"A conduta pode basear-se em rocha sólida ou em pântano alagadiço, mas, depois de certo ponto, pouco me importa aquilo em que ela se baseie. Quando voltei ao Leste, no outono passado, senti que queria que o mundo todo estivesse metido em uniforme e colocado numa espécie de posição de sentido moral permanente; estava farto de excursões turbulentas, com privilegiados relanceares de olhos, ao coração humano. Somente Gatsby, o homem que empresta seu nome a este livro, se achava isento dessa minha reação - Gatsby, que representava tudo aquilo por que sinto natural desdém. Se a personalidade consiste numa série ininterrupta de gestos bem-sucedidos, então é certo que havia nele algo magnífico, uma apurada sensibilidade para as promessas da vida, como se ele tivesse alguma relação com esses intrincados maquinismos que registram terremotos ocorridos a dez mil milhas de distância. Essa sensibilidade nada tinha a ver com essa flácida impressionabilidade dignificada pelo nome de "temperamento criador": era um dom extraordinário de esperança, uma presteza romântica como jamais encontrei em qualquer outra pessoa e que, provavelmente, jamais tornarei a encontrar. Não... Gatsby saiu-se bem, no fim; o que perseguia Gatsby - a abominável poeira que pairava sobre a esteira de seus sonhos - é que fez com que eu perdesse temporariamente o interesse pelas tristezas abortivas e pelas ofegantes alegrias dos homens".
(O Grande Gatsby, Scott Fitzgerald)
PS: Se fosse vivo, Fitzgerald só dançaria Madonna!
PPS: Dezembro chegando, florido e calorento, com uma penca de (felizes) novidades: Let's celebrate!
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
meditação

Quem acreditou / No amor, no sorriso, na flor / Então sonhou, sonhou... / E perdeu a paz / O amor, o sorriso e a flor / Se transformam depressa demais / Quem, no coração / Abrigou a tristeza de ver tudo isto se perder / E, na solidão / Procurou um caminho e seguiu, / Já descrente de um dia feliz / Quem chorou, chorou / E tanto que seu pranto já secou / Quem depois voltou / Ao amor, ao sorriso e à flor / Então tudo encontrou / E a própria dor / Revelou o caminho do amor / E a tristeza acabou.
* sábio mestre Tom!
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
sem engano*
Acordou na companhia daquela velha e ambígua frase: "Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo". Não estava de ressaca, nem recorrera aos milagrosos remedinhos para chamar o sono. Muito pelo contrário: embalada pelas promessas recentes, escondidas em caixas com chaves, adormecera enquanto desenhava o reveillon. Um esboço possível, ainda, apenas. Mesmo assim, já conseguira enfiar começo, meio e fim na cena que encerraria seu ano mais desmontado. Vestiria branco, e ofertaria flores aos santos, e pularia sete ondas, e prepararia lentilhas e sobremesas geladas, e brincaria de adivinhar canções e cálices. Estaria num lugar distante, rodeada de desconhecidos e palavras estrangeiras, sozinha entre sonhos desfeitos, feliz com as promessas recentes, já não mais encaixotadas. Grécia, incógnita total? Rio de Janeiro, entre gringos de Copacabana? Não sabia direito, mas haveria praia, e sal, e areia nos pés descalços. Assustou-se com o cruel talento para virar a mesa e sair pelos fundos. Como cogitava virar o ano de forma oposta aos desejos da primavera? Despertou triste com os (novos) buracos da alma. Não queria começar a priorizar a felicidade.
* "quando a gente conversa, contando casos, besteiras / tanta coisa em comum / deixando escapar segredos (...)"
** pro Diego, jornalista desde ontem, que ama essa música.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
muito lindíssima
Eu traço tantos planos / Brilhantes, antes / De te ganhar num salto / Mortal, de iniciante / Na pirraça de te ter / Por enquanto, por enquanto / Eu miro o índio que eu sou / No teu ser / E alcanço / Viagens tão óbvias / Loucuras tão sóbrias / De um iniciante / De um iniciante / Aprendiz das piscinas / Tão tingidas de escuro / Aonde, peixe safo / Eu nado até você / Até o teu mundo / Que eu também procuro / Nesse quarto sem luz / Nessa ausência de tudo / Se prepare, eu tô "locky" / Só precisas de um toque / De um toque de iniciante / De um toque de iniciante(Blues do Iniciante, Cazuza)
PS: Adoro Cazuza, desde sempre.
PPS: Um viva aos planos, desbotados ou novos, gastos ou imprevistos, refeitos ou levados adiante.
PPPS: Eve, linda, toda felicidade do mundo pra você. Um beijo de feliz aniversário, e um cheirinho no nosso pequeno Zig.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
alfabeto de urgências
(suspiros de) alívio :: beiradas :: coragem :: dureza :: entrega :: futuro :: grandeza :: horizonte :: intensidade :: juventude :: leveza :: misturas :: nuanças :: ordem :: pai (xão) :: quereres :: risada :: sossego :: tesouro :: união :: verdade :: virtude :: vida :: zeros (de recomeço)
* pra mim, pros meus, pros seus. sempre.
* pra mim, pros meus, pros seus. sempre.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
as dores que não curam em botecos
Desde garotinha coleciono livros de psicologia e psiquiatria, sobretudo relacionados a comportamento, tipos de personalidade e distúrbios de humor. Sempre fiz questão de manter os conceitos na ponta da língua, bem como a anamnese necessária para diagnosticar cada caso. Por uma infinidade CONSTRANGEDORA de motivos, e para (tentar) compreender os inexplicáveis da experiência humana, reli uma penca deles em 2009. Abaixo, uma palhinha da introdução de um dos melhores da estante. Se não o mais acessível aos leigos, já que pressupõe algum conhecimento prévio da teoria de Freud, epicentro das escolhas da autora, ao menos o mais tocante, pelas difíceis questões trabalhadas. Chama-se Perdas Necessárias, e é da psicanalista Judith Viorst.
