Nunca gostei de Elizabeth Taylor. Não acho boa atriz, sequer bonita. Tem um pescoço curto que me irrita e coleciona trejeitos de intérprete amadora. Fora aqueles olhões em tom de violeta, realmente raros e estonteantes, nada mais me agrada ali. Ontem, porém, venci minha resistência ao assistir uma versão piratona de Sandpiper, ou Adeus às ilusões, como preferiu a tradução brasileira, sempre tão competente em escancarar as sutilezas já na chamada.
A sugestão partiu do pai, e como foi ele quem me criou esteticamente em tão variados sentidos, me entreguei à experiência despida de qualquer preconceito. Qualquer mesmo, inclusive os que sempre dirigi à mocinha modernosa da trama. Liz Taylor é Laura Reynolds, uma pintora um tanto libertina, mãe solteira e namoradeira, que vive numa casa belíssima numa pequena cidade do litoral da Califórnia. Seu menino, Danny, é considerado um tanto selvagem para os padrões locais.
Após matar um veadinho, para entender por que o homem é o único animal que mata por prazer, lição da mãe, Danny é obrigado pelo juiz do vilarejo a ingressar numa escola episcopal cheia de regras. Ele se apaixona pelo ambiente, repleto de meninos da sua idade. Laura, claro, se apaixona pelo pastor da escola, o correto pai de família Edward Hewitt, interpretado por Richard Burton, futura encrenca da vida de Liz Taylor. É correspondida, para desespero de ambos.
Moderno por arrancar os preconceitos da difícil história de amor nascida do casal extraordinário, fora dos padrões, o filme, de 1965, disseca as impossibilidades surgidas quando encontramos certo hiato. O hiato melancólico vivido quando estamos no momento exato com a pessoa errada, ou com a pessoa exata no momento errado. Muitos filmes já tocaram no assunto, mas poucos conseguem atingir o ponto mais profundo. Alguns retornos são impossíveis, alguns princípios nos foram passados sob véus de ingenuidade e maldade, algumas histórias são belas justamente porque compõem as entrelinhas da vida, aquilo que jamais se tornará texto, lauda, cena.
Sandpiper aborda o fora da cena. O proibido mas não menos ético. O triste mas igualmente potente, forte. O legítimo, embora deslocado. Estão ali, na tela, os instantes de erro, mais do que os acertos; as confusões emocionais, mais do que as clarezas; os amores dúbios, mais do que as garantias. Tudo pode dar errado, a qualquer momento. Mas tudo pode dar certo também. Não basta acreditar, afinal o povo dali despreza a auto-ajuda de best sellers como O Segredo. Basta viver. E isso Laura Reynolds, embora apressada e trapalhona, sabe fazer como ninguém.
Filmaço, que ainda traz Charles Bronson num papel coadjuvante.
domingo, 10 de maio de 2009
domingo, 19 de abril de 2009
Transformações, trânsitos, travessias.
Ontem uma borboleta amarela desafiou algumas leis ancestrais da natureza para se enfiar num quarto iluminado aqui de casa. Pousou imediatamente no meu ombro e ali ficou, por alguns segundos. Conversei, argumentei, expliquei, nada: ela permanecia paradinha, me desafiando. Depois de muita insistência, rodopiou entre as paredes cor de palha, ignorando as janelas abertas. Em poucos instantes, voltou para o meu ombro direito. Ficou horas assim. Quando enfim aceitou meu convite para abandonar o quartinho, pousou do lado de fora do vidro, decidida a me encarar com mais firmeza. À meia-noite ela ainda não tinha partido.
Gosto de borboletas desde criança, sobretudo as amarelas, símbolo clássico de properidade, saúde e transformação. Sou bastante desconfiada com as mudanças, também desde criança, quando elas geralmente traziam despedidas e interrupções. Depois que a coisa acontece, e a roda gira, é fácil: adaptação ou desespero. Como jamais cogitei a segunda hipótese, nunca tive alternativa. Antes, porém, quando a indefinição ainda nubla os olhos, é um tormento. Imagino milhões de possibilidades, todas incapazes de trazer um mínimo alento. Sempre sigo adiante.
