terça-feira, 26 de outubro de 2010

O Esconderijo do Homem Triste*


Não sei o que me aconteceu para ficar tão triste.
Lembro-me de ter percorrido meio mundo à procura de imagens. Tinham-me dito: é no movimento incessante de quem viaja que encontrarás a imobilidade que desejas.
Mas eu não sabia para onde ir. Deambulei anos a fio, e nunca encontrei as imagens que queria. Gastei as parcas forças que tinha neste trabalho, até que um dia me perdi junto ao mar.
Resolvi construir, ali mesmo, uma casa.
Tencionava não sair mais daquele lugar onde me perdera. Imobilizar-me, viver e envelhecer dentro de quatro paredes nuas erguidas pelas minhas mãos. Morrer frente ao mar, sozinho, como num romance que lera havia anos. Esperar que a casa se esboroasse e me servisse, por fim, de túmulo.
Assim não aconteceu. Algum tempo depois, a casa transformou-se subitamente em prisão. E talvez tenha sido isso que me pôs, assim, triste para sempre. Custava-me a crer que aquilo que eu próprio construíra acabasse de me atraiçoar.
Assustei-me e fugi nessa mesma noite. Ignoro o que se passou com a casa.
Não sei se ainda existe... o que sei é que a meio daquela fuga deseperada ocorreu-me o que me levaria, enfim, a encontrar o esconderijo para a minha imobilidade.
É desse lugar iluminado que, hoje, vos falo.
Fui ter com um fotógrafo meu amigo e pedi-lhe para me retratar. Ele acendeu um foco de luz. Sentei-me no centro dele. A máquina disparou sem cessar.
Gesticulei, abri os braços, mexi-me muito - como se soubesse que nunca mais o voltaria a fazer.
Quando o meu amigo mergulhou o papel fotográfico no revelador, eu também mergulhei. Mas devo ter desmaiado uns segundos, talvez minutos, porque ao retomar consciência senti as pernas e os braços dormentes - e todo o meu corpo estava mole.
Um véu de luz toldou-me a visão. Ceguei por instantes, mas não foi uma sensação desagradável. Depois, o corpo começou a ondear, a impregnar-se no papel e a coincidir com o retrato que o meu amigo fizera de mim.
Segundos mais tarde uma pinça metálica tirava-me do revelador. Senti, então, a frescura da água - e toda a superfície da folha de papel, o meu novo corpo, brilhou. Em seguida deixei-me enteorpecer na temperatura tépida, voluptuosa, do fixador.
Tinha encontrado o esconderijo.
E aqui estou, diante de quem me visita e olha. Apesar de não ter deixado de ser um homem triste, adquiri a vantagem de estar sentado, e de já não precisar fugir ou desejar seja o que for.
Mas o pior momento do dia é aquele em que nos separamos. Não consigo dormir. Fico noite fora com a minha solidão - e quem esteve a ver-me parte com o susto de continuar a existir.
Nenhum de nós é capaz de murmurar: fica comigo e toca-me. E a noite cai, de certeza, mais escura para quem parte.
Eu sou apenas a imagem do que fui. Não sinto nada.
Certa vez, um homem e uma mulher pararam diante de mim. Olharam-me muito tempo.
Aproximaram-se, afastaram-se, voltaram a aproximar-se do vidro que me protege. O nariz da mulher quase me tocou nos joelhos.
De repente, a mulher inclinou a cabeça, sobressaltou-se e disse:
- Zé, perdi o vidro do relógio.
O homem baixou-se e procurou-o. Quando o encontrou, deu-lho. Mas ela argumentou:
- A culpa foi tua. Eu não queria vir aqui.
O homem, muito sério, respondeu-lhe.
- Francamente, Fátima, não te toquei no pulso. Não mexi no tempo. Nunca mexo no tempo...
Outras vezes, quando não está ninguém a olhar para mim, ponho-me a cismar:
A luz é o meu túmulo.
Em tempos, os meus gestos tiveram o rigor da abelha que rouba o pólen à flor. Com esses gestos quis construir um espaço para o silêncio. Uma morada onde fosse possível ignorar o mundo, ou esquecê-lo.
De vez em quando, aceito ainda o mistério das palavras que me cercam e não coincidem, em nada, com a realidade. Eu só quis celebrar a vida.
Encontrar o esconderijo onde fosse possível um derradeiro acto de paixão. O esconderijo onde pudesse, de novo, tocar teu rosto e recusar a aridez da calúnia.
Mas a luz é o meu túmulo.
A pouco e pouco incendiaram-se os negros profundos, o círculo luminoso aprisionou-me, e as mãos gesticularam sem sentido. O interior das paisagens guardou a tua ausência. E numa última visão a madrugada irrompeu do mar adormecido.
As mãos abriram-se novamente, quando o dia começou a devorar a nudez do corpo.
Comovido, perdi a voz.
Não podia chamar-te, lembro-me, por isso desatei a escrever o teu nome nas paredes da cidade. Tempo perdido. Já não podias ouvir-me nem ler-me.
Foi quando desejei, com ardor, este esconderijo.
Aqui, pelo menos, respiro ar condicionado, e um foco de luz simula a eternidade dos dias.
Não há emoções, nem palavras ditas em voz alta. Não acontece nada, nem se ouve respiração alguma.
Quem me visita diz coisas fantásticas a meu respeito. Nunca confirmo nem desminto. Limito-me a ouvir e calo-me. Porque há coisas que devem correr com o tempo e, mais tarde ou mais cedo, nele se apagam.
É claro que também há coisas guardadas na minha memória de papel. Mas essas, já não tenho a certeza de que alguém as tenha dito ou eu as tenha, de facto, ouvido.
Por vezes ponho-me a sorrir, mas ninguém consegue ver que sorrio, porque o retrato que me esconde - como eu - está morto e desfocado.
E a luz é o nosso túmulo.

