sexta-feira, 8 de abril de 2011

dupla comemoração

Um dos meus romances de cabeceira completa 90 anos agora:

"Sabia que deus não existia em seu coração; suas ideias ainda eram tumultuadas; a dor estava sempre presente; a nostalgia da juventude perdida não o abandonava. Porém, as águas da desilusão haviam depositado um sedimento em sua alma, a responsabilidade e o amor pela vida, o ligeiro estímulo de antigas ambições e sonhos não realizados".
(Este lado do paraíso, de Scott Fitzgerald)


E um dos meus mais novos livros de cabeceira acaba de despontar na aldeia global. :o)

quarta-feira, 30 de março de 2011

saber, viver.

"O saber sucumbir sem evadir-se do perigo de viver singulariza o morrer do homem que perece, mas não se perde nem se vai em vão".

Ronaldes de Melo e Souza

sexta-feira, 25 de março de 2011

a esperança em retrospecto

"Não quero repetir minha inocência. Quero ter o prazer de voltar a perdê-la".

(Este lado do paraíso, Scott Fitzgerald)

segunda-feira, 21 de março de 2011

meus mais - drops

"Como quando se tira um vestido velho do baú, um vestido que não é para usar, só para olhar. Só para ver como ele era. Depois a gente dobra de novo e guarda mas não se cogita em jogar fora ou dar. Acho que saudade é isso".

(As meninas, Lygia Fagundes Telles)

sexta-feira, 18 de março de 2011

inspirações, poema de fim de semana

Nunca compreenderam o fracasso. Ele estacionou apressado, confuso ainda, gravata preta desafiando o vento sul. Ela nunca mais seria a mesma: missão, cabelos, coração. Ele jamais soube, mas algo imenso ruíra três semanas antes daquele aperto de mão desengonçado. Ouviu as palavras decididas, sempre tão bem urdidas, e sentiu algo entre o interesse e a desconfiança. Fernando Pessoa? Mas ela não conhecia a Tabacaria do outro lado da rua e recusou três vezes. Aceitou as 300 seguintes. Jamais tanto sucesso.


TABACARIA
(Álvaro de Campos/Fernando Pessoa)

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas
- Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê
-Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeiraTalvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

quinta-feira, 17 de março de 2011

feliz 2011

Porque alunos novos é sempre vida nova. Ainda mais na UFSC.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Às margens do tempo

Obra de Faulkner narra decadência de família presa entre a memória e a ausência

Um passado opressivo que afasta qualquer possibilidade de horizonte. Uma família destruída pelo peso das lembranças, à espera da extinção redentora. Um presente pálido, sem ação e sem futuro, conduzido por heróis falíveis que jamais encontraram razões para suas lutas. Uma linhagem ameaçada pelo tempo, um tempo cruel e misterioso, que corrói a experiência humana como uma ferrugem faminta.

Terceiro romance do norte-americano William Faulkner, o recém-lançado Sartoris (Cosac Naify, 416 pgs.), de 1929, desbrava os infortúnios do clã homônimo, imobilizado entre os grandes feitos do Coronel John Sartoris, morto na Guerra da Secessão, e a permanência em um mundo herdado, em constante decomposição. Estreia do condado fictício de Yoknapatawpha, no Mississipi, o livro esboça boa parte do estilo que marcaria a poética do autor, e que lhe renderia o Prêmio Nobel de Literatura, em 1949.

O protagonista Bayard Velho, nascido “tarde demais para uma guerra e cedo demais para a guerra seguinte”, compartilha com o filho de mesmo nome velhos traumas – ambos perderam irmãos em combate. Tia Jenny, a irmã mais nova do coronel, vela os tempos de outrora, valorizando o sentido do passado e mitificando a sucessiva marca trágica dos homens da família. Nesta existência voltada para o que já foi, ignora o propósito das novas gerações: “Eles não são os meus Sartoris”.

Como em toda a ficção do autor, os homens daqui adquirem identidade a partir da soma dos seus infortúnios - por isso a impossibilidade de libertação dos próprios fantasmas. Há sempre algo maior que assombra o indivíduo, impedindo a afirmação do presente e guiando a existência como uma ampulheta esburacada, resquício das incertezas alardeadas em anos de Guerra Civil, na construção do ethos sulista.

O peso da experiência passada, com seus ferimentos e seu sentido indubitável e majestoso, verga a mansão de origem escravocrata da família, impondo ações raquíticas e intensa memória. Quase não há atividade: parte porque a monumentalidade da escrita do autor parece se bastar, parte porque a vida é escassa em existências orientadas pelo passado. Graças a esta cortina de fumaça, as circunstâncias preponderam sobre os fatos e os grandes atos das personagens são apenas sugeridos, abrindo o palco para suas consequências, sobretudo as internas.

Tudo aqui é desespero, culpa, prisão. Não à toa, Bayard busca dia após dia o acidente que irá redimi-lo de uma existência inoperante, seja pelo excesso de bebida ou de velocidade. Contando a sua primeira saga em Yoknapatawpha, Sartoris percorre conceitos que atravessam a ficção de William Faulkner como um todo: heroísmo e resistência, habilidade e desistência, impossibilidade e permanência.

Ao mesmo tempo que articula uma série de procedimentos modernistas que viriam consagrar a obra do escritor, sobretudo após O som e a fúria, também escrito em 1929, constrói um universo: levanta, pela primeira vez, a poeira incômoda e eterna das estradas do sul.

Jade Gandra Dutra Martins é pós-doutoranda em Teoria Literária.

(Texto originalmente publicado no DC Cultura / Diário Catarinense, 12/03/2011)