Pois depois de um ano, redondinho, abandonei a Associação dos Magistrados Catarinenses, meu primeiro trabalho de carteira assinada pós-academia. Antes eu era doutoranda, pesquisadora, obcecada, professora, atrapalhada e quase nada de jornalista. Quando sentei naquela mesinha pela primeira vez, sabia que não ultrapassaria o limite de um ano, no máximo. Um ano permaneci - claro que a ilusão de "cumprir metas", outro vício de infância, ajuda a revestir as mudanças de certa permanência. A partir desta semana, sou editora-chefe de uma revista teen, a Its, mensal e com tiragem de 40 mil exemplares. Nada poderia parecer mais aconchegante neste momento. Mais bacana ainda foi ter sido indicada por alguém que sempre admirei, pelos textos bem escritos e pelas escolhas nada óbvias.
Vida que segue.
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Gosto de borboletas desde criança, sobretudo as amarelas, símbolo clássico de properidade, saúde e transformação. Sou bastante desconfiada com as mudanças, também desde criança, quando elas geralmente traziam despedidas e interrupções. Depois que a coisa acontece, e a roda gira, é fácil: adaptação ou desespero. Como jamais cogitei a segunda hipótese, nunca tive alternativa. Antes, porém, quando a indefinição ainda nubla os olhos, é um tormento. Imagino milhões de possibilidades, todas incapazes de trazer um mínimo alento. Sempre sigo adiante.
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Pois depois de um ano, redondinho, abandonei a Associação dos Magistrados Catarinenses, meu primeiro trabalho de carteira assinada pós-academia. Antes eu era doutoranda, pesquisadora, obcecada, professora, atrapalhada e quase nada de jornalista. Quando sentei naquela mesinha pela primeira vez, sabia que não ultrapassaria o limite de um ano, no máximo. Um ano permaneci - claro que a ilusão de "cumprir metas", outro vício de infância, ajuda a revestir as mudanças de certa permanência. A partir desta semana, sou editora-chefe de uma revista teen, a Its, mensal e com tiragem de 40 mil exemplares. Nada poderia parecer mais aconchegante neste momento. Mais bacana ainda foi ter sido indicada por alguém que sempre admirei, pelos textos bem escritos e pelas escolhas nada óbvias.
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Vida que segue.
sábado, 18 de abril de 2009
O Signo da Cidade - Parte 2
O enredo é aparentemente banal: uma astróloga discute na rádio os problemas dos ouvintes, palpitando com a ajuda das constelações do firmamento. A idéia é quase simplória: apresentar a diversidade, de sujeitos, de desejos, de sofrimentos, reunida numa metrópole como São Paulo. Outros dados corroboram o pessimismo preventivo: Carlos Alberto Riccelli (lembram do boto?) na direção, o rebento do casal Lombardi-Ricceli num dos papéis principais, e o bufão Juca de Oliveira conduzindo um enredo cravado de situações limites. O resultado, porém, é tão transformador que me fez esperar esta estranha e definitiva semana correr para escrever.
Tentei descobrir por que mexeu tanto comigo, lutei para absorver a frase abaixo, e devo ter absorvido apenas um punhado do belo significado, me empenhei em reconhecer os cantos mais escondidos do talento notório da escrita de Bruna Lombardi, a roteirista da história. Só hoje me arrisco a definir a complexidade tão bonita do filme: O Signo da Cidade é sobre perda, sobre solidão, sobre experiência, sobre vida. Como se não bastasse, ainda conta com uma profundidade plena de sutilezas, tão difícil de encontrar no cinema brasileiro contemporâneo - salvo raríssimas exceções, como O Céu de Suely.
Descontados a beleza da Bruna Lombardi, o roteiro bem estruturado, as personagens interessantes e diferentes, a direção impecável e a trilha suave, triste e distante como um enterro na infância, escancara aquela força, impressionante e espontânea, típica dos sentimentos mais legítimos. Apresenta uma gente dilacerada, perdida entre opções incapazes de aconchegar. Sugere as saídas, aponta alternativas, reconhece a grandeza das falhas e a beleza dos desfechos mais infelizes. Insinua os abandonos obrigatórios, quando não se pode seguir adiante. Enquadra o sofrimento, mas jamais cai no pieguismo. Com maturidade e complacência, aborda a solidão, não a dos carentes mas aquela que nunca cura. Consegue desvinculá-la de uma idéia de tormento, e aproximá-la da ordem da condição. A solidão da condição humana.
