sábado, 18 de abril de 2009

O Signo da Cidade - Parte 2

O enredo é aparentemente banal: uma astróloga discute na rádio os problemas dos ouvintes, palpitando com a ajuda das constelações do firmamento. A idéia é quase simplória: apresentar a diversidade, de sujeitos, de desejos, de sofrimentos, reunida numa metrópole como São Paulo. Outros dados corroboram o pessimismo preventivo: Carlos Alberto Riccelli (lembram do boto?) na direção, o rebento do casal Lombardi-Ricceli num dos papéis principais, e o bufão Juca de Oliveira conduzindo um enredo cravado de situações limites. O resultado, porém, é tão transformador que me fez esperar esta estranha e definitiva semana correr para escrever.

Tentei descobrir por que mexeu tanto comigo, lutei para absorver a frase abaixo, e devo ter absorvido apenas um punhado do belo significado, me empenhei em reconhecer os cantos mais escondidos do talento notório da escrita de Bruna Lombardi, a roteirista da história. Só hoje me arrisco a definir a complexidade tão bonita do filme: O Signo da Cidade é sobre perda, sobre solidão, sobre experiência, sobre vida. Como se não bastasse, ainda conta com uma profundidade plena de sutilezas, tão difícil de encontrar no cinema brasileiro contemporâneo - salvo raríssimas exceções, como O Céu de Suely.

Descontados a beleza da Bruna Lombardi, o roteiro bem estruturado, as personagens interessantes e diferentes, a direção impecável e a trilha suave, triste e distante como um enterro na infância, escancara aquela força, impressionante e espontânea, típica dos sentimentos mais legítimos. Apresenta uma gente dilacerada, perdida entre opções incapazes de aconchegar. Sugere as saídas, aponta alternativas, reconhece a grandeza das falhas e a beleza dos desfechos mais infelizes. Insinua os abandonos obrigatórios, quando não se pode seguir adiante. Enquadra o sofrimento, mas jamais cai no pieguismo. Com maturidade e complacência, aborda a solidão, não a dos carentes mas aquela que nunca cura. Consegue desvinculá-la de uma idéia de tormento, e aproximá-la da ordem da condição. A solidão da condição humana.

Às vezes, é até capaz de suspendê-la, com vagas sugestões que falhariam em mãos menos sensíveis. Em determinada cena, por exemplo, o moribundo tarado, pai da protagonista, implora para não morrer sem assistir à nudez de uma mulher, qualquer mulher, apenas mais uma vez. Uma enfermeira aceita despir-se para ele, num longuíssimo take que alterna a expressão alegre dele com o corpo mole e gordo dela. Sorriem os dois. Dífícil, muito difícil. E corajoso.

Baita filme: duro, doce, triste. Como a vida de qualquer um.

2 comentários:

  1. Concordo. Belíssimo filme...sensibilidade rara.
    Beijo,
    Vanessa

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