeza cruel dos próximos passos, pagou o motorista e lhe desejou boa noite. Custou a abrir o pesado portão de ferro e procurou as partes secas do chão para evitar encharcar a sola do sapato na grama úmida de dezembro. Entrou em casa cuidando com o barro e se assustou com o relógio marcando quatro e trinta. Quatro e meia da manhã, quase cinco, já o outro dia, o dia que apagaria mais aquela luz. E se resolvesse tudo aquilo naquele instante? Não, não, não era possível. Embora tenha cogitado durante alguns segundos, olhos presos no telefone preto, coração batendo sem ritmo à procura da melhor maneira de dizer nunca mais, agora já era, já foi, desistiu do telefonema ao assumir que não estava completamente sóbria, nem completamente sã, com completamente equilibrada. Faltava-lhe estrutura para não se comover e segurança para se manter de pé, depois de todas aquelas taças, sobre os centímetros a mais da sandália. Pelo receio de pôr tudo a perder, a velha precipitação companheira dos seus momentos cruciais, no quais era tomada pela perigosa dificuldade de manter-se parada, à espera da hora certa de ir adiante, jogou-se na cama sem trocar de roupa, ainda com os restos da maquiagem. Não teve tempo de pensar em nada, apenas fechou os olhos e dormiu, embalada pela mistura de bebidas, pelo sono bom às vezes trazido pelo álcool, pelas tristezas que começavam a ir embora, pela valentia com que encarou o sorriso de canto de Daniel, por ela mesma, a própria Nina, que voltava a ser, ainda bem, voltava a ser aquela menina valente que se recusava a alimentar o sofrimento. Antes de cair no sono, prometeu, de si para si: jamais sentiria saudade dela mesma de novo. "

(ibid idem)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

letrinhas (por ora) engavetadas

"Talvez quando encontrasse um zero de onde recomeçar conseguisse enumerar com mais desenvoltura as coisas todas que continuavam à sua espera. Haveria de fazer planos também, afinal sempre os fizera, e talvez até algumas resoluções já estivessem tomando forma, ainda que timidamente: voltaria para o Rio de Janeiro, era lá o seu lugar; organizaria visitas mensais ao sul, onde já reencontrara aconchegos preciosos como um novo horizonte; retomaria a rotina das hípicas, reavendo ao menos aquele talento; escreveria sobre tudo aquilo, e escreveria sempre, o que quer que estivesse fazendo a cabeça falhar. Uma névoa, no entanto, quase lhe arrancava as certezas uma a uma: permanecia sem destino para a inquietação que crescia em velocidade constrangedora desde que vislumbrara de novo a pequena rua sem saída. Só sabia que era algo incontrolável, e que preenchia com fúria todos os outros planos, inadiável, imprescindível, a única sugestão capaz de dotar de alguma tranquilidade os anos futuros".

(meu livro de gaveta)

terça-feira, 13 de outubro de 2009

diálogos nonsense no trânsito...

(para no farol, sol a pino, abre o vidro pra ouvir as propostas do ambulante. zero paciência.)

- Quer comprar um livro de piadas? Já estou na segunda edição.

- Não estou pra piadas, moço.

(o humor negro da vida é coisa espantosa!)

- Posso dizer uma última coisa? Juro que não é piada.

(um sim rápido, de olhar baixo)

- Você é muito bonita.

(!!!)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

meus mais

Como discutir literatura é uma das missões deste blog, quase sempre substituída por incursões ficcionais ligeiras e biografemas inconclusos, preparei uma lista com a dezena de historinhas que me transformaram naquilo que sou hoje (pro bem e, principalmente, pro mal). Meus dez mais foram lidos, relidos, vistoreados, devorados e pensados ao longo dos últimos anos, rendendo as impressões abaixo. Discípula obediente de Nelson Rodrigues, acredito piamente que o único prazer (intelectual) maior do que a leitura é a releitura. E, para finalizar, é sempre bom deixar claro: a escolha foi feita de súbito, desprezando, ao mesmo tempo, a isenção e o hype. Ou seja, as opiniões remetem apenas a sentimentos inexplicáveis e intensos, não a teorias literárias, "clássicos obrigatórios" ou teses de terceiros, embora às vezes a coincidência ocorra. Sem preocupação alguma além da satisfação, a única ordem aqui é liberdade. *


:: Suave é a noite (Scott Fitzgerald, 1934)