Às vezes, é até capaz de suspendê-la, com vagas sugestões que falhariam em mãos menos sensíveis. Em determinada cena, por exemplo, o moribundo tarado, pai da protagonista, implora para não morrer sem assistir à nudez de uma mulher, qualquer mulher, apenas mais uma vez. Uma enfermeira aceita despir-se para ele, num longuíssimo take que alterna a expressão alegre dele com o corpo mole e gordo dela. Sorriem os dois. Dífícil, muito difícil. E corajoso.
Baita filme: duro, doce, triste. Como a vida de qualquer um.
Tentei descobrir por que mexeu tanto comigo, lutei para absorver a frase abaixo, e devo ter absorvido apenas um punhado do belo significado, me empenhei em reconhecer os cantos mais escondidos do talento notório da escrita de Bruna Lombardi, a roteirista da história. Só hoje me arrisco a definir a complexidade tão bonita do filme: O Signo da Cidade é sobre perda, sobre solidão, sobre experiência, sobre vida. Como se não bastasse, ainda conta com uma profundidade plena de sutilezas, tão difícil de encontrar no cinema brasileiro contemporâneo - salvo raríssimas exceções, como O Céu de Suely.
Descontados a beleza da Bruna Lombardi, o roteiro bem estruturado, as personagens interessantes e diferentes, a direção impecável e a trilha suave, triste e distante como um enterro na infância, escancara aquela força, impressionante e espontânea, típica dos sentimentos mais legítimos. Apresenta uma gente dilacerada, perdida entre opções incapazes de aconchegar. Sugere as saídas, aponta alternativas, reconhece a grandeza das falhas e a beleza dos desfechos mais infelizes. Insinua os abandonos obrigatórios, quando não se pode seguir adiante. Enquadra o sofrimento, mas jamais cai no pieguismo. Com maturidade e complacência, aborda a solidão, não a dos carentes mas aquela que nunca cura. Consegue desvinculá-la de uma idéia de tormento, e aproximá-la da ordem da condição. A solidão da condição humana.
Às vezes, é até capaz de suspendê-la, com vagas sugestões que falhariam em mãos menos sensíveis. Em determinada cena, por exemplo, o moribundo tarado, pai da protagonista, implora para não morrer sem assistir à nudez de uma mulher, qualquer mulher, apenas mais uma vez. Uma enfermeira aceita despir-se para ele, num longuíssimo take que alterna a expressão alegre dele com o corpo mole e gordo dela. Sorriem os dois. Dífícil, muito difícil. E corajoso.
Baita filme: duro, doce, triste. Como a vida de qualquer um.
domingo, 12 de abril de 2009
sexta-feira, 10 de abril de 2009
Sobre limites e limiares
Durante toda minha pós-graduação, tomei contato com uma infinidade de teóricos, pesquisadores e pensadores que conhecia apenas de orelhada. Me encantei com filosofia, virei leitora obsessiva de Nietzsche, decidi me biografar como Roland Barthes, reli quase todo o Freud. Uma das minhas maiores surpresas, porém, aconteceu com as leituras de George Bataille, pensador francês ainda inédito na minha experiência, especializado em temas espinhosos: limites, paixão, intensidade, violência. Sua obra O Erotismo foi como um conselho cúmplice sussurrado ao ouvido: diz muito sobre mim, sobre os meus, sobre o mundo. Abaixo, trechinho.
Não temos sempre a força necessária para desejá-lo, nossos recursos esgotam-se, e às vezes o desejo é impotente. Se o perigo se torna muito pesado, se a morte é inevitável, em princípio o desejo é inibido. Mas se tivermos sorte, o objeto que tanto desejamos é mais suscetível de levar-nos a gastos desenfreados e arriscar-nos. Os diversos indivíduos suportam desigualmente grandes perdas de energia ou de dinheiro - ou graves ameaças de morte. Na medida em que podem fazê-lo (é uma questão quantitativa de força), os homens procuram as maiores perdas e os maiores perigos. É mais fácil acreditar no contrário, porque eles com freqüência têm pouca força. Quando conseguem tê-la, querem logo gastá-la e expor-se ao perigo. Aquele que tem a força e os meios se lança em gastos contínuos e expõe-se incessantemente ao perigo.
