sexta-feira, 30 de abril de 2010

Respirando no outono

Always A Use
(Madeleine Peyroux)

Maybe ain't no use in sayin' what I want it to be
Maybe ain't no use in playin' a tune
Maybe ain't no use in singin' my blues
But there's always a use in you and me

Maybe ain't no use in watchin' through the window
As the towns and our lives roll on by
Maybe it ain't worth all the trouble in thinkin'
But there's always use in you and I We can make it true

We can work on it too
We can be what we want it to be
We can be together
As two or as three'cause there's always use in you and me

Maybe ain't no use in sayin' what I want it to be
Maybe ain't no use in playin' a tune
Maybe ain't no use in singin' my blues
But there's always a use in you and me

We can make it true
We can work on it too
We can be what we want it to be
We can be together
As two or as three' Cause there's always use in you and me

Maybe ain't no use in watchin' through the window
As the towns and our lives roll on by
Maybe it ain't worth all the trouble in thinkin'
But there's always use in you and I.

sexta-feira, 12 de março de 2010

I go back to…

Ele traz o rosto engolido pelo susto, preso em dúvidas impossíveis de desfazer com um abraço apertado. Acaba de virar a curva. Ela sorri, silenciosa e inocente. Ainda não imagina a dimensão do sofrimento futuro. Eles nunca precisaram compreender a sintonia entre felicidade e fracasso. A chuva miúda da semana inteira constrói poças do lado de fora da janela. Uma semana inteira de previsões, respingos, apertos. Nenhum dos dois lembrou do banho àquela manhã. Ela abre a porta, transbordando em expectativas. Ele segura seu corpo com as mãos firmes e a cabeça atolada em abismos incompreensíveis. “Agora é daqui pra frente”. Eles se assustam com a freqüência dos passos. Ela repara o vidro embaçado da porta da sacada. Será que jamais arranjaria alguém para dar jeito naquilo? Ele fecha os olhos, órfão de abrigos temporários. Reconhecia o inesperado daquela dor. Sinto vontade de gritar: “Desistam”. Haverá noites mal dormidas, desejos insatisfeitos, tensões imunes à esperança. Não consigo. “Vocês farão muito mal um ao outro, como só se faz a quem se ama”. Não consigo. “Nenhuma oração vai trazer de volta o melhor da alma”. Não consigo. Tudo ali transcende.

(... a tarde das estrelas no céu)

PS: Para ler na sequência da Sharon Olds.

quarta-feira, 3 de março de 2010

enquanto isso, na sala da justiça...

(para ler na sequência da dupla "choque de realidade", lá embaixo)

Manoel Carlos, o atual chefão das nove, parece remar na contramão dos indelicados costumes contemporâneos. Enquanto o mundo é assaltado por barulhentos moralistas (sobretudo falsos moralistas), o velhinho recorre a certa visão bastante particular dos relacionamentos para contrariar a nova (velha) ordem vigente. Viver a vida já pode ser considerada a teleficção mais cool até hoje: não há mocinhos nem vilões, não há certo e errado, não há falatório sobre contingências, não há escolhas fáceis nem sentenças obrigatórias.

Vive-se, "apenas".

Helena, a protagonista, decide se casar após um mês de namoro com o galinhão da história. Vinte anos mais velho, recém separado e pai de três filhas, Marcos abraça a missão "horário integral", mas não abandona os freelas. Para complicar ainda mais o envolvimento instantâneo com um homem sequer divorciado no papel, Helena carrega o fardo de ter escolhido um aborto no passado, remédio para uma gravidez imprevista, a fim de se firmar na profissão.

Friso: Helena não fez um aborto por falta de condições para criar o filho, recurso comum aos enredos lacrimejantes, típicos do gênero melodramático, estilo ficcional da modernidade. A mocinha abortou, sim, mas por amor ao trabalho e à sua opção de mulher sem filhos.

Para completar o rol das experiências inusitadas, logo após a lua de mel conhece Bruno, um fotógrafo da sua idade, por quem se sente irrestivelmente atraída. É correspondida. Com poucos meses de casada, beija o amigo num deslize nada calculado. Sente-se mal, jamais culpada.

No núcleo "cômico", Betina está prestes a completar bodas de porcelana com um galanteador que não dispensa a faxineira da própria casa. Juntos, tiveram uma filha adolescente. Embora sempre envolvido em noitadas e bebedeiras, Gustavo, o marido, parece nunca tê-la traído efetivamente. A "correção", porém, embora exista de fato, é relativizada pelo motivo: falta de oportunidade.