Há algo de trágico na trajetória do prodígio Dick Diver, médico que abandona a psquiatria para se casar com uma bela paciente, a milionária e esquizofrênica Nicole Warren. Nas três partes que compõe o romance, expostas em ordem não cronológica, quase tudo é impossibilidade, derrocada, fracasso - embora as três palavras não pontuem a narrativa, exemplo da sutileza do autor. Dick era um zé-ninguém que prometia tudo, sem cumprir nada. Nicole era uma garota que encontrava tudo à mão, menos o principal. Juntos, viveram a aventura de uma geração, perdida já nas primeiras linhas, esbanjando dinheiro, juventude e expectativas como se jamais fossem acordar no dia seguinte. Ao contrário dos romances anteriores, nos quais narrou com maestria as madrugadas iluminadas dos anos 20, Suave é a noite é a obra da ressaca, a única que detalha a manhã seguinte aos excessos inevitáveis.

Os porres homéricos, a paixão proibida (e salvadora) do protagonista pela fútil Rosemary, a luta (inglória) de Nicole contra os fantasmas da infância, o estilão boudoir das intrigas e dos desfechos, os coadjuvantes perdidos em cenas hilárias e/ou tristes, os navios flutuando de um lado a outro, a imagem do imponente hotel nas bordas do mar azul da Riviera**, o deslocado duelo decidido entre um gole e outro, a vida que passa com excessiva rapidez, sem aceitar os freios da cautela e/ou do planejamento, corroendo sonhos e liberdades, furiosa e descontrolada, entregue à ruindade mais terrível de cada personagem. Ruindade porque descrença, preguiça, comodidade. Uma profusão de males, males que nascem de escolhas, as escolhas erradas da vida.

O grande barato aqui, o mais tocante, é certa sensação compartilhada por quase todas as personagens do livro: olhar para trás e não gostar do que encontra; encarar o espelho e vislumbrar algo (muito) imprevisto. Diferentemente da civilização construída em seus outros três romances, Este Lado do Paraíso, Belos e Malditos e O Grande Gatsby, o tempo passou em Suave é a noite, e já não somos mais jovens, nem belos, nem contamos com um futuro repleto de páginas em branco. Há uma tristeza funda na constatação da melancolia. Mas há uma contrapartida típica da obra de Fitzgerald, um generalizado e infantil "dane-se, somos melhores, continuamos sendo melhores, porque tivemos coragem para viver isso". Mesmo que "isso" signifique uma grandiosa derrocada, talvez até pelo imperativo da queda.

Há certa afetação no texto, adjetivado e cheio de plumas, marca da poética do escritor, que entrou para a história americana justamente por adotar o contraponto estilístico do colega e inimigo Hemingway (com quem, inclusive, costumava comparar seus dotes nos lavabos da high). Escrito em longuíssimos oito anos, enquanto o próprio Fitzgerald padecia entre clínicas contra o alcoolismo e visitas ao hospício da mulher Zelda, Suave é a noite é formalmente irregular, bagunçado e muitas vezes, muitas mesmo, levado às pressas. Ainda assim, o resultado constrói um monumento de clima, frescor, legitimidade. As últimas cenas de Dick na Riviera, olhando o mar ao longe, órfão de afeto e de bebida, faminto da juventude que tanto temeu perder, continuam me deixando com os olhos molhados, mesmo após uma dúzia de releituras.

Derradeira incursão literária do autor, já que O Último Magnata é obra póstuma, Suave é a noite é todo Fitzgerald: as experiências, as marcas, o estilo, as dores, a cena, os defeitos, os alívios***. Mesmo se não fosse tão bom, só por isso já valeria a pena.


* Este post deveria abarcar todos os meus mais. Como me passei na análise, publicarei um por um. Nada mais justo: me recuso a me economizar, sobretudo para os meus favoritos.

** Sou tão devota que reproduzi, na minha primeira viagem à Europa, TODO o roteiro Cote d'Azur vivido pelo casal Dick e Nicole, com direito a fotos em cada uma das praias e uma sessão extra na pequena Saint Raphael, onde a família da moça construiu seu hotel. Sick, admito.

