quinta-feira, 14 de maio de 2009

Perfis literários - Parte 3

Mais um, da série idealizada para o jornal O Judiciário, da Associação dos Magistrados Catarinenses. Deu um trabalhão, sobretudo pela insistência em realizá-lo na forma de verbetes, mas é um dos que mais gosto.


Pequenas lições de filosofia e equilíbrio

Salim Schead dos Santos já foi estudante de línguas, historiador formado, jornalista de pautas quentes, poeta premiado, juiz dedicado às causas sociais e professor universitário. Perambulou por incontáveis cidades, perseguiu objetivos de carro, ônibus, trem e avião, decidiu a vida de todo tipo de gente, julgando dos casos mais polêmicos aos enroscos mais triviais. Desembargador desde 2003, dedica-se agora a manter o equilíbrio mesmo num dos picos do poder. Um desafio fácil de vencer: desde os dias mais incertos da juventude, é acompanhado por uma ilustre figura, competente na construção de sua personalidade tranqüila, observadora e auto-consciente. O filósofo romano Marco Aurélio deu-lhe as mãos ainda na adolescência, quando conheceu o livro Meditações, até hoje em sua mesinha de cabeceira. A obra, baluarte da filosofia estóica, consolou o magistrado nos raros momentos de sofrimento, encarados sempre como experiências, e permitiu que reconhecesse mesmo as felicidades mais miúdas, tão difíceis de identificar. A convivência diária rendeu ao desembargador um rol particular de sabedorias, orientadas segundo o despojamento da doutrina ascética do romano, dispostas aqui em ordem alfabética, segundo princípios sugeridos e cultivados pelo filósofo. A seguir, algumas das lições mais preciosas de Salim Schead dos Santos.


ARTE – Se Marco Aurélio aprendeu com Rústico o valor de leituras rigorosas, dispensando idéias gerais e palavras fáceis, seus próprios escritos sugeriram a importância da pluralidade estética. Comprador compulsivo de livros, o desembargador desvia boa parte do orçamento à aquisição dos preferidos: Drummond, Borges, Machado, Vargas Llosa, Flaubert, Balzac, Quintana, Bandeira, Rubem Braga. Gosta de crônica, poesia, romance, livros de ensaios – Carlos Fuentes é a companhia do momento. Ao elencar as maiores obras, confirma o gosto diverso: A morte de Ivan Ilitch, Ratos e Homens, Vidas Secas, José Saramago – de quem leu mais de uma dezena de títulos. Embora não dedique muito tempo à música, quase sempre aciona o som durante as análises de processos, às vezes música orquestrada, às vezes canções em língua inglesa. A cultura artística é complementada com visitas a museus, sobretudo em viagens ao exterior, área onde também já acumula eleitos: Portinari, Di Cavalcanti e Van Gogh, cuja biografia o impressiona, sobretudo pelo fracasso de não ter conseguido vender uma única tela em vida. É por meio da literatura, porém, que intensifica com mais paixão sua educação estética: “para mim, as leituras fora da área técnica são também formas de descansos”. Acumulando vários títulos ao mesmo tempo, Salim completa ao menos um livro por mês, já que “cada um satisfaz um tipo de curiosidade”.

CONSCIÊNCIA – O ofício da magistratura parece depender de quatro condições: vocação para a responsabilidade, busca de conhecimento fora das análises técnicas, compreensão humana e capacidade para resolver conflitos. Em uma palavra, consciência, consciência dos atos, na totalidade, e não apenas no restrito âmbito em que muitos mantêm suas ocupações profissionais. Da mesma forma que é proibitivo "julgar sem se preocupar com as conseqüências da decisão", é necessário “jamais impor seu ponto de vista sem se cercar de informações, tampouco agir por impulso”. Parte do genuíno interesse pelo outro Salim atribui à sua geração, construída a partir de passeatas de protesto, recusa à ditadura, palavras de ordem, poemas de Chico Buarque e peças de teatro interditadas. Os anos 60, garante, formaram uma personalidade calcada na responsabilidade social, e na busca do bem comum, um olhar ao mesmo tempo contemplativo e participante. Tal consciência, prerrogativa particular do seu conceito de verdade, estende-se à vida pessoal, num movimento circular. Com a fala mansa, escolhendo bem as palavras, explica que adoraria ter mais tempo para se voltar para dentro de si, primeiro degrau da felicidade, segundo sua lógica: “Eu gosto muito de entender as pessoas”. Neste universo, o bem-estar é parente do auto-conhecimento: ter consciência de si próprio, sua introversão, sua calma, sua tranqüilidade, é o princípio de uma jornada solitária que pode ajudar a modificar o próprio mundo. Um olhar para si caro também ao companheiro Marco Aurélio, que cresceu ao som das palavras do tutor: não recear o trabalho, tratar das suas próprias necessidades, meter-se com a sua vida, e nunca dar ouvidos à má-língua.

