Alice descobrira muito cedo a importância de conseguir correr sem tropeçar. Como toda arte legítima, caprichosa e comovente, o galope exigia técnicas próprias: seguir adiante sem pensar na paisagem abandonada, manter os olhos imunes ao brilho dos arredores, graduar a velocidade para evitar o esgotamento, fixar um ponto qualquer e persegui-lo com suor, ainda que jamais ultrapasse a leviandade dos esboços. A prática enchia seus pés de calos, sem dúvida. Mas era o único antídoto para o coração equilibrista.
Antônio descobrira tarde demais que não concluiria a vida sem sujar as mãos. Se a bondade não servia sequer para calar as vozes, os reparos pareciam impossíveis sem alguma dose de veneno. O susto trouxe uma coleção de dúvidas indigestas, vagas como promessas de verão. De posse da revelação, arranhou, descascou, desabou, cimentou. Não demorou a experimentar a mágica dos nascimentos: maturidade, bravura, coragem, ainda alguma bondade. Reconheceu a verdade. Em terra de cego, quem tem um olho é monstro, não rei.
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
as canções e os cálices
"Em silêncio, Tom serviu a escritora de uma nova taça de vinho tinto, amparando o infantil tremor na precisão de movimentos discretos e ensaiados. Nina sempre encontrara nos seus gestos algo incompreensível, certo sentimento contraditório, mestiço e persistente, capaz de ignorar os bloqueios do tempo. Às vezes ele abraçava a vida como se estivesse num parque de diversões, correndo por entre os brinquedos, olhos arregalados e deslumbramento sempre à mão, entretido com a ilusão das luzes e a euforia falsa dos brilhos; em outras, o mundo parecia um imenso peso, dobrando sinos com dificuldade, construindo músicas sem compasso ou lógica, impróprio, impossível, e então era custoso acompanhar qualquer leveza. Naquele reencontro, porém, ela começou a se aproximar daquela estranha imprecisão, sujeita agora à incompreensão alheia, ignorada em sua inteireza, sobretudo nos cantos, talvez até mesmo por Tom. Agoniada com a tensão em ritmo crescente, passou a comentários superficiais dos projetos cheios de limo, guardados nas gavetas do novo apartamento. Terminaria o curso de filosofia no ano seguinte, e se quisesse poderia voltar para o Brasil e cursar as últimas disciplinas em alguma universidade pública federal conveniada; havia várias no Rio, inclusive próximas ao seu bairro. Pretendia concluir com uma pesquisa sobre arte, e olhou para ele, constrangida; ele realmente tinha razão ao acusar, no último encontro, alguma influência na escolha pelas artes. Tom interrompeu o gole de vinho para despejar, alto e forte como nos velhos tempos: ela já se esquecera que aquele não havia sido o último encontro? E sorriu, e sorriram os dois."
(velhas letras se encaminhando...)
(velhas letras se encaminhando...)
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
um trem pras estrelas
Quase noite. A bicicleta não para nunca. Paisagem de ecos, mentiras inocentes, retornos improvisados. Perdões insuficientes, impulsos para a derrocada, aquele velho desejo de congelar o tempo. Nenhum beijo, nenhuma infração, nenhuma promessa: tudo se transformava. Era uma menina antes do reencontro, e nem imaginava. Confissões heróicas e silêncios ensurdecedores, as taças proibidas de uma madrugada quase definitiva. Ainda chorariam muito pela desistência. “Te amo” – mas como? Intoxicados de adeus, jamais se desejariam um ao outro. Ainda é dia.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Um novo olhar para Nelson Rodrigues*

* versão do autor
Atribuir novos sentidos a uma obra de arte admirada há mais de meio século é o desejo de todo artista às voltas com o desafio da releitura. Tal missão foi concluída com êxito indiscutível pelo grupo catarinense Teatro sim... por que não?!!! em A vida como ela é..., baseada na coluna homônima do dramaturgo e ficcionista Nelson Rodrigues. Dirigida pelo pesquisador e professor Luís Arthur Nunes, especialmente convidado para a empreitada, a peça segue em cartaz até o dia 20 de fevereiro, no Teatro Álvaro de Carvalho (TAC), sextas, sábados e domingos.