*** Palavra de quem leu mais de dez biografias de Scott Fitzgerald, duas de Zelda Fitzgerald, a mulher dele, incontáveis perfis, dois livros sobre o casal e uma compilação de cartas trocadas.
Sick total, admito.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Charlie & Lola

Começou com um susto bobo: "Você escuta Nirvana?!?!". Era aniversário dela, e ele chegou ao pequeno bar central antes de qualquer convidado, inclusive da própria anfitriã, que comemorava 19 anos àquela noite. Não aceitou bebida nem cigarro. Ela achou aquilo um saco.
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(um) tudo (quase) desaparecendo

Flores cor de rosa nas mesas, uma pequena cozinha encomendada na véspera, aquele vestido rodado de renda. Dúvidas, insistentes e variadas, uma penca delas. Gosto amargo de fim, suspiro de recomeço, velho prenúncio de desespero. Inevitável sofrimento, sussurrava a vida, irônica e surpreendente; dor ainda branda, rascunho apenas. O peso imenso das costas derrubava expectativas, atrasava a experiência, destronava sorrisos. Há dois meses sentia-se enfiada na rota errada, incapaz de explicar "porquês" e "quandos". Forgotten Boys com Charlie era uma maneira masculina de gritar seu basta. Ignorar os fantasmas, ou aceitá-los de vez, à revelia do cartesianismo dos chatos. Em menos de uma hora já experimentava a única madrugada tranquila daqueles meses imundos. Nunca nomeou os motivos: a cumplicidade se infiltrava sem qualquer resistência, dispensando o empenho, espontânea como todos os legítimos. Ao fim das canções, atravessaram lado a lado as dunas molhadas. Sem qualquer palavrinha, embora fossem cheios delas, voaram de tão leves. Ali Lola entendeu o que era ser livre.


(um) tudo (quase) nascendo

Sempre houve mais angústia ao lidar com princípios do que com fins. "Hábito", ela se defendia. Charlie refutava o argumento com a provocação de sempre: a zona de conforto de Lola não comportava a felicidade. Naquele dezembro, quando acordou e observou o inquietante entorno, lembrou-se dele, e da sugestão espinhosa: tudo se confirmara, de súbito, sem tabelas de planejamento, contrariando as mais incautas previsões. Tudo, todas, sempre, nova série de definitivos. "Morte, nascimento, como reconhecer?" - a velha pergunta da infância. Os olhos arregalados denunciavam o susto (pavor?) diante da precisão da roda-viva, alheia às convicções, aos subterfúgios, aos esconderijos. A vida riu dela, e ela agora ria sozinha. "Me leva até o seu quarto pela mão"- ecos, pistas, palavras soltas. Vento frio, de congelar o estômago. Ventania que aquece o coração. Falta de fome, de norte, de escuro. Falta de costume. Perderam-se em outra noite esquisita. Ali Charlie acompanhou calado o tormento sorridente de Lola, vítima voluntária daquela felicidade assustada e livre. Leves, juntos, de novo, sempre.

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Ele esteve lá em todas as necessidades: arrancos, tédios, dramas, dores, atropelos. Ela compartilhou cada pedaço de felicidade, raridade diante da velha mania de sorrir sozinha. Charlie hoje em dia finge que bebe. Lola ainda escuta Nevermind.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

30 de setembro

É pra ser só alegria. Mas o luto fechado sempre ronda as escolhas mais difíceis. Uma promessa cantada, discursos em mesas de canto, fantasias inacessíveis, lembranças de roubos e horrores, talvez uma taça de vinho para acompanhar. Futuro demais para caber numa única taça. Desejo, sonho, neblina. Velha canção de ninar. O vestido floral balançando sob as árvores, um tantinho maior do que deveria. São os quilos a menos, são as dores a mais. Trinta dias inéditos, impossíveis até então. A vida sempre fez com que recuassem antes. Conseguiram enfim, mas conseguiram o quê? Sonhos, imagens, confissões - tudo girando já no primeiro abraço. O sorriso escapando, sem graça, brilhante, ansioso pela presença. Basta olhar, admirar de longe, reconhecer respirando o mesmo ar. Basta. Ninguém diz nada - por onde começar? Aquele banco desengonçado, entre carros atropelando a rotina, numa esquina que rima com encruzilhada. As últimas tantas horas alheias ao enredo principal, livres do peso óbvio e da felicidade inexplicável, da cumplicidade exclusiva e dos tormentos mais íntimos. Mas quem pediu paz? Olhares que se cruzam, aquele sorriso imenso que se abre. Sem dúvidas, sem angústias, sem faltas. Apenas aquela totalizante e suave saudade. Nenhum deles precisa falar. Está tudo ali, como sempre esteve. E morrerão, para sempre, os intervalos.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

De braços abertos

Hoje lembro e sinto saudade de nada
Vi o que vi, fiz o que fiz
Paguei o preço de ter tido a lição
O tempo é um professor sem pressa mas é exigente
E chega a hora de tornar a agir
Ficar mais claro, forte, mais inteligente...