FAMÍLIA – Em 2008, completou 34 anos de casamento. Sônia, paixão permanente, faz questão de frisar, era uma estudante de línguas quando se conheceram, na Universidade Federal de Santa Catarina. O encontro transformou sua vida e lhe entregou duas meninas, Juliana e Fernanda, e um neto, Samuel, garotinho de quatro anos que rouba parcela significativa de sua atenção. O casal vive ainda com três cadelas, Keli, da “terceira idade”, Kate, “adolescente”, e Phoebe, “ainda criança”, e dois canarinhos; todos juntos numa casa no Santa Mônica, um dos poucos bairros catarinenses que ainda preservam o clima interiorano. A família tranqüila de hoje lembra bastante aquela de onde veio, ele e mais seis irmãos, um deles falecido aos 24 anos. Lá, conheceu as diferenças, aceitando tanto a extroversão da mãe, sempre alegre e otimista, quanto a introversão do pai, mais recolhido. Se Marco Aurélio inicia suas meditações louvando o legado familiar, nossas heranças subjetivas, Salim compartilha com o amigo a mesma gratidão. Com a mãe, reconheceu a validade da máxima “querer é poder”, afastando a crença na sorte, esforçando-se para dar conta da vida. Anos depois, ainda recita Rui Barbosa, eternizando o diálogo materno: “Maior do que a tristeza de não haver vencido é a vergonha de não ter lutado”. Em casa, o menino de Criciúma vislumbrou ainda aquela esperança meio gratuita que surge quando o mundo parece desbotar, certa crença na superação: a irmã Ângela venceu o câncer sem tirar o sorriso do rosto. Ali encontrou também o primeiro herói, imbatível até hoje: seu próprio pai, "sereno, honesto, sério, sempre em busca do diálogo, dono de excelente compreensão humana". Sônia, anos depois, entregou-lhe o mesmo aconchego: com ela aprendeu inglês, com ela conheceu a fé, por ela deixa-se transformar cotidianamente.

MORTE – Para o desembargador, “a vida é um caminho” – ponto alto de toda filosofia que tende a enxergar no universo pólos de constantes mutações, objetivo já das meditações milenares de Marco Aurélio. Em paz com suas escolhas, e crente da validade da própria trajetória, sem desalinhos ou excessos, considera muito bom seu atual estado de espírito: “tenho duas filhas queridas, amo minha mulher, possuo grandes experiências conjuntas e gosto do meu trabalho”. É pela satisfação, então, que "não encontra dificuldade para encarar a idéia da morte". Se a sociedade moderna faz questão de esconder nossas despedidas, enclausurando os casos de doenças fatais, vedando o corpo em caixões de luxo, o magistrado encara a finitude como parte do próprio fenômeno vida. Se pudesse sugerir sua ida pediria apenas que fosse, claro, com tranqüilidade – tranqüilidade apresentada por ele diante dos revezes e das felicidades. Mais uma importante lição do mestre: “Embarca-se, faz-se a viagem, chega-se ao porto: desembarca-se, então”.

PRESENTE – Viver cada dia como se fosse o último é uma das mais contundentes sugestões da filosofia estóica: “lembra-te que o homem vive só no presente, neste momento fugaz: todo o resto da vida é ou passado e já ido, ou ainda não revelado”. O posicionamento no presente, dispensando as sobras do passado e evitando planejamentos maiores para o futuro, garante dose extra de tranqüilidade ao magistrado, tão importante para a efetivação da sua experiência. Para fazer valer a eternidade do instante do momento, evita o rancor: "muitas decepções que tive, já esqueci, não vale a pena retê-las". Mas não deixa morrer a alegria: "Passar no concurso para juiz foi uma explosão de alegria". No fim das contas, tempera com intensidade, a intensidade do hoje, sua tão característica tranqüilidade. É a própria experiência da vida que defende, com unhas e dentes: “Não vejo mérito na omissão, nem naqueles tipos que passam a vida em brancas nuvens”.