A vida como ela é... reúne cinco contos que aliam conflitos familiares escandalosos a um forte sotaque carioca, marcas da coluna do autor, publicada no jornal Última Hora, entre 1951 e 1961. Se Nelson Rodrigues desenvolveu mais de duas mil histórias praticamente sobre o mesmo tema, traição, a companhia catarinense optou pela construção de uma miscelânea de referências, enriquecendo o universo ficcional com a exploração de elementos ausentes no original: máscaras, bonecos, dublagens, quadros vivos e, sobretudo, narração.
A atualização da autoria rodrigueana torna-se bastante clara já no primeiro conto, Uma senhora honesta, estruturado no palco a partir da simultaneidade entre a narração de dois atores e a encenação de outros, totalmente embasada na mímica. Manter a estrutura narrativa não apenas renova o texto original como ainda consegue reconstruir no palco um dos universos mais ricos do autor, seu texto impecável, repleto de frases de efeito que até hoje povoam o imaginário dos brasileiros.
Em Duas irmãs a inovação reside no uso de máscaras, artefatos das personagens que compõem o triângulo amoroso. Aproveitando a experiência com teatro de bonecos, o grupo catarinense constrói uma cena de alto impacto, onde as personagens principais são manuseadas como títeres, enquanto atores-narradores as dublam. Há uma dobra bastante contemporânea nesta versão: o espetáculo descortina-se em suas entranhas, apresentando a cena própria do teatro, como um ensaio aberto.
Doente, o quarto texto, laboratório da famosa peça Perdoa-me por me traíres, repete o ritual das marionetes. Neste caso, porém, os bonecos mesclam-se à técnica da narração, favorecendo diversas camadas de leitura. Já Noiva da morte, o terceiro conto apresentado, teatraliza a figura das famosas tias, solteironas onipresentes em toda a obra do autor, graças à iluminação especial, ao tom histriônico da encenação e ao figurino assustador. Ponto forte desta releitura, a iluminação, dirigida por Luis Carlos Nem, exalta o limiar entre o melodramático e o trágico, típico da autoria rodrigueana, em uma cena de dramaticidade ímpar nos palcos locais: o suicídio de Alipinho, enforcado nu com um véu de noiva.
Concluindo, O grande dia de Otacílio e Odete valida a própria ferramenta da narrativa, ricamente explorada pelo grupo, promovendo uma “falação” coletiva, extremamente sincronizada. Neste último texto, atrizes e atores narram detalhes deliciosos de uma nova história escandalosa, ao mesmo tempo que, como legítimas fofoqueiras de janela, encaram o público em busca de cumplicidade para mais aquele pecado.
Com trilha sonora e iluminação primorosas, o Teatro sim... por que não?!!! consegue construir no palco uma versão de alto impacto para a obra rodrigueana. Escancaradamente cômica, mas sem perder de vista a dramaticidade, traduz os textos do autor em sua maior potência: a mistura de estilos, repleta de tristeza e histeria, patético e desespero, pecado e vergonha. E vai ainda mais longe: infere novos sentidos, enriquecendo uma autoria já tão sofisticada.
Atribuir novos sentidos a uma obra de arte admirada há mais de meio século é o desejo de todo artista às voltas com o desafio da releitura. Tal missão foi concluída com êxito indiscutível pelo grupo catarinense Teatro sim... por que não?!!! em A vida como ela é..., baseada na coluna homônima do dramaturgo e ficcionista Nelson Rodrigues. Dirigida pelo pesquisador e professor Luís Arthur Nunes, especialmente convidado para a empreitada, a peça segue em cartaz até o dia 20 de fevereiro, no Teatro Álvaro de Carvalho (TAC), sextas, sábados e domingos.