(Diamante, Os The Dárma Lovers)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

lições nunca ensinadas

"O que é grande no homem, é que ele é uma ponte e não um fim: o que pode ser amado no homem, é que ele é um passar e um sucumbir".


"Tudo o que é reto mente. Toda verdade é sinuosa. O próprio tempo é um círculo".


"Não pretenda ser feliz, mas verdadeiro".


F. Nietzsche, o único autor legítimo de auto-ajuda.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

pra entender o mundo

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome. O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos. O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina. O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos. Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina. O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água. O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome. O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel. O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso. O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala. O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

(Os Três Mal-Amados, de João Cabral de Melo Neto)

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Vá lá: www.tudosobrenelsonrodrigues.com.br

Tenho horror público a qualquer tipo de comemoração ensaiada, com data marcada para a saudade, inclusive aquelas (infelizmente) clássicas, como "10 anos de formatura", "15 anos da entrada na UFSC", "12 anos de mestrado". Simplesmente não vou. Mês passado, porém, tomada por um impulso de organização motivado por forças externas, resolvi, enfim, encontrar um abrigo virtual decente ao meu TCC, busca adiada há pelo menos 5 anos. Desde o lançamento, em abril de 2002, as 500 páginas orientadas pelo meu querido Clóvis Geyer ocupavam um cantinho escondido do portal do curso de Jornalismo da UFSC, de onde foi extirpado, sem dó, nas proximidades do último natal. O projeto, o site mais completo "do mundo" sobre Nelson Rodrigues, continua de pé, já que permanece como o principal, quiçá único, sítio virtual disponível sobre a obra do dramaturgo, folhetinista e jornalista (e tradutor fantasma, e dialoguista de quadrinhos infantis, e cronista de futebol, e memorialista, e polemista, e tantos mais). Enquanto escolhia entre os endereços disponíveis, refiz mentalmente os cálculos e percebi que em 2008 também completei 10 anos de entrada no curso. Sorri, feliz. Ainda assim, não senti nenhuma vontade de comemorar.

Obs: O site está publicado tal e qual 2002. Atualizações, imprescindíveis, estão prometidas para um futuro próximo. O link, aqui: www.tudosobrenelsonrodrigues.com.br

Obs 2: Tal furo já foi noticiado anteriormente em 1cronicapordia.blogspot.com, do meu menino.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

3 versões para uma mesma sombra*

"O homem na rua moderna, lançado nesse turbilhão, se vê
remetido aos seus próprios recursos – freqüentemente recursos
que ignorava possuir – e forçado a explorá-los de maneira
desesperada, a fim de sobreviver. Para atravessar o caos, ele
precisa estar em sintonia, precisa adaptar-se aos movimentos do
caos, precisa aprender não apenas a pôr-se a salvo dele, mas a
estar sempre um passo adiante. Precisa desenvolver sua
habilidade em matéria de sobressaltos e movimentos bruscos, em
viradas e guinadas súbitas, abruptas e irregulares – e não
apenas com as pernas e o corpo, mas também com a mente e a
sensibilidade".
(Marshall Bermann, Tudo o que é sólido desmancha no ar)


"Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan".
(Carlos Drummond de Andrade, Elegia 1938)


"Não acredito em honestidade sem úlcera".
(Nelson Rodrigues)


* por ora, só sobrou disposição para falar através da boca dos outros.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Perfis literários - Parte 3

Mais um, da série idealizada para o jornal O Judiciário, da Associação dos Magistrados Catarinenses. Deu um trabalhão, sobretudo pela insistência em realizá-lo na forma de verbetes, mas é um dos que mais gosto.


Pequenas lições de filosofia e equilíbrio

Salim Schead dos Santos já foi estudante de línguas, historiador formado, jornalista de pautas quentes, poeta premiado, juiz dedicado às causas sociais e professor universitário. Perambulou por incontáveis cidades, perseguiu objetivos de carro, ônibus, trem e avião, decidiu a vida de todo tipo de gente, julgando dos casos mais polêmicos aos enroscos mais triviais. Desembargador desde 2003, dedica-se agora a manter o equilíbrio mesmo num dos picos do poder. Um desafio fácil de vencer: desde os dias mais incertos da juventude, é acompanhado por uma ilustre figura, competente na construção de sua personalidade tranqüila, observadora e auto-consciente. O filósofo romano Marco Aurélio deu-lhe as mãos ainda na adolescência, quando conheceu o livro Meditações, até hoje em sua mesinha de cabeceira. A obra, baluarte da filosofia estóica, consolou o magistrado nos raros momentos de sofrimento, encarados sempre como experiências, e permitiu que reconhecesse mesmo as felicidades mais miúdas, tão difíceis de identificar. A convivência diária rendeu ao desembargador um rol particular de sabedorias, orientadas segundo o despojamento da doutrina ascética do romano, dispostas aqui em ordem alfabética, segundo princípios sugeridos e cultivados pelo filósofo. A seguir, algumas das lições mais preciosas de Salim Schead dos Santos.