RELATIVISMO – Nem o prazer é necessariamente um bem, nem a dor é necessariamente um mal – a sentença, uma das máximas sugeridas nas entrelinhas de Meditações, é seguida à risca pelo discípulo. Seu relativismo, que busca dar conta das situações de acordo com seus contextos próprios, aplica-se em primeira instância à profissão. Antes de tudo é preciso enxergar a lei de outra forma, buscando alternativas, não apenas seguindo dogmáticas pré-estabelecidas. Uma de suas grandes preocupações em relação ao mundo contemporâneo é justamente a proliferação dos radicais, peritos em abandonar o fator humano. Contra a dicotomização da realidade, vislumbra no excesso de rigor apenas o caminho mais fácil para solucionar problemas de muitas pontas: “não acredito em mocinho e bandido; todo o ser humano tem virtudes e defeitos”. Ele, claro, lança o olhar para as virtudes. Herói, assim, pode ser todo mundo, graças a deus: basta resistir, basta revelar equilíbrio em situações-limite. “Heróis não precisam ser autores de ações grandiosas”. Ele mesmo encara-se como um magistrado atento e inquieto, atento às transformações da sociedade, cada vez mais velozes, inquieto com certas leis, “afinal nossa legislação não dá efetividade aos direitos da saúde e do meio ambiente, por exemplo”. Por conta da maneira filosófica com que encara a atividade da magistratura, cultiva algumas desconfianças cuidadosas: “tenho bastante dificuldade para aceitar a prisão por dívida”. Foi por se preocupar tanto com a liberdade, os direitos daquele outro, seu interesse profissional maior, que acabou se envolvendo academicamente com Direito Penal, tema do seu mestrado, também na UFSC. “É uma área desafiante. Fico muito preocupado quando leio que 43% acredita que bandido bom é bandido morto”.

SIMPLICIDADE – Pessoalmente, Salim é um homem cordial e atencioso, sem qualquer vestígio da arrogância que acompanha alguns nomes do poder. Conversa sem pressa, e ouve com a mesma atenção com que explica suas verdades – quase sempre relativizadas de acordo com o contexto e o ouvinte. Pergunta, indaga, escuta: parece aprender ao menos um tantinho com qualquer fato da vida, inclusive os mais corriqueiros. Interessa-se, sempre, pelo outro, dando-lhe crédito em qualquer circunstância. Cultiva a simplicidade dos verdadeiros humildes, desconfia do poder como de fato desconfiaram os legítimos heróis. Luxo, facilidades, dinheiro, vaidade, sucesso – os duvidosos valores contemporâneos parecem não afetar em nada suas escolhas. Dispensa saídas noturnas, aceita a própria introspecção, tranca-se entre clássicos diversos e inúmeras publicações, aproveita a família nas horas vagas. Adora mesmo é viajar: “nunca estou cansando para colocar o pé na estrada”. Se pudesse modificar alguma coisa em si mesmo, seria um tantinho mais extrovertido. Se recebesse a chance de dobrar algum sentimento no mundo, multiplicaria a compreensão e a tolerância – aquele olhar para o outro, que nele aparece e se consolida de forma tão natural. Solidariedade aqui é palavra chave. Nesta tranqüilidade ativa, mais próxima de um olhar tolerante para as coisas do mundo e dos homens, jamais um refúgio dos resignados, como poderia parecer aos fracos, alimenta a alegria e dispensa as decepções. Depende de cada pessoa transformar angústia em alívio: “muitas vezes o tempo passa e você compreende a situação, daí já deixa de ser decepção”. Para o desembargador, o mundo gira, as filas andam, os imperativos modificam-se: “Na medida que a vida vai passando, a gente vai enxergando as coisas de maneira diferente”. Para os sábios, só vale protagonizar a cena quando se é sereno, simples; “não vergues, mas sê comedido”.

TRANQUILIDADE – Na opinião do desembargador, "felicidade é um estado de espírito onde você se sente tranqüilo, em paz com o mundo e com você mesmo". Não à toa, fora o pai, seu ídolos são dois inconfundíveis baluartes do pacifismo, Madre Tereza de Calcutá e Gandhi. A aceitação de si mesmo é fato que acompanha o desembargador desde a infância: sempre foi estudioso, mas nunca fez questão de ser eleito o primeiro da turma; conviveu com parcela significativa de extrovertidos, mas aprendeu a se compreender como um homem calado, quieto, caseiro, que tira mais prazer do recolhimento da leitura do que das festas encerradas apenas com o dia claro; cordato, calmo, flexível. "Sou mais bombeiro do que incendiário" – define. A atividade favorita reflete a aceitação do seu próprio sujeito, aquele si tão importante na construção da felicidade: be yourself. Resignado diante do fluxo da vida, aceita de bom grado até mesmo a velhice, fonte de pesadelos dos modernos. Sua meta é envelhecer tranquilamente, sem ressentimentos. Se a virtude está no meio termo, como preza a filosofia de Marco Aurélio, desembargador Salim está a poucos passos do paraíso.