Não temos sempre a força necessária para desejá-lo, nossos recursos esgotam-se, e às vezes o desejo é impotente. Se o perigo se torna muito pesado, se a morte é inevitável, em princípio o desejo é inibido. Mas se tivermos sorte, o objeto que tanto desejamos é mais suscetível de levar-nos a gastos desenfreados e arriscar-nos. Os diversos indivíduos suportam desigualmente grandes perdas de energia ou de dinheiro - ou graves ameaças de morte. Na medida em que podem fazê-lo (é uma questão quantitativa de força), os homens procuram as maiores perdas e os maiores perigos. É mais fácil acreditar no contrário, porque eles com freqüência têm pouca força. Quando conseguem tê-la, querem logo gastá-la e expor-se ao perigo. Aquele que tem a força e os meios se lança em gastos contínuos e expõe-se incessantemente ao perigo.
(do livro O erotismo, de George Bataille, esgotado)
terça-feira, 7 de abril de 2009
Experiência Zero
Durante toda a faculdade, alimentei algumas convicções sobre a minha profissão. A principal delas é que só abraçaria o ofício à moda antiga. De fato, todas as minhas inclinações tendiam ao jornalismo de ontem: textos longos, paixão por diagramação, desconfiança da Internet, absoluto fascínio pelo papel. Nunca cogitei televisão, jamais sonhei com assessoria, desconhecia por completo o universo do rádio - e sigo assim até hoje. Eu só não sabia ainda dos perfis.
Descobri minha verdadeira paixão jornalística por acaso, enquanto trabalhava no projeto editorial de uma revista que, infelizmente, definhou sem conhecer a luz. EOQE era o nome, e tinha um projeto gráfico respeitável. Eu coordenava os textos, e escrevia sobre o tema que bem entendesse, qualquer um MESMO, contanto que não fosse muito extenso, já que o formato era pocket. Optei pela parte das entrevistas - ping-pong ou texto corrido, tanto fazia.
Alguns dias depois, fui conversar com o Alejandro Ahmed, que acumulava prêmios pela última coreografia do Cena 11, sem nenhuma pretensão de homenagear Talese. Mas quando sentei na frente do computador, após uma conversa divertida de mais de duas horas, descobri que aquela coisa de que eu gostava tanto, e tentava a todo custo arrancar de dentro de mim, mesmo após os encontros mais desinteressantes, chamava-se perfil literário. Ali, decidi que assim seria. E assim será.* Abaixo, o resultado da minha mais legítima epifania profissional.
* O que fazer com essa descoberta rende um post à parte...
A freqüência com que Sphex deixa sua casa para trabalhar vem aumentando muito nos últimos meses. Do pequeno prédio de inspiração modernista debruçado sobre a orla de Coqueiros, parte sempre à noite com a mochila carregada de equipamentos: mixer, fones de ouvido, toca-discos, cabos, cases e set lists de canções novinhas em folha. Suas especialidades, o minimal tecno e o minimal electro, embalam as madrugadas modernas de gente que insiste em amadurecer o underground mesmo numa ilha famosa pelo boi-de-mamão e o pirão d’água. DJ dos mais conhecidos em Santa Catarina, Sphex ainda arranjou outro jeito de arrancar o sono de seu público: “Será que algum dia ele deixa de dançar?”, perguntam-se uns e outros, entre drinques e barulhinhos.
.................................................
Sphex nem sempre foi o codinome de Alejandro. Há algum tempo, coisa de cinco anos, ele era apenas Alejandro Ahmed, bailarino na infância, coreógrafo desde a juventude, diretor artístico da companhia Cena 11 há 15 anos, famoso freqüentador de baladas alternativas em seus (raros) momentos longe da rotina da dança. Um cara que pisou o palco pela primeira vez aos treze anos, e desde então acumula prêmios sem precisar de nenhum malabarismo: os dois últimos foram no fim do ano passado, o Bravo! Prime de Cultura, por melhor espetáculo, e o Sérgio Motta Arte e Tecnologia, ambos para Pequenas frestas de ficção sobre realidade insistente. No palco, já é autor de grandes feitos: elaborou coreografias premiadas, ouviu elogios rasgados, conheceu críticas negativas, dançou com alguns de seus ídolos, polemizou com a própria nudez. Em quinze anos de trabalho, um norte prevaleceu, a “procura de honestidade”. Vem deste lema o seu maior orgulho: “a maneira como a companhia se organizou, sem concessão artística de qualquer espécie, e com certo grau de estabilidade”.
...................................................