"Um tanto enrugada, altamente vulnerável e definitivamente mortal, examinei essas perdas. Essas perdas de uma vida inteira. Essas perdas necessárias. As perdas que enfrentamos quando nos vemos face a face com o fato do qual não podemos fugir...
que nossa mãe vai nos deixar, e que nós vamos deixá-la;
que o amor da nossa mãe jamais será só nosso;
que as dores que nos machucam nem sempre desaparecem com um beijo;
que estamos no mundo essencialmente por nossa conta;
que teremos de aceitar - nos outros e em nós mesmos - um misto de amor e ódio, de bem e de mal;
que, por mais sábia, bela e encantadora que seja, nenhuma garota pode se casar com o pai quandro crescer;
que nossas opções são limitadas pela anatomia e pela culpa;
que nosso status neste planeta é implacavelmente efêmero;
e que somos completamente incapazes de oferecer a nós mesmos ou aos que amamos qualquer forma de proteção - proteção contra o perigo e a dor, contra as marcas do tempo, contra a velhice, contra a morte, proteção contra nossas perdas necessárias."
* Um brinde aos heróis que concluem o trecho sem engasgar em nenhum tópico!
** Quando leio teoria, sempre volto à ficção, e vice-versa. Um dos melhores TRATADOS sobre a perda está no conto Babilônia Revisitada, de Scott Fitzgerald. Escrita em 1931, a história narra uma sucessão de perdas devastadoras porque irremediáveis, inadiáveis porque inexoráveis, definitivas porque contingenciais. "Tudo acabou, inclusive eu" - diz o protagonista Charles Wales, alcóolatra regenerado, abrindo a narrativa. Para conferir, 25 Contos Escolhidos, da Companhia das Letras, com (excelente) tradução de Ruy Castro.
*** Drops do melhor de Fitzgerald:
"Já se fartara do afã e da inventividade de Montmartre. Constatou que, ali, a oferta de vício e extravagância se dava numa escala tremendamente ingênua, e só então se deu conta do significado da palavra 'dissipar' ― dissipar no ar; transformar qualquer coisa em nada. Às altas horas da madrugada, cada deslocamento de um lugar para outro era um gigantesco salto humano, e pagava-se um preço cada vez mais alto pelo privilégio de movimentos mais e mais lentos.
Ele se lembrou das notas de mil francos dadas a orquestras para tocarem uma única canção, das notas de quinhentos francos atiradas a porteiros por terem chamado um simples táxi. Mas esse dinheiro não tinha sido em vão. Mesmo as quantias mais loucamente desperdiçadas haviam sido dadas como oferenda ao destino…"
"Um tanto enrugada, altamente vulnerável e definitivamente mortal, examinei essas perdas. Essas perdas de uma vida inteira. Essas perdas necessárias. As perdas que enfrentamos quando nos vemos face a face com o fato do qual não podemos fugir...
que nossa mãe vai nos deixar, e que nós vamos deixá-la;
que o amor da nossa mãe jamais será só nosso;
que as dores que nos machucam nem sempre desaparecem com um beijo;
que estamos no mundo essencialmente por nossa conta;
que teremos de aceitar - nos outros e em nós mesmos - um misto de amor e ódio, de bem e de mal;
que, por mais sábia, bela e encantadora que seja, nenhuma garota pode se casar com o pai quandro crescer;
que nossas opções são limitadas pela anatomia e pela culpa;
que nosso status neste planeta é implacavelmente efêmero;
e que somos completamente incapazes de oferecer a nós mesmos ou aos que amamos qualquer forma de proteção - proteção contra o perigo e a dor, contra as marcas do tempo, contra a velhice, contra a morte, proteção contra nossas perdas necessárias."
* Um brinde aos heróis que concluem o trecho sem engasgar em nenhum tópico!
** Quando leio teoria, sempre volto à ficção, e vice-versa. Um dos melhores TRATADOS sobre a perda está no conto Babilônia Revisitada, de Scott Fitzgerald. Escrita em 1931, a história narra uma sucessão de perdas devastadoras porque irremediáveis, inadiáveis porque inexoráveis, definitivas porque contingenciais. "Tudo acabou, inclusive eu" - diz o protagonista Charles Wales, alcóolatra regenerado, abrindo a narrativa. Para conferir, 25 Contos Escolhidos, da Companhia das Letras, com (excelente) tradução de Ruy Castro.
*** Drops do melhor de Fitzgerald:
"Já se fartara do afã e da inventividade de Montmartre. Constatou que, ali, a oferta de vício e extravagância se dava numa escala tremendamente ingênua, e só então se deu conta do significado da palavra 'dissipar' ― dissipar no ar; transformar qualquer coisa em nada. Às altas horas da madrugada, cada deslocamento de um lugar para outro era um gigantesco salto humano, e pagava-se um preço cada vez mais alto pelo privilégio de movimentos mais e mais lentos.
Ele se lembrou das notas de mil francos dadas a orquestras para tocarem uma única canção, das notas de quinhentos francos atiradas a porteiros por terem chamado um simples táxi. Mas esse dinheiro não tinha sido em vão. Mesmo as quantias mais loucamente desperdiçadas haviam sido dadas como oferenda ao destino…"
Assinar:
Postagens (Atom)