VERDADE – Desde pequenino, apresentou inclinação à área das ciências humanas, descartando números e estatísticas. Sempre lhe inquietou a condição humana, bem como a maneira como se comporta cada indivíduo em seus momentos particulares de tensão. A verdade, como meta, objetivo, esteve presente desde que aprendeu a pensar, seja na biblioteca ao alcance das mãos, repleta de obras capazes de discutir a fundo os desejos humanos, seja nos primeiros passos profissionais, como o estudante de História que desejava desvendar o passado, ou como o jornalista em busca do retrato mais fiel da notícia. Encarar a profissão com os contornos vagos do imprevisível é outra característica do desembargador: "Direito é sempre um desafio". Formado em História, a magistratura invadiu sua vida como uma espécie de chamado, um projeto novo onde conseguiria colocar em prática noções próprias de justiça. Já em sua primeira comarca, de Camperê, no extremo oeste catarinense, recebeu a chance de exercitar sua maneira particular de buscar a verdade. Num processo sobre posse de terras, contrariou expectativas ao colocar frente a frente as 80 famílias invasoras e o proprietário, que pedia reintegração. O encontro, recurso utilizado com extrema parcimônia, foi produtivo para todos os envolvidos, revelando ao autor, já naquela estréia tumultuada, a importância de se trilhar o próprio caminho, ainda que muitas vezes nossas escolhas não sejam as mais ortodoxas. "Se você tiver essa preocupação com o outro, vai ser juiz". A trajetória até o posto de desembargador foi, sem dúvida, uma construção, edifício em que depositou tijolos ao decorrer de toda a vida, afinal ela é, como já sabemos, “um caminho”. No topo, reconhece a necessidade de responsabilidade – quanto mais, melhor. Ao contrário dos amantes da força, o poder o incomoda em demasia; considera-o uma missão, jamais uma benção. Conseguir identificar a decisão correta, a verdade jurídica, é uma preocupação constante, assalto na tranqüilidade tão perseguida pelo desembargador. Hoje, considera-se um profissional "preocupado com o ofício de fazer justiça". Afinal, como lhe sussurra Marco Aurélio todas as noites, a vida mortal nada pode oferecer de melhor do que justiça e verdade, autodomínio e coragem. E ele aprendeu bem a lição.

domingo, 10 de maio de 2009

Passarinhos ao vento

Nunca gostei de Elizabeth Taylor. Não acho boa atriz, sequer bonita. Tem um pescoço curto que me irrita e coleciona trejeitos de intérprete amadora. Fora aqueles olhões em tom de violeta, realmente raros e estonteantes, nada mais me agrada ali. Ontem, porém, venci minha resistência ao assistir uma versão piratona de Sandpiper, ou Adeus às ilusões, como preferiu a tradução brasileira, sempre tão competente em escancarar as sutilezas já na chamada.

A sugestão partiu do pai, e como foi ele quem me criou esteticamente em tão variados sentidos, me entreguei à experiência despida de qualquer preconceito. Qualquer mesmo, inclusive os que sempre dirigi à mocinha modernosa da trama. Liz Taylor é Laura Reynolds, uma pintora um tanto libertina, mãe solteira e namoradeira, que vive numa casa belíssima numa pequena cidade do litoral da Califórnia. Seu menino, Danny, é considerado um tanto selvagem para os padrões locais.

Após matar um veadinho, para entender por que o homem é o único animal que mata por prazer, lição da mãe, Danny é obrigado pelo juiz do vilarejo a ingressar numa escola episcopal cheia de regras. Ele se apaixona pelo ambiente, repleto de meninos da sua idade. Laura, claro, se apaixona pelo pastor da escola, o correto pai de família Edward Hewitt, interpretado por Richard Burton, futura encrenca da vida de Liz Taylor. É correspondida, para desespero de ambos.

Moderno por arrancar os preconceitos da difícil história de amor nascida do casal extraordinário, fora dos padrões, o filme, de 1965, disseca as impossibilidades surgidas quando encontramos certo hiato. O hiato melancólico vivido quando estamos no momento exato com a pessoa errada, ou com a pessoa exata no momento errado. Muitos filmes já tocaram no assunto, mas poucos conseguem atingir o ponto mais profundo. Alguns retornos são impossíveis, alguns princípios nos foram passados sob véus de ingenuidade e maldade, algumas histórias são belas justamente porque compõem as entrelinhas da vida, aquilo que jamais se tornará texto, lauda, cena.

Sandpiper aborda o fora da cena. O proibido mas não menos ético. O triste mas igualmente potente, forte. O legítimo, embora deslocado. Estão ali, na tela, os instantes de erro, mais do que os acertos; as confusões emocionais, mais do que as clarezas; os amores dúbios, mais do que as garantias. Tudo pode dar errado, a qualquer momento. Mas tudo pode dar certo também. Não basta acreditar, afinal o povo dali despreza a auto-ajuda de best sellers como O Segredo. Basta viver. E isso Laura Reynolds, embora apressada e trapalhona, sabe fazer como ninguém.