Um belo dia, sem qualquer aviso prévio, Betina apaixona-se por Carlos na esteira da academia. É correspondida. O susto toma conta, ela desabafa com a amiga. Ingrid divide choros e ranger de dentes, Betina não desiste. Atualmente sua vida se resume às peripécias para efetivar sua paixão sem ser descoberta. O casal extra-conjugal recebeu até música romântica na trilha.

Luciana, aspirante a top tetraplégica após acidente de ônibus, beija o irmão na boca bem no comecinho da trama. Eles não se sabem irmãos. Ela era noiva de Jorge na época. Detalhe: o descompasso ocorre com Bruno, futura paixão recolhida de sua madrasta Helena. O beijo deslocado jamais martirizou a modelo. E Manoel Carlos nunca voltou ao assunto, construindo um silêncio que naturaliza com ainda mais competência os tropeços do seu viver a vida.

"Acontece"- sugere a trama.

Miguel era para ser o gêmeo "malvado": aprontão, debochado, um tantinho indisciplinado, há anos luta para concluir a faculdade. Jorge, o certinho, recusa o dinheiro do pai para vencer às próprias custas no escritório de arquitetura. Valoriza o esforço, o terno e os modos corretos da cartilha. Namora a modelo Luciana desde a adolescência. Miguel apaixona-se pela namorada do irmão. Luciana apaixona-se por Miguel. O constrangimento é geral. Ainda assim, a ausência de moralismo é enfatizada com tanta segurança que o Brasil inteiro torce pelo casal torto.

Sem dúvida é a primeira vez que uma novela das nove aborda temas tão espinhosos sem moralismos e pré-julgamentos. As atitudes controvertidas das personagens, sobretudo das mulheres, não geram fofocas, salvo em raríssimas ocasiões, nem disse-me-disse, nem culpas abissais, nem castigos da providência. Os "erros" simplesmente não são assunto, nem fazem história - a não ser dentre os núcleos cruéis da novela, ávidos pelas fogueiras alheias. Ninguém padece de dor, ninguém torce por escândalos. A civilidade toma conta das confusões, impulsionada por certa maturidade que parece sussurrar o óbvio antes inédito na grade de programação: nem sempre a vida segue da maneira planejada, nem sempre os sonhos se concretizam, nem sempre se consegue completar o caminho sem virar a curva. Algumas situações exigem curvas. Dos mais absurdos desacertos entre irmãos às histórias de amor mais atropeladas, tudo aqui é tratado com uma naturalidade silenciosa e consoladora. A naturalidade de quem sabe que pouco se escolhe, no fim das contas. Algumas coisas simplesmente acontecem.

Ainda há alguma luz no fim do túnel.

E quem acende os faróis é um senhor de 76 anos.


PS: Texto escrito há semanas, apenas à espera de ganchos.
PPS: A capa do Hora de Santa Catarina, no último sábado, pergunta "Viver é trair?". Não, certamente que não. Mas "viver", esclarece Maneco, está longe de se limitar a bons mocismos.
PPPS: O segundo gancho é um textaço bom demais, do editorialista Rafael Cariello, publicado na Folha de São Paulo do último domingo. O título é "Moralismo migra das novelas para telejornais".

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Sharon Olds, paixão da hora.

I Go Back to May 1937*

I see them standing at the formal gates of their colleges,
I see my father strolling out
under the ochre sandstone arch, the
red tiles glinting like bent
plates of blood behind his head,
I see my mother with a few light books at her hipstanding at the pillar made of tiny bricks,
the wrought-iron gate still open behind her, its
sword-tips aglow in the May air,
they are about to graduate, they are about to get married,
they are kids, they are dumb, all they know is they are
innocent, they would never hurt anybody.
I want to go up to them and say Stop,
don’t do it—she’s the wrong woman,
he’s the wrong man, you are going to do things
you cannot imagine you would ever do,
you are going to do bad things to children,
you are going to suffer in ways you have not heard of,
you are going to want to die. I want to go
up to them there in the late May sunlight and say it,
her hungry pretty face turning to me,
her pitiful beautiful untouched body,
his arrogant handsome face turning to me,
his pitiful beautiful untouched body,
but I don’t do it. I want to live. I
take them up like the male and female
paper dolls and bang them together
at the hips, like chips of flint, as if to
strike sparks from them, I say
Do what you are going to do, and I will tell about it.

* I go back...