Estabilidade, para Alejandro, é manter o mesmo objetivo, a honestidade, num percurso contínuo. Rima com equilíbrio, não com eternidade. Autor de oito espetáculos para o grupo, diretor de onze bailarinos, “chefe” de dezoito funcionários, parar de dançar já parece algo natural. Não pela barreira do corpo, já que o grupo prioriza técnicas menos espartanas, mas pelo próprio processo da maturidade: “vai chegar uma hora em que vou desejar usar a informação para outra coisa”. Seu futuro, acredita, é se tornar unicamente coreógrafo, arranjando e desconstruindo passos alheios. Enquanto não deixa a cena do palco, pesquisa e estuda e discursa sobre seus pontos favoritos em dança: o trato com o corpo, a espetacularização das coisas, as possibilidades de construção de um espetáculo de forma honesta. A compreensão dessas questões parece atender a um desejo mais que profissional em Alejandro: para ele, “a arte é uma estratégia de sobrevivência da espécie humana para compreender melhor a realidade”. Sem ela, sobraria apenas desespero.
................................................
Uma das maiores lições de vida, ele recebeu no fim de 2005. A bailarina do Cena 11 Gica Alioto morreu de câncer aos trinta e dois anos de idade. A tristeza pelo imprevisto colocou-o diante de uma antiga pergunta, a dúvida que todos manejam nos momentos escuros: “O que eu faço enquanto estou vivo?”. Se a suposta resposta parece fácil, dança, a resposta que vem é menos profissional e mais aberta. Alguns fatos da vida afastaram Alejandro do espírito workaholic. Seu prazer é o prazer do cotidiano, das coisas miúdas e simples, de buscas outras e variadas. Dorme tarde, e pouco, aprecia doces e carne vermelha, sonha com um boteco próprio, gosta de comprar roupas e sapatos, prefere açúcar a adoçante, teme doenças e falta de grana, baixa música na Internet, detesta uva passa e beterraba, reza de vez em quando, fuma um cigarrinho e outro – embora tenha parado, com certo custo, há três verões, depois de treze anos de hábito. Não conta piada, mas relaxa fácil, garante. Bastam uns drinques e uma noitada agradável entre amigos. Mesmo encontrando razões para a vida fora do universo do palco, quase todos os seus amigos, coisa de “90%”, dialogam com suas duas paixões profissionais: ou são músicos ou são bailarinas. Por isso, garante, “tá sempre ligado”.
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Não vive sem café, sexo e álcool, principalmente se do lado de lá do balcão vier uma boa tequila. Política também lhe parece assunto sério, conceito em que consegue encaixar ele mesmo e o grupo: “não tem como não acreditar, a gente está inserido nela”. Já é cada vez mais possível viver de dança no Brasil, quase uma realidade, ainda que faltem uns tantos contornos até a construção de algo além da utopia. Familiarizado com as leis de incentivo, e patrocínios de toda ordem, assinala que “ainda não foi criada uma política cultural séria no país, o que não exclui grupos e bailarinos deste processo”. Suas referências em dança quase sempre rompem a barreira estética para se misturar à ética. Não à toa, perceber precariedades e definir o que dota ou não o homem de poder são algumas das buscas mais insistentes do bailarino, assaltando seus pensamentos até mesmo quando está diante daquelas três paixões inapeláveis.
..................................................
Alejandro implica com a própria mania de querer sempre todas as coisas, ao mesmo tempo: músicas, roupas, livros, equipamentos, referências, paisagens. Atualmente, tenta administrar seu tempo com três atividades principais: dança, que treina e ensaia seis horas por dia; pesquisas sobre corpo e movimento, que fundamentam suas coreografias e seu olhar exclusivo sobre a arte; e música, quase toda buscada na Internet. A ânsia, porém, só acentua sua “tensão sob controle”, estado de espírito do momento: entre um e outro intervalo, lê poesia, sobretudo a de Augusto dos Anjos e Arnaldo Antunes, curte quadrinhos, seu herói é Wolverine, e ainda incursiona pelo universo dos videogames, passatempo antigo que influenciou Violência, espetáculo da companhia em 2004.