ARTE – Se Marco Aurélio aprendeu com Rústico o valor de leituras rigorosas, dispensando idéias gerais e palavras fáceis, seus próprios escritos sugeriram a importância da pluralidade estética. Comprador compulsivo de livros, o desembargador desvia boa parte do orçamento à aquisição dos preferidos: Drummond, Borges, Machado, Vargas Llosa, Flaubert, Balzac, Quintana, Bandeira, Rubem Braga. Gosta de crônica, poesia, romance, livros de ensaios – Carlos Fuentes é a companhia do momento. Ao elencar as maiores obras, confirma o gosto diverso: A morte de Ivan Ilitch, Ratos e Homens, Vidas Secas, José Saramago – de quem leu mais de uma dezena de títulos. Embora não dedique muito tempo à música, quase sempre aciona o som durante as análises de processos, às vezes música orquestrada, às vezes canções em língua inglesa. A cultura artística é complementada com visitas a museus, sobretudo em viagens ao exterior, área onde também já acumula eleitos: Portinari, Di Cavalcanti e Van Gogh, cuja biografia o impressiona, sobretudo pelo fracasso de não ter conseguido vender uma única tela em vida. É por meio da literatura, porém, que intensifica com mais paixão sua educação estética: “para mim, as leituras fora da área técnica são também formas de descansos”. Acumulando vários títulos ao mesmo tempo, Salim completa ao menos um livro por mês, já que “cada um satisfaz um tipo de curiosidade”.

CONSCIÊNCIA – O ofício da magistratura parece depender de quatro condições: vocação para a responsabilidade, busca de conhecimento fora das análises técnicas, compreensão humana e capacidade para resolver conflitos. Em uma palavra, consciência, consciência dos atos, na totalidade, e não apenas no restrito âmbito em que muitos mantêm suas ocupações profissionais. Da mesma forma que é proibitivo "julgar sem se preocupar com as conseqüências da decisão", é necessário “jamais impor seu ponto de vista sem se cercar de informações, tampouco agir por impulso”. Parte do genuíno interesse pelo outro Salim atribui à sua geração, construída a partir de passeatas de protesto, recusa à ditadura, palavras de ordem, poemas de Chico Buarque e peças de teatro interditadas. Os anos 60, garante, formaram uma personalidade calcada na responsabilidade social, e na busca do bem comum, um olhar ao mesmo tempo contemplativo e participante. Tal consciência, prerrogativa particular do seu conceito de verdade, estende-se à vida pessoal, num movimento circular. Com a fala mansa, escolhendo bem as palavras, explica que adoraria ter mais tempo para se voltar para dentro de si, primeiro degrau da felicidade, segundo sua lógica: “Eu gosto muito de entender as pessoas”. Neste universo, o bem-estar é parente do auto-conhecimento: ter consciência de si próprio, sua introversão, sua calma, sua tranqüilidade, é o princípio de uma jornada solitária que pode ajudar a modificar o próprio mundo. Um olhar para si caro também ao companheiro Marco Aurélio, que cresceu ao som das palavras do tutor: não recear o trabalho, tratar das suas próprias necessidades, meter-se com a sua vida, e nunca dar ouvidos à má-língua.