Filmaço, que ainda traz Charles Bronson num papel coadjuvante.

domingo, 19 de abril de 2009

Transformações, trânsitos, travessias.

Ontem uma borboleta amarela desafiou algumas leis ancestrais da natureza para se enfiar num quarto iluminado aqui de casa. Pousou imediatamente no meu ombro e ali ficou, por alguns segundos. Conversei, argumentei, expliquei, nada: ela permanecia paradinha, me desafiando. Depois de muita insistência, rodopiou entre as paredes cor de palha, ignorando as janelas abertas. Em poucos instantes, voltou para o meu ombro direito. Ficou horas assim. Quando enfim aceitou meu convite para abandonar o quartinho, pousou do lado de fora do vidro, decidida a me encarar com mais firmeza. À meia-noite ela ainda não tinha partido.

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Gosto de borboletas desde criança, sobretudo as amarelas, símbolo clássico de properidade, saúde e transformação. Sou bastante desconfiada com as mudanças, também desde criança, quando elas geralmente traziam despedidas e interrupções. Depois que a coisa acontece, e a roda gira, é fácil: adaptação ou desespero. Como jamais cogitei a segunda hipótese, nunca tive alternativa. Antes, porém, quando a indefinição ainda nubla os olhos, é um tormento. Imagino milhões de possibilidades, todas incapazes de trazer um mínimo alento. Sempre sigo adiante.

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Pois depois de um ano, redondinho, abandonei a Associação dos Magistrados Catarinenses, meu primeiro trabalho de carteira assinada pós-academia. Antes eu era doutoranda, pesquisadora, obcecada, professora, atrapalhada e quase nada de jornalista. Quando sentei naquela mesinha pela primeira vez, sabia que não ultrapassaria o limite de um ano, no máximo. Um ano permaneci - claro que a ilusão de "cumprir metas", outro vício de infância, ajuda a revestir as mudanças de certa permanência. A partir desta semana, sou editora-chefe de uma revista teen, a Its, mensal e com tiragem de 40 mil exemplares. Nada poderia parecer mais aconchegante neste momento. Mais bacana ainda foi ter sido indicada por alguém que sempre admirei, pelos textos bem escritos e pelas escolhas nada óbvias.

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Vida que segue.

sábado, 18 de abril de 2009

O Signo da Cidade - Parte 2

O enredo é aparentemente banal: uma astróloga discute na rádio os problemas dos ouvintes, palpitando com a ajuda das constelações do firmamento. A idéia é quase simplória: apresentar a diversidade, de sujeitos, de desejos, de sofrimentos, reunida numa metrópole como São Paulo. Outros dados corroboram o pessimismo preventivo: Carlos Alberto Riccelli (lembram do boto?) na direção, o rebento do casal Lombardi-Ricceli num dos papéis principais, e o bufão Juca de Oliveira conduzindo um enredo cravado de situações limites. O resultado, porém, é tão transformador que me fez esperar esta estranha e definitiva semana correr para escrever.

Tentei descobrir por que mexeu tanto comigo, lutei para absorver a frase abaixo, e devo ter absorvido apenas um punhado do belo significado, me empenhei em reconhecer os cantos mais escondidos do talento notório da escrita de Bruna Lombardi, a roteirista da história. Só hoje me arrisco a definir a complexidade tão bonita do filme: O Signo da Cidade é sobre perda, sobre solidão, sobre experiência, sobre vida. Como se não bastasse, ainda conta com uma profundidade plena de sutilezas, tão difícil de encontrar no cinema brasileiro contemporâneo - salvo raríssimas exceções, como O Céu de Suely.

Descontados a beleza da Bruna Lombardi, o roteiro bem estruturado, as personagens interessantes e diferentes, a direção impecável e a trilha suave, triste e distante como um enterro na infância, escancara aquela força, impressionante e espontânea, típica dos sentimentos mais legítimos. Apresenta uma gente dilacerada, perdida entre opções incapazes de aconchegar. Sugere as saídas, aponta alternativas, reconhece a grandeza das falhas e a beleza dos desfechos mais infelizes. Insinua os abandonos obrigatórios, quando não se pode seguir adiante. Enquadra o sofrimento, mas jamais cai no pieguismo. Com maturidade e complacência, aborda a solidão, não a dos carentes mas aquela que nunca cura. Consegue desvinculá-la de uma idéia de tormento, e aproximá-la da ordem da condição. A solidão da condição humana.