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O problema começa a se delimitar quando a vocação para o abraço irrestrito alcança seus relacionamentos pessoais, sobretudo seus namoros. Parece difícil encontrar alguém disposto a avaliar antigos paradigmas: “todo formato precisa ser pensado do lado de dentro, e é uma pena que a maioria das nossas coisas tenha que se encaixar em padrões já existentes”. Ainda assim, o currículo sugere certa inclinação aos namoros longos, quase sempre com bailarinas. Embora a curiosidade torne a fidelidade uma busca difícil, a definição de uma boa união ainda conserva ecos românticos, como seu ideal de felicidade, que pede sobretudo paz e amor. Se as normas antigas já soam gastas, ainda é possível acreditar “num relacionamento que expanda a capacidade dos dois de viver bem no mundo”. Quem aceitar a causa, com a mesma energia com que Alejandro costuma agarrar tudo, tem vaga já num outro projeto, tão urgente quanto seus desejos imediatos: um filho, e no máximo em quatro anos.
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Há algum tempo está solteiro de novo. No apartamento modernista, construído em 1963 para ser um hotel, vivem apenas ele e a cachorra, Nina, outro exemplo de sua busca constante pela totalidade. Integrante do espetáculo Skinner Box, encenado pela companhia em 2005, a cachorrinha adestrada era apenas mais um participante temporário do Cena 11. Às suspeitas de estresse e maus tratos do antigo dono, Alejandro respondeu com impulso, levando-a para dividir com ele sua vista da praia da Saudade. Agora, tenta administrar as conseqüências: com quem deixá-la quando viaja?
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Morando sozinho desde o estabelecimento profissional da companhia, Alejandro não se mostra muito à vontade com os afazeres domésticos. Quase nunca cozinha e detesta lavar a louça, muitas vezes acumulada alguns dias sobre a pia. O que menos suporta, porém, é arrumar a mala, justamente uma das atividades mais corriqueiras de sua vida entre turnês e estréias. Quando vai a Berlim, cidade em que gostaria de viver caso precisasse abandonar o país, e onde já esteve quatro vezes, a primeira a convite de uma famosa companhia local, passa horas lutando para encaixar as peças fundamentais que se amontoam: parece-lhe impossível a receita dos práticos, para quem bastam três camisas, duas calças e um sapato. Alejandro teima em querer tudo ao mesmo tempo, e tudo ao mesmo tempo geralmente não cabe em nenhuma mala.
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Parte da dificuldade com a mala provém de sua paixão pela moda, em especial a alternativa e de bom design. Quem já o viu nas ruas sabe que a aparência parece ser uma de suas coreografias mais criativas. O cabelo já foi comprido, raspado e curto, pintado com quase uma dezena de cores: azul, verde, descolorido, laranja, vermelho, cinza... Juntamente com música, sobretudo vinil, roupa é o item que mais compra. Para sentir-se bem com o que veste, preocupa-se, sim, com o corpo, mas sem a neurose típica dos bailarinos e das modelos. Evita bebidas fermentadas, mas não as noitadas. Dorme seis horas em dias de semana, mas apenas quatro quando enfrenta a madrugada. Foge do cigarro, mas se está saindo com alguma garota que fuma, quem sabe? Para contrabalançar, pratica musculação, em média três vezes por semana, e dança, dança muito, dança sempre.
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Não é só a juventude dos seus trinta e seis anos que confirma o modo como Alejandro leva a vida. Suas nove tatuagens também gritam algumas verdades. Da primeira, uma pequena rosa negra nas costas, até a mais recente, variados estilos convivem numa harmonia paradoxal típica do bailarino: beleza e agressão, filosofia e cotidiano, elegância com rasgos. Há três anos, mais ou menos, uma frase certeira passou a ocupar seu braço esquerdo recordando no dia-a-dia a promessa de libertação de toda arte de respeito, seja a do Sphex, seja a de Alejandro: “Ainda há caos dentro de vós”. Ainda, não, para sempre.
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Descobri minha verdadeira paixão jornalística por acaso, enquanto trabalhava no projeto editorial de uma revista que, infelizmente, definhou sem conhecer a luz. EOQE era o nome, e tinha um projeto gráfico respeitável. Eu coordenava os textos, e escrevia sobre o tema que bem entendesse, qualquer um MESMO, contanto que não fosse muito extenso, já que o formato era pocket. Optei pela parte das entrevistas - ping-pong ou texto corrido, tanto fazia.