* Lindo demais esse texto do Al Berto. É como eu sempre falo: esperança há muito deixou de ser luxo; é sobrevivência.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

sem poeira pelos cantos.

Usar cores fortes. Voltar a mim mesma. Escutar mais hip hop. Esquecer, perdoar, abandonar. Cortar o cabelo nos ombros. Comprar o primeiro batom. Aceitar a vida acadêmica. Retornar a Freud e Foucault. Reformar, cortinas e sonhos. Caminhar, mesmo sem saber para onde. Aceitar, recolher, transformar. Agradecê-los, mainha e painho. Voltar: à literatura, à vida. Renovar.


"Nos minutos seguintes de silêncio, cúmplices da mentira maior, aproveitou para reviver a tristeza insuportável daqueles dias chuvosos anteriores à partida para as novas terras. O pai, seu melhor amigo, de fato, enfim morrera da doença misteriosa que não compunha o repertório dos médicos. O namorado, a quem sempre se referia no diminutivo, já não a satisfazia em nenhum aspecto, sequer servia para apagar as lembranças da fresca madrugada. Havia ainda Beto, e desde que batera os olhos naquele músico tão carioca, em espírito e sotaque, deduziu a oportunidade de encontrar ali, e talvez apenas ali, uma redenção possível. Ao mesmo tempo, pensava todos os dias no doutorado quase abandonado, oportunidade exclusiva daquele momento, dando-se conta, cotidianamente, da vida pouco satisfatória, entre uma e outra aula particular, desperdiçando as horas como revisora de uma pequena editora local. Havia ainda todos aqueles princípios, fantasmas diante do precipício, insistentes em provocações típicas de tempos heróicos: ainda havia escolha, ainda havia chance, ainda era possível reescrever tudo de novo desde a dedicatória".

(velhas letrinhas caminhando para publicação)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

os perdões possíveis.

Abri a porta com o coração cheio de susto. Bastou rever aqueles olhos azuis para tudo se aquietar novamente. Com a voz embargada pelos anos todos em vão, no escuro silencioso das despedidas, ela ainda conseguiu escolher as palavras mais difíceis:

- Se tudo fracassar mais uma vez, quero que você jamais esqueça uma coisa. Isso aqui, nós, é a intensidade mais cheia de alma que já presenciei em toda a minha vida.

Sorri, desejando completar: "o que separou a gente foi guerra, Lívia". Mas afirmar isso era quase o mesmo que sugerir uma guerra concluída, já inexistente. Estacionei no silêncio: aos quarenta anos todos sabem que algumas guerras liberam fantasmas permanentes.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

perdões impossíveis.