FAMÍLIA – Em 2008, completou 34 anos de casamento. Sônia, paixão permanente, faz questão de frisar, era uma estudante de línguas quando se conheceram, na Universidade Federal de Santa Catarina. O encontro transformou sua vida e lhe entregou duas meninas, Juliana e Fernanda, e um neto, Samuel, garotinho de quatro anos que rouba parcela significativa de sua atenção. O casal vive ainda com três cadelas, Keli, da “terceira idade”, Kate, “adolescente”, e Phoebe, “ainda criança”, e dois canarinhos; todos juntos numa casa no Santa Mônica, um dos poucos bairros catarinenses que ainda preservam o clima interiorano. A família tranqüila de hoje lembra bastante aquela de onde veio, ele e mais seis irmãos, um deles falecido aos 24 anos. Lá, conheceu as diferenças, aceitando tanto a extroversão da mãe, sempre alegre e otimista, quanto a introversão do pai, mais recolhido. Se Marco Aurélio inicia suas meditações louvando o legado familiar, nossas heranças subjetivas, Salim compartilha com o amigo a mesma gratidão. Com a mãe, reconheceu a validade da máxima “querer é poder”, afastando a crença na sorte, esforçando-se para dar conta da vida. Anos depois, ainda recita Rui Barbosa, eternizando o diálogo materno: “Maior do que a tristeza de não haver vencido é a vergonha de não ter lutado”. Em casa, o menino de Criciúma vislumbrou ainda aquela esperança meio gratuita que surge quando o mundo parece desbotar, certa crença na superação: a irmã Ângela venceu o câncer sem tirar o sorriso do rosto. Ali encontrou também o primeiro herói, imbatível até hoje: seu próprio pai, "sereno, honesto, sério, sempre em busca do diálogo, dono de excelente compreensão humana". Sônia, anos depois, entregou-lhe o mesmo aconchego: com ela aprendeu inglês, com ela conheceu a fé, por ela deixa-se transformar cotidianamente.

MORTE – Para o desembargador, “a vida é um caminho” – ponto alto de toda filosofia que tende a enxergar no universo pólos de constantes mutações, objetivo já das meditações milenares de Marco Aurélio. Em paz com suas escolhas, e crente da validade da própria trajetória, sem desalinhos ou excessos, considera muito bom seu atual estado de espírito: “tenho duas filhas queridas, amo minha mulher, possuo grandes experiências conjuntas e gosto do meu trabalho”. É pela satisfação, então, que "não encontra dificuldade para encarar a idéia da morte". Se a sociedade moderna faz questão de esconder nossas despedidas, enclausurando os casos de doenças fatais, vedando o corpo em caixões de luxo, o magistrado encara a finitude como parte do próprio fenômeno vida. Se pudesse sugerir sua ida pediria apenas que fosse, claro, com tranqüilidade – tranqüilidade apresentada por ele diante dos revezes e das felicidades. Mais uma importante lição do mestre: “Embarca-se, faz-se a viagem, chega-se ao porto: desembarca-se, então”.

PRESENTE – Viver cada dia como se fosse o último é uma das mais contundentes sugestões da filosofia estóica: “lembra-te que o homem vive só no presente, neste momento fugaz: todo o resto da vida é ou passado e já ido, ou ainda não revelado”. O posicionamento no presente, dispensando as sobras do passado e evitando planejamentos maiores para o futuro, garante dose extra de tranqüilidade ao magistrado, tão importante para a efetivação da sua experiência. Para fazer valer a eternidade do instante do momento, evita o rancor: "muitas decepções que tive, já esqueci, não vale a pena retê-las". Mas não deixa morrer a alegria: "Passar no concurso para juiz foi uma explosão de alegria". No fim das contas, tempera com intensidade, a intensidade do hoje, sua tão característica tranqüilidade. É a própria experiência da vida que defende, com unhas e dentes: “Não vejo mérito na omissão, nem naqueles tipos que passam a vida em brancas nuvens”.

RELATIVISMO – Nem o prazer é necessariamente um bem, nem a dor é necessariamente um mal – a sentença, uma das máximas sugeridas nas entrelinhas de Meditações, é seguida à risca pelo discípulo. Seu relativismo, que busca dar conta das situações de acordo com seus contextos próprios, aplica-se em primeira instância à profissão. Antes de tudo é preciso enxergar a lei de outra forma, buscando alternativas, não apenas seguindo dogmáticas pré-estabelecidas. Uma de suas grandes preocupações em relação ao mundo contemporâneo é justamente a proliferação dos radicais, peritos em abandonar o fator humano. Contra a dicotomização da realidade, vislumbra no excesso de rigor apenas o caminho mais fácil para solucionar problemas de muitas pontas: “não acredito em mocinho e bandido; todo o ser humano tem virtudes e defeitos”. Ele, claro, lança o olhar para as virtudes. Herói, assim, pode ser todo mundo, graças a deus: basta resistir, basta revelar equilíbrio em situações-limite. “Heróis não precisam ser autores de ações grandiosas”. Ele mesmo encara-se como um magistrado atento e inquieto, atento às transformações da sociedade, cada vez mais velozes, inquieto com certas leis, “afinal nossa legislação não dá efetividade aos direitos da saúde e do meio ambiente, por exemplo”. Por conta da maneira filosófica com que encara a atividade da magistratura, cultiva algumas desconfianças cuidadosas: “tenho bastante dificuldade para aceitar a prisão por dívida”. Foi por se preocupar tanto com a liberdade, os direitos daquele outro, seu interesse profissional maior, que acabou se envolvendo academicamente com Direito Penal, tema do seu mestrado, também na UFSC. “É uma área desafiante. Fico muito preocupado quando leio que 43% acredita que bandido bom é bandido morto”.