Alguns dias depois, fui conversar com o Alejandro Ahmed, que acumulava prêmios pela última coreografia do Cena 11, sem nenhuma pretensão de homenagear Talese. Mas quando sentei na frente do computador, após uma conversa divertida de mais de duas horas, descobri que aquela coisa de que eu gostava tanto, e tentava a todo custo arrancar de dentro de mim, mesmo após os encontros mais desinteressantes, chamava-se perfil literário. Ali, decidi que assim seria. E assim será.* Abaixo, o resultado da minha mais legítima epifania profissional.
* O que fazer com essa descoberta rende um post à parte...
Onze atos
A freqüência com que Sphex deixa sua casa para trabalhar vem aumentando muito nos últimos meses. Do pequeno prédio de inspiração modernista debruçado sobre a orla de Coqueiros, parte sempre à noite com a mochila carregada de equipamentos: mixer, fones de ouvido, toca-discos, cabos, cases e set lists de canções novinhas em folha. Suas especialidades, o minimal tecno e o minimal electro, embalam as madrugadas modernas de gente que insiste em amadurecer o underground mesmo numa ilha famosa pelo boi-de-mamão e o pirão d’água. DJ dos mais conhecidos em Santa Catarina, Sphex ainda arranjou outro jeito de arrancar o sono de seu público: “Será que algum dia ele deixa de dançar?”, perguntam-se uns e outros, entre drinques e barulhinhos.
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Sphex nem sempre foi o codinome de Alejandro. Há algum tempo, coisa de cinco anos, ele era apenas Alejandro Ahmed, bailarino na infância, coreógrafo desde a juventude, diretor artístico da companhia Cena 11 há 15 anos, famoso freqüentador de baladas alternativas em seus (raros) momentos longe da rotina da dança. Um cara que pisou o palco pela primeira vez aos treze anos, e desde então acumula prêmios sem precisar de nenhum malabarismo: os dois últimos foram no fim do ano passado, o Bravo! Prime de Cultura, por melhor espetáculo, e o Sérgio Motta Arte e Tecnologia, ambos para Pequenas frestas de ficção sobre realidade insistente. No palco, já é autor de grandes feitos: elaborou coreografias premiadas, ouviu elogios rasgados, conheceu críticas negativas, dançou com alguns de seus ídolos, polemizou com a própria nudez. Em quinze anos de trabalho, um norte prevaleceu, a “procura de honestidade”. Vem deste lema o seu maior orgulho: “a maneira como a companhia se organizou, sem concessão artística de qualquer espécie, e com certo grau de estabilidade”.
...................................................
Estabilidade, para Alejandro, é manter o mesmo objetivo, a honestidade, num percurso contínuo. Rima com equilíbrio, não com eternidade. Autor de oito espetáculos para o grupo, diretor de onze bailarinos, “chefe” de dezoito funcionários, parar de dançar já parece algo natural. Não pela barreira do corpo, já que o grupo prioriza técnicas menos espartanas, mas pelo próprio processo da maturidade: “vai chegar uma hora em que vou desejar usar a informação para outra coisa”. Seu futuro, acredita, é se tornar unicamente coreógrafo, arranjando e desconstruindo passos alheios. Enquanto não deixa a cena do palco, pesquisa e estuda e discursa sobre seus pontos favoritos em dança: o trato com o corpo, a espetacularização das coisas, as possibilidades de construção de um espetáculo de forma honesta. A compreensão dessas questões parece atender a um desejo mais que profissional em Alejandro: para ele, “a arte é uma estratégia de sobrevivência da espécie humana para compreender melhor a realidade”. Sem ela, sobraria apenas desespero.
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Uma das maiores lições de vida, ele recebeu no fim de 2005. A bailarina do Cena 11 Gica Alioto morreu de câncer aos trinta e dois anos de idade. A tristeza pelo imprevisto colocou-o diante de uma antiga pergunta, a dúvida que todos manejam nos momentos escuros: “O que eu faço enquanto estou vivo?”. Se a suposta resposta parece fácil, dança, a resposta que vem é menos profissional e mais aberta. Alguns fatos da vida afastaram Alejandro do espírito workaholic. Seu prazer é o prazer do cotidiano, das coisas miúdas e simples, de buscas outras e variadas. Dorme tarde, e pouco, aprecia doces e carne vermelha, sonha com um boteco próprio, gosta de comprar roupas e sapatos, prefere açúcar a adoçante, teme doenças e falta de grana, baixa música na Internet, detesta uva passa e beterraba, reza de vez em quando, fuma um cigarrinho e outro – embora tenha parado, com certo custo, há três verões, depois de treze anos de hábito. Não conta piada, mas relaxa fácil, garante. Bastam uns drinques e uma noitada agradável entre amigos. Mesmo encontrando razões para a vida fora do universo do palco, quase todos os seus amigos, coisa de “90%”, dialogam com suas duas paixões profissionais: ou são músicos ou são bailarinas. Por isso, garante, “tá sempre ligado”.