A vida como ela é... reúne cinco contos que aliam conflitos familiares escandalosos a um forte sotaque carioca, marcas da coluna do autor, publicada no jornal Última Hora, entre 1951 e 1961. Se Nelson Rodrigues desenvolveu mais de duas mil histórias praticamente sobre o mesmo tema, traição, a companhia catarinense optou pela construção de uma miscelânea de referências, enriquecendo o universo ficcional com a exploração de elementos ausentes no original: máscaras, bonecos, dublagens, quadros vivos e, sobretudo, narração.
A atualização da autoria rodrigueana torna-se bastante clara já no primeiro conto, Uma senhora honesta, estruturado no palco a partir da simultaneidade entre a narração de dois atores e a encenação de outros, totalmente embasada na mímica. Manter a estrutura narrativa não apenas renova o texto original como ainda consegue reconstruir no palco um dos universos mais ricos do autor, seu texto impecável, repleto de frases de efeito que até hoje povoam o imaginário dos brasileiros.
Em Duas irmãs a inovação reside no uso de máscaras, artefatos das personagens que compõem o triângulo amoroso. Aproveitando a experiência com teatro de bonecos, o grupo catarinense constrói uma cena de alto impacto, onde as personagens principais são manuseadas como títeres, enquanto atores-narradores as dublam. Há uma dobra bastante contemporânea nesta versão: o espetáculo descortina-se em suas entranhas, apresentando a cena própria do teatro, como um ensaio aberto.
Doente, o quarto texto, laboratório da famosa peça Perdoa-me por me traíres, repete o ritual das marionetes. Neste caso, porém, os bonecos mesclam-se à técnica da narração, favorecendo diversas camadas de leitura. Já Noiva da morte, o terceiro conto apresentado, teatraliza a figura das famosas tias, solteironas onipresentes em toda a obra do autor, graças à iluminação especial, ao tom histriônico da encenação e ao figurino assustador. Ponto forte desta releitura, a iluminação, dirigida por Luis Carlos Nem, exalta o limiar entre o melodramático e o trágico, típico da autoria rodrigueana, em uma cena de dramaticidade ímpar nos palcos locais: o suicídio de Alipinho, enforcado nu com um véu de noiva.
Concluindo, O grande dia de Otacílio e Odete valida a própria ferramenta da narrativa, ricamente explorada pelo grupo, promovendo uma “falação” coletiva, extremamente sincronizada. Neste último texto, atrizes e atores narram detalhes deliciosos de uma nova história escandalosa, ao mesmo tempo que, como legítimas fofoqueiras de janela, encaram o público em busca de cumplicidade para mais aquele pecado.
Com trilha sonora e iluminação primorosas, o Teatro sim... por que não?!!! consegue construir no palco uma versão de alto impacto para a obra rodrigueana. Escancaradamente cômica, mas sem perder de vista a dramaticidade, traduz os textos do autor em sua maior potência: a mistura de estilos, repleta de tristeza e histeria, patético e desespero, pecado e vergonha. E vai ainda mais longe: infere novos sentidos, enriquecendo uma autoria já tão sofisticada.
Jade Gandra Dutra Martins é pós-doutoranda e autora do site www.tudosobrenelsonrodrigues.com.br.
(Texto originalmente publicado no DC Cultura / Diário Catarinense, 05/02/2011)
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
A unanimidade dos clássicos*
* (versão do autor)Trinta anos após sua morte, Nelson Rodrigues segue como o grande protagonista do teatro nacional
Presença marcante na produção artística e no debate cultural do século XX, Nelson Rodrigues consolida-se cada vez mais como um dos autores fundamentais do Brasil moderno. Repórter policial, redator de jornal, consultor sentimental, cronista do cotidiano, folhetinista de sucesso, tradutor fantasma, romancista esporádico, contista popular e autor de uma dramaturgia aplaudida em todo o mundo, construiu uma obra capaz de resistir às ferrugens do tempo, atual e contemporânea numa diversidade de níveis poucas vezes alcançada por seus pares.