Às vezes, é até capaz de suspendê-la, com vagas sugestões que falhariam em mãos menos sensíveis. Em determinada cena, por exemplo, o moribundo tarado, pai da protagonista, implora para não morrer sem assistir à nudez de uma mulher, qualquer mulher, apenas mais uma vez. Uma enfermeira aceita despir-se para ele, num longuíssimo take que alterna a expressão alegre dele com o corpo mole e gordo dela. Sorriem os dois. Dífícil, muito difícil. E corajoso.

Baita filme: duro, doce, triste. Como a vida de qualquer um.

domingo, 12 de abril de 2009

O signo da cidade

não é perda, é movimento.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Sobre limites e limiares

Durante toda minha pós-graduação, tomei contato com uma infinidade de teóricos, pesquisadores e pensadores que conhecia apenas de orelhada. Me encantei com filosofia, virei leitora obsessiva de Nietzsche, decidi me biografar como Roland Barthes, reli quase todo o Freud. Uma das minhas maiores surpresas, porém, aconteceu com as leituras de George Bataille, pensador francês ainda inédito na minha experiência, especializado em temas espinhosos: limites, paixão, intensidade, violência. Sua obra O Erotismo foi como um conselho cúmplice sussurrado ao ouvido: diz muito sobre mim, sobre os meus, sobre o mundo. Abaixo, trechinho.


Não temos sempre a força necessária para desejá-lo, nossos recursos esgotam-se, e às vezes o desejo é impotente. Se o perigo se torna muito pesado, se a morte é inevitável, em princípio o desejo é inibido. Mas se tivermos sorte, o objeto que tanto desejamos é mais suscetível de levar-nos a gastos desenfreados e arriscar-nos. Os diversos indivíduos suportam desigualmente grandes perdas de energia ou de dinheiro - ou graves ameaças de morte. Na medida em que podem fazê-lo (é uma questão quantitativa de força), os homens procuram as maiores perdas e os maiores perigos. É mais fácil acreditar no contrário, porque eles com freqüência têm pouca força. Quando conseguem tê-la, querem logo gastá-la e expor-se ao perigo. Aquele que tem a força e os meios se lança em gastos contínuos e expõe-se incessantemente ao perigo.

(do livro O erotismo, de George Bataille, esgotado)

terça-feira, 7 de abril de 2009

Experiência Zero

Durante toda a faculdade, alimentei algumas convicções sobre a minha profissão. A principal delas é que só abraçaria o ofício à moda antiga. De fato, todas as minhas inclinações tendiam ao jornalismo de ontem: textos longos, paixão por diagramação, desconfiança da Internet, absoluto fascínio pelo papel. Nunca cogitei televisão, jamais sonhei com assessoria, desconhecia por completo o universo do rádio - e sigo assim até hoje. Eu só não sabia ainda dos perfis.

Descobri minha verdadeira paixão jornalística por acaso, enquanto trabalhava no projeto editorial de uma revista que, infelizmente, definhou sem conhecer a luz. EOQE era o nome, e tinha um projeto gráfico respeitável. Eu coordenava os textos, e escrevia sobre o tema que bem entendesse, qualquer um MESMO, contanto que não fosse muito extenso, já que o formato era pocket. Optei pela parte das entrevistas - ping-pong ou texto corrido, tanto fazia.

Alguns dias depois, fui conversar com o Alejandro Ahmed, que acumulava prêmios pela última coreografia do Cena 11, sem nenhuma pretensão de homenagear Talese. Mas quando sentei na frente do computador, após uma conversa divertida de mais de duas horas, descobri que aquela coisa de que eu gostava tanto, e tentava a todo custo arrancar de dentro de mim, mesmo após os encontros mais desinteressantes, chamava-se perfil literário. Ali, decidi que assim seria. E assim será.* Abaixo, o resultado da minha mais legítima epifania profissional.

* O que fazer com essa descoberta rende um post à parte...



Onze atos

A freqüência com que Sphex deixa sua casa para trabalhar vem aumentando muito nos últimos meses. Do pequeno prédio de inspiração modernista debruçado sobre a orla de Coqueiros, parte sempre à noite com a mochila carregada de equipamentos: mixer, fones de ouvido, toca-discos, cabos, cases e set lists de canções novinhas em folha. Suas especialidades, o minimal tecno e o minimal electro, embalam as madrugadas modernas de gente que insiste em amadurecer o underground mesmo numa ilha famosa pelo boi-de-mamão e o pirão d’água. DJ dos mais conhecidos em Santa Catarina, Sphex ainda arranjou outro jeito de arrancar o sono de seu público: “Será que algum dia ele deixa de dançar?”, perguntam-se uns e outros, entre drinques e barulhinhos.