SIMPLICIDADE – Pessoalmente, Salim é um homem cordial e atencioso, sem qualquer vestígio da arrogância que acompanha alguns nomes do poder. Conversa sem pressa, e ouve com a mesma atenção com que explica suas verdades – quase sempre relativizadas de acordo com o contexto e o ouvinte. Pergunta, indaga, escuta: parece aprender ao menos um tantinho com qualquer fato da vida, inclusive os mais corriqueiros. Interessa-se, sempre, pelo outro, dando-lhe crédito em qualquer circunstância. Cultiva a simplicidade dos verdadeiros humildes, desconfia do poder como de fato desconfiaram os legítimos heróis. Luxo, facilidades, dinheiro, vaidade, sucesso – os duvidosos valores contemporâneos parecem não afetar em nada suas escolhas. Dispensa saídas noturnas, aceita a própria introspecção, tranca-se entre clássicos diversos e inúmeras publicações, aproveita a família nas horas vagas. Adora mesmo é viajar: “nunca estou cansando para colocar o pé na estrada”. Se pudesse modificar alguma coisa em si mesmo, seria um tantinho mais extrovertido. Se recebesse a chance de dobrar algum sentimento no mundo, multiplicaria a compreensão e a tolerância – aquele olhar para o outro, que nele aparece e se consolida de forma tão natural. Solidariedade aqui é palavra chave. Nesta tranqüilidade ativa, mais próxima de um olhar tolerante para as coisas do mundo e dos homens, jamais um refúgio dos resignados, como poderia parecer aos fracos, alimenta a alegria e dispensa as decepções. Depende de cada pessoa transformar angústia em alívio: “muitas vezes o tempo passa e você compreende a situação, daí já deixa de ser decepção”. Para o desembargador, o mundo gira, as filas andam, os imperativos modificam-se: “Na medida que a vida vai passando, a gente vai enxergando as coisas de maneira diferente”. Para os sábios, só vale protagonizar a cena quando se é sereno, simples; “não vergues, mas sê comedido”.

TRANQUILIDADE – Na opinião do desembargador, "felicidade é um estado de espírito onde você se sente tranqüilo, em paz com o mundo e com você mesmo". Não à toa, fora o pai, seu ídolos são dois inconfundíveis baluartes do pacifismo, Madre Tereza de Calcutá e Gandhi. A aceitação de si mesmo é fato que acompanha o desembargador desde a infância: sempre foi estudioso, mas nunca fez questão de ser eleito o primeiro da turma; conviveu com parcela significativa de extrovertidos, mas aprendeu a se compreender como um homem calado, quieto, caseiro, que tira mais prazer do recolhimento da leitura do que das festas encerradas apenas com o dia claro; cordato, calmo, flexível. "Sou mais bombeiro do que incendiário" – define. A atividade favorita reflete a aceitação do seu próprio sujeito, aquele si tão importante na construção da felicidade: be yourself. Resignado diante do fluxo da vida, aceita de bom grado até mesmo a velhice, fonte de pesadelos dos modernos. Sua meta é envelhecer tranquilamente, sem ressentimentos. Se a virtude está no meio termo, como preza a filosofia de Marco Aurélio, desembargador Salim está a poucos passos do paraíso.