Historicamente, a atualidade rodrigueana ecoa a partir da fixação, agora irrevogável, do nobre epíteto de “pai do teatro brasileiro moderno”, pioneirismo reconhecido já em sua segunda e mais famosa peça, Vestido de Noiva, de 1943. A visão em retrospectiva permite responsabilizá-lo ainda pela paternidade do próprio teatro brasileiro, antes da sua estréia um apanhado difuso de personagens influenciadas por contextos estrangeiros e textos despreocupados com especialização e/ou autoria, sem continuidade ou relações - na melhor das hipóteses, um teatro feito no Brasil, geograficamente falando.
Se a relevância histórica associa-se à modernidade poética implantada na dramaturgia brasileira, bem como à completude do nosso processo de formação, a potência estética do projeto rodrigueano reside na complexa utilização dos elementos literários, tensionando estilos e gêneros. Pioneiro na edificação de um teatro rico em referências, sintetizou influências diversas com exclusividade, atraindo a crítica (e repelindo também) pelo sincretismo estéticos das suas peças, hoje um recurso recorrente. Durante a trajetória iniciada em A mulher sem pecado, de 1941, até A serpente, de1979, seu último texto, dialogou com correntes clássicas e marginais, alimentando-se de surrealismo, expressionismo, nonsense, noir, grotesco, melodrama, trágico e tantos mais. A marca estética de sua dramaturgia é justamente a ênfase nesta idéia bastante contemporânea de acúmulo, limite e ausência quase absoluta de contenção.
Se é a mistura de gêneros que preserva sua inequívoca atualidade estética, politicamente cada uma das peças consegue construir um olhar exclusivo sobre o Brasil e os brasileiros, eixo principal de toda a sua dramaturgia. A recriação temática de um país atordoado diante das transformações daquela sociedade (Anos 1950 e 1960) ressignifica limites típicos da nossa própria pós-modernidade, abordando, simultaneamente, um tempo que luta para permanecer e outro que teima em se adiantar, contraste que persiste até os dias de hoje, comum às nações em desenvolvimento.
É no embate entre o passado do luto fechado, do sexo limitado ao matrimônio, dos olhares de soslaio e do namoro de portão, e as demandas da pílula anticoncepcional, do sexo livre, do poder das mulheres, da apologia aos jovens, dos umbigos desnudos e dos biquínis que nasce a visão trágica e bipartida de uma dramaturgia que tenta recriar uma tensão típica da fronteira, contemporânea ao próprio autor e ainda nossa.
História, Estética, Política: três vezes pioneiro, inovador, renovador. Nelson Rodrigues pode ser lido hoje como o autor brasileiro que melhor se debruçou sobre as ambigüidades de uma nação dilacerada em tão diversas camadas. Instaurar essa tensão no processo interno de sua obra, priorizando sem medo as flutuações entre fronteiras, persistentes até nos nossos tempos líquidos, torna seu pensamento não apenas atual como definitivo. Transforma-o, ainda, ironicamente, numa daquelas unanimidades que ele tanto combateu. Uma unanimidade essencial.
Historicamente, a atualidade rodrigueana ecoa a partir da fixação, agora irrevogável, do nobre epíteto de “pai do teatro brasileiro moderno”, pioneirismo reconhecido já em sua segunda e mais famosa peça, Vestido de Noiva, de 1943. A visão em retrospectiva permite responsabilizá-lo ainda pela paternidade do próprio teatro brasileiro, antes da sua estréia um apanhado difuso de personagens influenciadas por contextos estrangeiros e textos despreocupados com especialização e/ou autoria, sem continuidade ou relações - na melhor das hipóteses, um teatro feito no Brasil, geograficamente falando.