VIVER
(Carlos Drummond de Andrade)

Mas era apenas isso,
era isso, mais nada?
Era só a batida
numa porta fechada?
E ninguém respondendo,
nenhum gesto de abrir:
era, sem fechadura,
uma chave perdida?
Isso, ou menos que isso,
uma noção de porta,
o projeto de abri-la
sem haver outro lado?
O projeto de escuta
à procura de som?
O responder que oferta
o dom de uma recusa?
Como viver o mundo
em termos de esperança?
E que palavra é essa
que a vida não alcança?

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Respirando no outono

Always A Use
(Madeleine Peyroux)

Maybe ain't no use in sayin' what I want it to be
Maybe ain't no use in playin' a tune
Maybe ain't no use in singin' my blues
But there's always a use in you and me

Maybe ain't no use in watchin' through the window
As the towns and our lives roll on by
Maybe it ain't worth all the trouble in thinkin'
But there's always use in you and I We can make it true

We can work on it too
We can be what we want it to be
We can be together
As two or as three'cause there's always use in you and me

Maybe ain't no use in sayin' what I want it to be
Maybe ain't no use in playin' a tune
Maybe ain't no use in singin' my blues
But there's always a use in you and me

We can make it true
We can work on it too
We can be what we want it to be
We can be together
As two or as three' Cause there's always use in you and me

Maybe ain't no use in watchin' through the window
As the towns and our lives roll on by
Maybe it ain't worth all the trouble in thinkin'
But there's always use in you and I.

sexta-feira, 12 de março de 2010

I go back to…

Ele traz o rosto engolido pelo susto, preso em dúvidas impossíveis de desfazer com um abraço apertado. Acaba de virar a curva. Ela sorri, silenciosa e inocente. Ainda não imagina a dimensão do sofrimento futuro. Eles nunca precisaram compreender a sintonia entre felicidade e fracasso. A chuva miúda da semana inteira constrói poças do lado de fora da janela. Uma semana inteira de previsões, respingos, apertos. Nenhum dos dois lembrou do banho àquela manhã. Ela abre a porta, transbordando em expectativas. Ele segura seu corpo com as mãos firmes e a cabeça atolada em abismos incompreensíveis. “Agora é daqui pra frente”. Eles se assustam com a freqüência dos passos. Ela repara o vidro embaçado da porta da sacada. Será que jamais arranjaria alguém para dar jeito naquilo? Ele fecha os olhos, órfão de abrigos temporários. Reconhecia o inesperado daquela dor. Sinto vontade de gritar: “Desistam”. Haverá noites mal dormidas, desejos insatisfeitos, tensões imunes à esperança. Não consigo. “Vocês farão muito mal um ao outro, como só se faz a quem se ama”. Não consigo. “Nenhuma oração vai trazer de volta o melhor da alma”. Não consigo. Tudo ali transcende.

(... a tarde das estrelas no céu)

PS: Para ler na sequência da Sharon Olds.

quarta-feira, 3 de março de 2010

enquanto isso, na sala da justiça...

(para ler na sequência da dupla "choque de realidade", lá embaixo)

Manoel Carlos, o atual chefão das nove, parece remar na contramão dos indelicados costumes contemporâneos. Enquanto o mundo é assaltado por barulhentos moralistas (sobretudo falsos moralistas), o velhinho recorre a certa visão bastante particular dos relacionamentos para contrariar a nova (velha) ordem vigente. Viver a vida já pode ser considerada a teleficção mais cool até hoje: não há mocinhos nem vilões, não há certo e errado, não há falatório sobre contingências, não há escolhas fáceis nem sentenças obrigatórias.

Vive-se, "apenas".

Helena, a protagonista, decide se casar após um mês de namoro com o galinhão da história. Vinte anos mais velho, recém separado e pai de três filhas, Marcos abraça a missão "horário integral", mas não abandona os freelas. Para complicar ainda mais o envolvimento instantâneo com um homem sequer divorciado no papel, Helena carrega o fardo de ter escolhido um aborto no passado, remédio para uma gravidez imprevista, a fim de se firmar na profissão.