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Sphex nem sempre foi o codinome de Alejandro. Há algum tempo, coisa de cinco anos, ele era apenas Alejandro Ahmed, bailarino na infância, coreógrafo desde a juventude, diretor artístico da companhia Cena 11 há 15 anos, famoso freqüentador de baladas alternativas em seus (raros) momentos longe da rotina da dança. Um cara que pisou o palco pela primeira vez aos treze anos, e desde então acumula prêmios sem precisar de nenhum malabarismo: os dois últimos foram no fim do ano passado, o Bravo! Prime de Cultura, por melhor espetáculo, e o Sérgio Motta Arte e Tecnologia, ambos para Pequenas frestas de ficção sobre realidade insistente. No palco, já é autor de grandes feitos: elaborou coreografias premiadas, ouviu elogios rasgados, conheceu críticas negativas, dançou com alguns de seus ídolos, polemizou com a própria nudez. Em quinze anos de trabalho, um norte prevaleceu, a “procura de honestidade”. Vem deste lema o seu maior orgulho: “a maneira como a companhia se organizou, sem concessão artística de qualquer espécie, e com certo grau de estabilidade”.


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Estabilidade, para Alejandro, é manter o mesmo objetivo, a honestidade, num percurso contínuo. Rima com equilíbrio, não com eternidade. Autor de oito espetáculos para o grupo, diretor de onze bailarinos, “chefe” de dezoito funcionários, parar de dançar já parece algo natural. Não pela barreira do corpo, já que o grupo prioriza técnicas menos espartanas, mas pelo próprio processo da maturidade: “vai chegar uma hora em que vou desejar usar a informação para outra coisa”. Seu futuro, acredita, é se tornar unicamente coreógrafo, arranjando e desconstruindo passos alheios. Enquanto não deixa a cena do palco, pesquisa e estuda e discursa sobre seus pontos favoritos em dança: o trato com o corpo, a espetacularização das coisas, as possibilidades de construção de um espetáculo de forma honesta. A compreensão dessas questões parece atender a um desejo mais que profissional em Alejandro: para ele, “a arte é uma estratégia de sobrevivência da espécie humana para compreender melhor a realidade”. Sem ela, sobraria apenas desespero.


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Uma das maiores lições de vida, ele recebeu no fim de 2005. A bailarina do Cena 11 Gica Alioto morreu de câncer aos trinta e dois anos de idade. A tristeza pelo imprevisto colocou-o diante de uma antiga pergunta, a dúvida que todos manejam nos momentos escuros: “O que eu faço enquanto estou vivo?”. Se a suposta resposta parece fácil, dança, a resposta que vem é menos profissional e mais aberta. Alguns fatos da vida afastaram Alejandro do espírito workaholic. Seu prazer é o prazer do cotidiano, das coisas miúdas e simples, de buscas outras e variadas. Dorme tarde, e pouco, aprecia doces e carne vermelha, sonha com um boteco próprio, gosta de comprar roupas e sapatos, prefere açúcar a adoçante, teme doenças e falta de grana, baixa música na Internet, detesta uva passa e beterraba, reza de vez em quando, fuma um cigarrinho e outro – embora tenha parado, com certo custo, há três verões, depois de treze anos de hábito. Não conta piada, mas relaxa fácil, garante. Bastam uns drinques e uma noitada agradável entre amigos. Mesmo encontrando razões para a vida fora do universo do palco, quase todos os seus amigos, coisa de “90%”, dialogam com suas duas paixões profissionais: ou são músicos ou são bailarinas. Por isso, garante, “tá sempre ligado”.

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Não vive sem café, sexo e álcool, principalmente se do lado de lá do balcão vier uma boa tequila. Política também lhe parece assunto sério, conceito em que consegue encaixar ele mesmo e o grupo: “não tem como não acreditar, a gente está inserido nela”. Já é cada vez mais possível viver de dança no Brasil, quase uma realidade, ainda que faltem uns tantos contornos até a construção de algo além da utopia. Familiarizado com as leis de incentivo, e patrocínios de toda ordem, assinala que “ainda não foi criada uma política cultural séria no país, o que não exclui grupos e bailarinos deste processo”. Suas referências em dança quase sempre rompem a barreira estética para se misturar à ética. Não à toa, perceber precariedades e definir o que dota ou não o homem de poder são algumas das buscas mais insistentes do bailarino, assaltando seus pensamentos até mesmo quando está diante daquelas três paixões inapeláveis.