Se a relevância histórica associa-se à modernidade poética implantada na dramaturgia brasileira, bem como à completude do nosso processo de formação, a potência estética do projeto rodrigueano reside na complexa utilização dos elementos literários, tensionando estilos e gêneros. Pioneiro na edificação de um teatro rico em referências, sintetizou influências diversas com exclusividade, atraindo a crítica (e repelindo também) pelo sincretismo estéticos das suas peças, hoje um recurso recorrente. Durante a trajetória iniciada em A mulher sem pecado, de 1941, até A serpente, de1979, seu último texto, dialogou com correntes clássicas e marginais, alimentando-se de surrealismo, expressionismo, nonsense, noir, grotesco, melodrama, trágico e tantos mais. A marca estética de sua dramaturgia é justamente a ênfase nesta idéia bastante contemporânea de acúmulo, limite e ausência quase absoluta de contenção.
Se é a mistura de gêneros que preserva sua inequívoca atualidade estética, politicamente cada uma das peças consegue construir um olhar exclusivo sobre o Brasil e os brasileiros, eixo principal de toda a sua dramaturgia. A recriação temática de um país atordoado diante das transformações daquela sociedade (Anos 1950 e 1960) ressignifica limites típicos da nossa própria pós-modernidade, abordando, simultaneamente, um tempo que luta para permanecer e outro que teima em se adiantar, contraste que persiste até os dias de hoje, comum às nações em desenvolvimento.
É no embate entre o passado do luto fechado, do sexo limitado ao matrimônio, dos olhares de soslaio e do namoro de portão, e as demandas da pílula anticoncepcional, do sexo livre, do poder das mulheres, da apologia aos jovens, dos umbigos desnudos e dos biquínis que nasce a visão trágica e bipartida de uma dramaturgia que tenta recriar uma tensão típica da fronteira, contemporânea ao próprio autor e ainda nossa.
História, Estética, Política: três vezes pioneiro, inovador, renovador. Nelson Rodrigues pode ser lido hoje como o autor brasileiro que melhor se debruçou sobre as ambigüidades de uma nação dilacerada em tão diversas camadas. Instaurar essa tensão no processo interno de sua obra, priorizando sem medo as flutuações entre fronteiras, persistentes até nos nossos tempos líquidos, torna seu pensamento não apenas atual como definitivo. Transforma-o, ainda, ironicamente, numa daquelas unanimidades que ele tanto combateu. Uma unanimidade essencial.
Jade Gandra Dutra Martins é pós-doutoranda e autora da tese Nelson Rodrigues e sua cena: dramaturgia da tensão, cinema da síntese.
(Texto originalmente publicado no DC Cultura / Diário Catarinense, 15/01/2011)
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Contardo Calligaris, gênio*

A necessidade de mostrar ao mundo um semblante feliz é uma das grandes fontes de infelicidade
UMA AMIGA inventou um jeito de curtir sua fossa. Depois de um dia de trabalho, de volta em casa, ela se enfia na cama, abre seu laptop e entra no Facebook.
Ela não procura amigos e conhecidos para aliviar o clima solitário e deprê do fim do dia. Essa talvez tenha sido a intenção nas primeiras vezes, mas, hoje, experiência feita, ela entra no Facebook, à noite, como disse, para curtir sua fossa. De que forma?
Acontece que, visitando as páginas de amigos e conhecidos, ela descobre que todos estão muito bem: namorando (finalmente), prestes a se casar, renovando o apartamento que sempre desejaram remodelar, comprando a casa de praia que tanto queriam, conseguindo a bolsa para passar dois anos no exterior, sendo promovidos no emprego ou encontrando um novo "job" fantasticamente interessante. E todos vivem essas bem-aventuranças circundados de amigos maravilhosos, afetuosos, alegres, festeiros e sempre presentes, como aparece nas fotografias postadas.
Minha amiga, em suma, sente-se excluída da felicidade geral da nação facebookiana: só ela não foi promovida, não encontrou um namorado fabuloso, não mudou de casa, não ganhou nesta rodada da loto. É mesmo um bom jeito de aprofundar e curtir a fossa: a sensação de um privilégio negativo, pelo qual nós seríamos os únicos a sofrer, enquanto o resto do mundo se diverte.