Friso: Helena não fez um aborto por falta de condições para criar o filho, recurso comum aos enredos lacrimejantes, típicos do gênero melodramático, estilo ficcional da modernidade. A mocinha abortou, sim, mas por amor ao trabalho e à sua opção de mulher sem filhos.

Para completar o rol das experiências inusitadas, logo após a lua de mel conhece Bruno, um fotógrafo da sua idade, por quem se sente irrestivelmente atraída. É correspondida. Com poucos meses de casada, beija o amigo num deslize nada calculado. Sente-se mal, jamais culpada.

No núcleo "cômico", Betina está prestes a completar bodas de porcelana com um galanteador que não dispensa a faxineira da própria casa. Juntos, tiveram uma filha adolescente. Embora sempre envolvido em noitadas e bebedeiras, Gustavo, o marido, parece nunca tê-la traído efetivamente. A "correção", porém, embora exista de fato, é relativizada pelo motivo: falta de oportunidade.

Um belo dia, sem qualquer aviso prévio, Betina apaixona-se por Carlos na esteira da academia. É correspondida. O susto toma conta, ela desabafa com a amiga. Ingrid divide choros e ranger de dentes, Betina não desiste. Atualmente sua vida se resume às peripécias para efetivar sua paixão sem ser descoberta. O casal extra-conjugal recebeu até música romântica na trilha.

Luciana, aspirante a top tetraplégica após acidente de ônibus, beija o irmão na boca bem no comecinho da trama. Eles não se sabem irmãos. Ela era noiva de Jorge na época. Detalhe: o descompasso ocorre com Bruno, futura paixão recolhida de sua madrasta Helena. O beijo deslocado jamais martirizou a modelo. E Manoel Carlos nunca voltou ao assunto, construindo um silêncio que naturaliza com ainda mais competência os tropeços do seu viver a vida.

"Acontece"- sugere a trama.

Miguel era para ser o gêmeo "malvado": aprontão, debochado, um tantinho indisciplinado, há anos luta para concluir a faculdade. Jorge, o certinho, recusa o dinheiro do pai para vencer às próprias custas no escritório de arquitetura. Valoriza o esforço, o terno e os modos corretos da cartilha. Namora a modelo Luciana desde a adolescência. Miguel apaixona-se pela namorada do irmão. Luciana apaixona-se por Miguel. O constrangimento é geral. Ainda assim, a ausência de moralismo é enfatizada com tanta segurança que o Brasil inteiro torce pelo casal torto.

Sem dúvida é a primeira vez que uma novela das nove aborda temas tão espinhosos sem moralismos e pré-julgamentos. As atitudes controvertidas das personagens, sobretudo das mulheres, não geram fofocas, salvo em raríssimas ocasiões, nem disse-me-disse, nem culpas abissais, nem castigos da providência. Os "erros" simplesmente não são assunto, nem fazem história - a não ser dentre os núcleos cruéis da novela, ávidos pelas fogueiras alheias. Ninguém padece de dor, ninguém torce por escândalos. A civilidade toma conta das confusões, impulsionada por certa maturidade que parece sussurrar o óbvio antes inédito na grade de programação: nem sempre a vida segue da maneira planejada, nem sempre os sonhos se concretizam, nem sempre se consegue completar o caminho sem virar a curva. Algumas situações exigem curvas. Dos mais absurdos desacertos entre irmãos às histórias de amor mais atropeladas, tudo aqui é tratado com uma naturalidade silenciosa e consoladora. A naturalidade de quem sabe que pouco se escolhe, no fim das contas. Algumas coisas simplesmente acontecem.

Ainda há alguma luz no fim do túnel.

E quem acende os faróis é um senhor de 76 anos.


PS: Texto escrito há semanas, apenas à espera de ganchos.
PPS: A capa do Hora de Santa Catarina, no último sábado, pergunta "Viver é trair?". Não, certamente que não. Mas "viver", esclarece Maneco, está longe de se limitar a bons mocismos.
PPPS: O segundo gancho é um textaço bom demais, do editorialista Rafael Cariello, publicado na Folha de São Paulo do último domingo. O título é "Moralismo migra das novelas para telejornais".