VERDADE – Desde pequenino, apresentou inclinação à área das ciências humanas, descartando números e estatísticas. Sempre lhe inquietou a condição humana, bem como a maneira como se comporta cada indivíduo em seus momentos particulares de tensão. A verdade, como meta, objetivo, esteve presente desde que aprendeu a pensar, seja na biblioteca ao alcance das mãos, repleta de obras capazes de discutir a fundo os desejos humanos, seja nos primeiros passos profissionais, como o estudante de História que desejava desvendar o passado, ou como o jornalista em busca do retrato mais fiel da notícia. Encarar a profissão com os contornos vagos do imprevisível é outra característica do desembargador: "Direito é sempre um desafio". Formado em História, a magistratura invadiu sua vida como uma espécie de chamado, um projeto novo onde conseguiria colocar em prática noções próprias de justiça. Já em sua primeira comarca, de Camperê, no extremo oeste catarinense, recebeu a chance de exercitar sua maneira particular de buscar a verdade. Num processo sobre posse de terras, contrariou expectativas ao colocar frente a frente as 80 famílias invasoras e o proprietário, que pedia reintegração. O encontro, recurso utilizado com extrema parcimônia, foi produtivo para todos os envolvidos, revelando ao autor, já naquela estréia tumultuada, a importância de se trilhar o próprio caminho, ainda que muitas vezes nossas escolhas não sejam as mais ortodoxas. "Se você tiver essa preocupação com o outro, vai ser juiz". A trajetória até o posto de desembargador foi, sem dúvida, uma construção, edifício em que depositou tijolos ao decorrer de toda a vida, afinal ela é, como já sabemos, “um caminho”. No topo, reconhece a necessidade de responsabilidade – quanto mais, melhor. Ao contrário dos amantes da força, o poder o incomoda em demasia; considera-o uma missão, jamais uma benção. Conseguir identificar a decisão correta, a verdade jurídica, é uma preocupação constante, assalto na tranqüilidade tão perseguida pelo desembargador. Hoje, considera-se um profissional "preocupado com o ofício de fazer justiça". Afinal, como lhe sussurra Marco Aurélio todas as noites, a vida mortal nada pode oferecer de melhor do que justiça e verdade, autodomínio e coragem. E ele aprendeu bem a lição.

domingo, 10 de maio de 2009

Passarinhos ao vento

Nunca gostei de Elizabeth Taylor. Não acho boa atriz, sequer bonita. Tem um pescoço curto que me irrita e coleciona trejeitos de intérprete amadora. Fora aqueles olhões em tom de violeta, realmente raros e estonteantes, nada mais me agrada ali. Ontem, porém, venci minha resistência ao assistir uma versão piratona de Sandpiper, ou Adeus às ilusões, como preferiu a tradução brasileira, sempre tão competente em escancarar as sutilezas já na chamada.

A sugestão partiu do pai, e como foi ele quem me criou esteticamente em tão variados sentidos, me entreguei à experiência despida de qualquer preconceito. Qualquer mesmo, inclusive os que sempre dirigi à mocinha modernosa da trama. Liz Taylor é Laura Reynolds, uma pintora um tanto libertina, mãe solteira e namoradeira, que vive numa casa belíssima numa pequena cidade do litoral da Califórnia. Seu menino, Danny, é considerado um tanto selvagem para os padrões locais.

Após matar um veadinho, para entender por que o homem é o único animal que mata por prazer, lição da mãe, Danny é obrigado pelo juiz do vilarejo a ingressar numa escola episcopal cheia de regras. Ele se apaixona pelo ambiente, repleto de meninos da sua idade. Laura, claro, se apaixona pelo pastor da escola, o correto pai de família Edward Hewitt, interpretado por Richard Burton, futura encrenca da vida de Liz Taylor. É correspondida, para desespero de ambos.

Moderno por arrancar os preconceitos da difícil história de amor nascida do casal extraordinário, fora dos padrões, o filme, de 1965, disseca as impossibilidades surgidas quando encontramos certo hiato. O hiato melancólico vivido quando estamos no momento exato com a pessoa errada, ou com a pessoa exata no momento errado. Muitos filmes já tocaram no assunto, mas poucos conseguem atingir o ponto mais profundo. Alguns retornos são impossíveis, alguns princípios nos foram passados sob véus de ingenuidade e maldade, algumas histórias são belas justamente porque compõem as entrelinhas da vida, aquilo que jamais se tornará texto, lauda, cena.

Sandpiper aborda o fora da cena. O proibido mas não menos ético. O triste mas igualmente potente, forte. O legítimo, embora deslocado. Estão ali, na tela, os instantes de erro, mais do que os acertos; as confusões emocionais, mais do que as clarezas; os amores dúbios, mais do que as garantias. Tudo pode dar errado, a qualquer momento. Mas tudo pode dar certo também. Não basta acreditar, afinal o povo dali despreza a auto-ajuda de best sellers como O Segredo. Basta viver. E isso Laura Reynolds, embora apressada e trapalhona, sabe fazer como ninguém.

Filmaço, que ainda traz Charles Bronson num papel coadjuvante.