quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

as canções e os cálices

"Em silêncio, Tom serviu a escritora de uma nova taça de vinho tinto, amparando o infantil tremor na precisão de movimentos discretos e ensaiados. Nina sempre encontrara nos seus gestos algo incompreensível, certo sentimento contraditório, mestiço e persistente, capaz de ignorar os bloqueios do tempo. Às vezes ele abraçava a vida como se estivesse num parque de diversões, correndo por entre os brinquedos, olhos arregalados e deslumbramento sempre à mão, entretido com a ilusão das luzes e a euforia falsa dos brilhos; em outras, o mundo parecia um imenso peso, dobrando sinos com dificuldade, construindo músicas sem compasso ou lógica, impróprio, impossível, e então era custoso acompanhar qualquer leveza. Naquele reencontro, porém, ela começou a se aproximar daquela estranha imprecisão, sujeita agora à incompreensão alheia, ignorada em sua inteireza, sobretudo nos cantos, talvez até mesmo por Tom. Agoniada com a tensão em ritmo crescente, passou a comentários superficiais dos projetos cheios de limo, guardados nas gavetas do novo apartamento. Terminaria o curso de filosofia no ano seguinte, e se quisesse poderia voltar para o Brasil e cursar as últimas disciplinas em alguma universidade pública federal conveniada; havia várias no Rio, inclusive próximas ao seu bairro. Pretendia concluir com uma pesquisa sobre arte, e olhou para ele, constrangida; ele realmente tinha razão ao acusar, no último encontro, alguma influência na escolha pelas artes. Tom interrompeu o gole de vinho para despejar, alto e forte como nos velhos tempos: ela já se esquecera que aquele não havia sido o último encontro? E sorriu, e sorriram os dois."

(velhas letras se encaminhando...)

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