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Alejandro implica com a própria mania de querer sempre todas as coisas, ao mesmo tempo: músicas, roupas, livros, equipamentos, referências, paisagens. Atualmente, tenta administrar seu tempo com três atividades principais: dança, que treina e ensaia seis horas por dia; pesquisas sobre corpo e movimento, que fundamentam suas coreografias e seu olhar exclusivo sobre a arte; e música, quase toda buscada na Internet. A ânsia, porém, só acentua sua “tensão sob controle”, estado de espírito do momento: entre um e outro intervalo, lê poesia, sobretudo a de Augusto dos Anjos e Arnaldo Antunes, curte quadrinhos, seu herói é Wolverine, e ainda incursiona pelo universo dos videogames, passatempo antigo que influenciou Violência, espetáculo da companhia em 2004.


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O problema começa a se delimitar quando a vocação para o abraço irrestrito alcança seus relacionamentos pessoais, sobretudo seus namoros. Parece difícil encontrar alguém disposto a avaliar antigos paradigmas: “todo formato precisa ser pensado do lado de dentro, e é uma pena que a maioria das nossas coisas tenha que se encaixar em padrões já existentes”. Ainda assim, o currículo sugere certa inclinação aos namoros longos, quase sempre com bailarinas. Embora a curiosidade torne a fidelidade uma busca difícil, a definição de uma boa união ainda conserva ecos românticos, como seu ideal de felicidade, que pede sobretudo paz e amor. Se as normas antigas já soam gastas, ainda é possível acreditar “num relacionamento que expanda a capacidade dos dois de viver bem no mundo”. Quem aceitar a causa, com a mesma energia com que Alejandro costuma agarrar tudo, tem vaga já num outro projeto, tão urgente quanto seus desejos imediatos: um filho, e no máximo em quatro anos.

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Há algum tempo está solteiro de novo. No apartamento modernista, construído em 1963 para ser um hotel, vivem apenas ele e a cachorra, Nina, outro exemplo de sua busca constante pela totalidade. Integrante do espetáculo Skinner Box, encenado pela companhia em 2005, a cachorrinha adestrada era apenas mais um participante temporário do Cena 11. Às suspeitas de estresse e maus tratos do antigo dono, Alejandro respondeu com impulso, levando-a para dividir com ele sua vista da praia da Saudade. Agora, tenta administrar as conseqüências: com quem deixá-la quando viaja?

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Morando sozinho desde o estabelecimento profissional da companhia, Alejandro não se mostra muito à vontade com os afazeres domésticos. Quase nunca cozinha e detesta lavar a louça, muitas vezes acumulada alguns dias sobre a pia. O que menos suporta, porém, é arrumar a mala, justamente uma das atividades mais corriqueiras de sua vida entre turnês e estréias. Quando vai a Berlim, cidade em que gostaria de viver caso precisasse abandonar o país, e onde já esteve quatro vezes, a primeira a convite de uma famosa companhia local, passa horas lutando para encaixar as peças fundamentais que se amontoam: parece-lhe impossível a receita dos práticos, para quem bastam três camisas, duas calças e um sapato. Alejandro teima em querer tudo ao mesmo tempo, e tudo ao mesmo tempo geralmente não cabe em nenhuma mala.

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Parte da dificuldade com a mala provém de sua paixão pela moda, em especial a alternativa e de bom design. Quem já o viu nas ruas sabe que a aparência parece ser uma de suas coreografias mais criativas. O cabelo já foi comprido, raspado e curto, pintado com quase uma dezena de cores: azul, verde, descolorido, laranja, vermelho, cinza... Juntamente com música, sobretudo vinil, roupa é o item que mais compra. Para sentir-se bem com o que veste, preocupa-se, sim, com o corpo, mas sem a neurose típica dos bailarinos e das modelos. Evita bebidas fermentadas, mas não as noitadas. Dorme seis horas em dias de semana, mas apenas quatro quando enfrenta a madrugada. Foge do cigarro, mas se está saindo com alguma garota que fuma, quem sabe? Para contrabalançar, pratica musculação, em média três vezes por semana, e dança, dança muito, dança sempre.

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Não é só a juventude dos seus trinta e seis anos que confirma o modo como Alejandro leva a vida. Suas nove tatuagens também gritam algumas verdades. Da primeira, uma pequena rosa negra nas costas, até a mais recente, variados estilos convivem numa harmonia paradoxal típica do bailarino: beleza e agressão, filosofia e cotidiano, elegância com rasgos. Há três anos, mais ou menos, uma frase certeira passou a ocupar seu braço esquerdo recordando no dia-a-dia a promessa de libertação de toda arte de respeito, seja a do Sphex, seja a de Alejandro: “Ainda há caos dentro de vós”. Ainda, não, para sempre.

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