Numa dessas noites de fossa e curtição, minha amiga, ao voltar para sua própria página no Facebook, deu-se conta de que a página não era diferente das outras. Ou seja, quem a visitasse acharia que minha amiga estava numa época de grandes realizações e contentamentos. Ela comentou: "As fotos das minhas férias, por exemplo, esbanjam alegria; elas não passaram por nenhum photoshop, acontece que são três ou quatro fotos "felizes" entre as mais de 500 que eu tirei".
Logo nestes dias, acabei de ler "Perché Siamo Infelici" (porque somos infelizes, Einaudi 2010, organizado por P. Crepet). São seis textos de psiquiatras e psicanalistas (e um de um geneticista), tentando nos explicar "por que somos infelizes" e, em muitos casos, por que não deveríamos nos queixar disso.
Por exemplo, a infelicidade é uma das motivações essenciais; sem ela nos empurrando, provavelmente, ficaríamos parados no tempo, no espaço e na vida. Ou ainda, a infelicidade é indissociável da razão e da memória, pois a razão nos repete que a significação de nossa existência só pode ser ilusória e a memória não para de fazer comparações desvantajosas entre o que alcançamos e o que desejávamos inicialmente.
Não faltam no livro trivialidades moralistas sobre o caráter insaciável de nosso desejo ou evocações saudosistas do sossego de algum passado rural. Em matéria de infelicidade, é sempre fácil (e um pouco tolo) culpar a sociedade de consumo e sua propaganda, que viveriam às custas de nossa insatisfação.
Anotei na margem: mas quem disse que a infelicidade é a mesma coisa que a insatisfação? E se a infelicidade fosse, ao contrário, o efeito de uma saciedade muito grande, capaz de estancar nosso desejo? Que tal se a infelicidade não tivesse nada a ver com a ansiedade das buscas frustradas, mas fosse uma espécie de preguiça do desejo, mais parecida com o tédio de viver do que com a falta de gratificação? Em suma, você é infeliz porque ainda não conseguiu tudo o que você queria, ou porque parou de querer, e isso torna a vida muito chata?
Seja como for, lendo o livro e me lembrando da fossa de minha amiga no Facebook, ocorreu-me que talvez uma das fontes da infelicidade seja a necessidade de parecermos felizes. Por que precisaríamos mostrar ao mundo uma cara (ou uma careta) de felicidade?
1) A felicidade dá status, como a riqueza. Por isso, os sinais aparentes de felicidade podem ser mais relevantes do que a íntima sensação de bem-estar;
2) além disso, somos cronicamente dependentes do olhar dos outros. Consequência: para ter certeza de que sou feliz, preciso constatar que os outros enxergam minha felicidade. Nada grave, mas isso leva a algo mais chato: a prova de minha felicidade é a inveja dos outros.
O resultado dessa necessidade de parecermos felizes é que a felicidade é este paradoxo: uma grande impostura da qual receamos não fazer parte e que, por isso mesmo, não conseguimos denunciar.
* Pro amigo que me desejou, com muita delicadeza e atenção, um 2011 com menos msn e mais perfume, menos twitter e mais sabor, menos virtualidade e mais abraço. Benditos sejamos nós, que seguimos preferindo a vida do lado de cá.
* Calligaris entrou na minha vida ainda no mestrado, graças às originais interpretações do pensamento de Nietzsche sobre o trágico. Acabei a tese de doutorado mas jamais tirei dos favoritos. O texto acima, e muitos outros, você encontra em contardocalligaris.blogspot.com.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
O mal-estar (eterno) da civilização
“Em nosso mundo de furiosa ‘individualização’, os relacionamentos são bênçãos ambíguas. Oscilam entre o sonho e o pesadelo, e não há como determinar quando um se transforma no outro. Na maior parte do tempo, esses dois avatares coabitam – embora em diferentes níveis de consciência”.Zygmunt Bauman
Helena luta para alinhar as esperanças diante do novo estado civil, divorciada aos 60 anos. Alfie, o ex-marido, tenta retomar o frescor da juventude mantendo casos esporádicos com ninfetas famintas por joias caras e coquetéis da moda. Sally, a filha única, retorna ao mercado de trabalho após um punhado de frustrações e logo se encanta com o way of life do chefe charmoso. Roy, seu companheiro, desequilibra-se entre as contingências do desemprego e a espera pelo aceite do seu atrasado romance, um sim que promete redimi-lo de todas as escolhas até ali, ressignificando a sua própria vida.