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

choque de realidade II*

“As pessoas reagiam com um ódio que eu não conseguia entender de onde vinha. Fui xingada como se tivesse cometido um crime. De andar na calçada e as pessoas gritarem de dentro do carro: ‘Vagabunda!’. Em restaurantes, sempre aparecia gente zoando. E você lá, comendo com o seu namorado, conversando de coisas simples, como o gato que está com a pata machucada, tinha que levantar e ir comer em outro lugar.”

Mallu Magalhães, sobre as dificuldades do comecinho do namoro com o músico Marcelo Camelo.

* Dei a dica pro Marquinhos, da Contracapa, e agora publico aqui também. Assustador demais.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

choque de realidade

Senhoras e senhoras, bem-vindos ao século XXI:

:: O general Raymundo Nonato de Cerqueira Filho defendeu, esta semana, que as Forças Armadas só devem aceitar homossexuais que mantenham segredo de sua orientação sexual. Para o digníssimo senhor, constrangedoramente ignorante em relação à constituição brasileira, há incompatibilidade entre os gays e a atividade militar. Adepto de ferrenho positivismo, ainda tentou explicar: "A vida militar reveste-se de determinadas características, inclusive em combate, que pode não se ajustar ao comportamento desse indivíduo".

:: Tessália, do BBB, deixa a casa sob ataques ferrenhos da COMUNIDADE por ter explorado o edredon ao lado do namoradinho, Michel, que omitiu detalhes do seu estado civil. Já "acusaram" a moça de lesbianismo, vagabundagem, sem-vergonhice, dentre outras ofertas. Enquanto isso, a oficial faz ensaio "sexy" no site Paparazzo, famoso reduto de sub-celebrities, e revela detalhes "estarrecedores e picantes" do relacionamento. A réplica da Twitess é a melhor parte do enredo: "Tô pouco me lixando". Salve, salve.

Eu tenho vergonha de viver nesse mundo.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

1ª pessoa, masculino

Senti apenas tédio quando cheguei à Inglaterra. Amava Lívia, e já não era mais possível refutar a óbvia assertiva. Amava-a para além dos raros encontros nus, amava-a para além da perfeição dos traços e das evasivas, amava-a para além da ficção radiosa que carregava de um canto a outro como um tesouro ofertado a raros merecedores. A ficção era o seu produto mais bem acabado, denso e refinado, e desejá-la fora daquele espaço exigia uma intensidade que eu não imaginava dispor. Uma intensidade que começou a despontar no exato instante que observei suas pernas compridas e seus olhos puxados invadindo a sala de reuniões pela primeira vez. Era o ano de estréia da minha faculdade.

Para meu desespero, todos repararam a sua presença, e lutaram para adivinhar as disciplinas reivindicadas, e devoraram o olhar azul e oblíquo, e imaginaram suas costas ao sol e seus braços finos despidos de mangas e babados - "seria ainda mais bonita nua?" Alheia às especulações, ela atravessou o salão sem se intimidar com as expressões atabalhoadas ou os ruídos do próprio salto, sempre no mesmo passo decidido, suave mas compassado, num ritmo exclusivo dela. Olhava para a frente, presa num ponto fixo, absorvida por certo universo interno que, já ali, parecia envolvente como um bom livro. Apresentava uma segurança gratuita, em tom de desafio, como se já tivesse enfrentado um escândalo imprevisto e terrível.

Antes mesmo que ela se acomodasse, meus pensamentos já tinham arrancado o seu vestido cor-de-rosa, beijado com força seus lábios escurecidos pelo batom e possuído cada pedaço da sua alma com tranqüilidade e força. Quando acendi o primeiro cigarro, depois de fazê-la gozar três vezes, a versão vestida de Lívia escolhia um lugar ao meu lado, numa das tantas cadeiras vagas, ainda cheirando a tinta fresca. Sentou, bufou, espalhou os pertences sobre o apoio estreito. Na seqüência, virou-se para mim e abriu um sorriso brilhante, o único daquela tarde. Foi como receber um convite para a mais secreta fraternidade.

Retribui, forçando frieza, e protelando qualquer entrega ao deslumbramento. Cochichei em seu ouvido, disposto a recusar o atordôo pelo singelo sorriso de abertura: "Estão combinando o horário das reuniões mensais com a diretoria". Ela rebateu: "Como serão aos sábados, nem me interessa". E riu, sozinha. Se desconfiasse que eu era o diretor, a ironia seria bem maior, sem dúvida.

Hoje eu sei como Lívia funciona.