You Will Meet a Tall Dark Stranger, traduzido para Você vai conhecer o homem dos seus sonhos, o mais novo filme do roteirista e diretor Woody Allen, inicia apresentando as possibilidades supostamente aconchegantes oferecidas pela roda da vida àqueles que estão sempre à espera de algo novo. Se o (re) começo vem infestado de aperto no estômago e frescas expectativas, o tempo, porém, acaba por revelar que transformações profundas são cada vez mais raras, e difíceis, e dolorosas, no volátil cenário contemporâneo.
A insatisfação reina em todos os espaços e esferas, sejam tempos de glória ou de fracasso. Helena não consegue se acostumar ao divórcio, procurando apoio numa vidente charlatã que encontra nas cartas o futuro brilhante que ela não acha em vida. Entre uma dose e outra de uísque, luta para ficar de pé, feito heróico em meio a tantos incômodos. Alfie, desencantado com a impermanência também da nova rotina de “jovem solteiro aos 70 anos”, prefere casar com uma prostituta interesseira a encarar a solidão tão típica dos tempos líquidos. Não demora muito para flagrar o engano também ali: Charmaine sequer sabe quem é o pai do seu bebê.
Obrigada a ajudar no sustento da casa, Sally troca o sonho da gravidez, impossibilidade antes, dada à instabilidade do casamento, pela (também) ilusão de usufruir da vida aparentemente perfeita do chefe, almejando uma libertação que só consegue encontrar fora dela mesma. Roy aproveita a distração da mulher para espiar a musicista cor de jambo que se exibe na janela da frente, condensando numa metáfora todo o enredo do filme: o gramado do vizinho parece sempre mais verde. Só parece, no entanto.
Muito rapidamente todos descobrem que retomada nem sempre rima com sucesso. Não correspondida pelo chefe, Sally percebe que a impossibilidade permanece. Enquanto isso, Roy sublima o sonoro não da editora entregando-se aos encantos da morena, que abandona o noivo em busca daquele “algo novo” que também ela desconhece. As novas experiências, porém, acabam se tornando tão falhas quanto as anteriores. O desfecho de Alfie, sozinho após tentar reatar o casamento com Helena, sugere que o “verde mais verde” do vizinho é apenas ilusão de ótica, a mais eficaz falácia moderna.
Misturando drama e comédia, marca da poética do autor, You Will Meet a Tall Dark Stranger insinua já no título original, uma óbvia alusão à morte, a insatisfação generalizada de uma sociedade repleta de sujeitos incapazes de manter a estabilidade e defender a verdade das próprias experiências. Neste território, a morte sempre chega antes do encontro ideal, da alma gêmea, da completude, da felicidade. Parte porque estamos sempre olhando para os lados, inquietos. Parte porque já somos incapazes de consertar, conciliar, adaptar, aceitar. Dificuldade típica da nossa era, como sugere Bauman: “O que dizer de uma balsa com um marinheiro inexperiente que, criado na era dos acessórios, nunca teve a oportunidade de aprender a arte dos reparos?”.
Embora se valha aqui de recursos cômicos quase simplórios, apelando para clichês do humor, como Viagra, videntes e sessões espíritas, Woody Allen ainda parece ser um dos poucos diretores contemporâneos que analisam de forma certeira as dores e as delícias de se viver no mundo de hoje. Se não traz respostas para os nossos males, ao menos coloca perguntas cruciais: “Afinal, por que estamos sempre insatisfeitos?”.
(Texto publicado no DC Cultura / Diário Catarinense, 27/11/2010)
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