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Não vive sem café, sexo e álcool, principalmente se do lado de lá do balcão vier uma boa tequila. Política também lhe parece assunto sério, conceito em que consegue encaixar ele mesmo e o grupo: “não tem como não acreditar, a gente está inserido nela”. Já é cada vez mais possível viver de dança no Brasil, quase uma realidade, ainda que faltem uns tantos contornos até a construção de algo além da utopia. Familiarizado com as leis de incentivo, e patrocínios de toda ordem, assinala que “ainda não foi criada uma política cultural séria no país, o que não exclui grupos e bailarinos deste processo”. Suas referências em dança quase sempre rompem a barreira estética para se misturar à ética. Não à toa, perceber precariedades e definir o que dota ou não o homem de poder são algumas das buscas mais insistentes do bailarino, assaltando seus pensamentos até mesmo quando está diante daquelas três paixões inapeláveis.
..................................................
Alejandro implica com a própria mania de querer sempre todas as coisas, ao mesmo tempo: músicas, roupas, livros, equipamentos, referências, paisagens. Atualmente, tenta administrar seu tempo com três atividades principais: dança, que treina e ensaia seis horas por dia; pesquisas sobre corpo e movimento, que fundamentam suas coreografias e seu olhar exclusivo sobre a arte; e música, quase toda buscada na Internet. A ânsia, porém, só acentua sua “tensão sob controle”, estado de espírito do momento: entre um e outro intervalo, lê poesia, sobretudo a de Augusto dos Anjos e Arnaldo Antunes, curte quadrinhos, seu herói é Wolverine, e ainda incursiona pelo universo dos videogames, passatempo antigo que influenciou Violência, espetáculo da companhia em 2004.
...........................................
O problema começa a se delimitar quando a vocação para o abraço irrestrito alcança seus relacionamentos pessoais, sobretudo seus namoros. Parece difícil encontrar alguém disposto a avaliar antigos paradigmas: “todo formato precisa ser pensado do lado de dentro, e é uma pena que a maioria das nossas coisas tenha que se encaixar em padrões já existentes”. Ainda assim, o currículo sugere certa inclinação aos namoros longos, quase sempre com bailarinas. Embora a curiosidade torne a fidelidade uma busca difícil, a definição de uma boa união ainda conserva ecos românticos, como seu ideal de felicidade, que pede sobretudo paz e amor. Se as normas antigas já soam gastas, ainda é possível acreditar “num relacionamento que expanda a capacidade dos dois de viver bem no mundo”. Quem aceitar a causa, com a mesma energia com que Alejandro costuma agarrar tudo, tem vaga já num outro projeto, tão urgente quanto seus desejos imediatos: um filho, e no máximo em quatro anos.
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Há algum tempo está solteiro de novo. No apartamento modernista, construído em 1963 para ser um hotel, vivem apenas ele e a cachorra, Nina, outro exemplo de sua busca constante pela totalidade. Integrante do espetáculo Skinner Box, encenado pela companhia em 2005, a cachorrinha adestrada era apenas mais um participante temporário do Cena 11. Às suspeitas de estresse e maus tratos do antigo dono, Alejandro respondeu com impulso, levando-a para dividir com ele sua vista da praia da Saudade. Agora, tenta administrar as conseqüências: com quem deixá-la quando viaja?
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Morando sozinho desde o estabelecimento profissional da companhia, Alejandro não se mostra muito à vontade com os afazeres domésticos. Quase nunca cozinha e detesta lavar a louça, muitas vezes acumulada alguns dias sobre a pia. O que menos suporta, porém, é arrumar a mala, justamente uma das atividades mais corriqueiras de sua vida entre turnês e estréias. Quando vai a Berlim, cidade em que gostaria de viver caso precisasse abandonar o país, e onde já esteve quatro vezes, a primeira a convite de uma famosa companhia local, passa horas lutando para encaixar as peças fundamentais que se amontoam: parece-lhe impossível a receita dos práticos, para quem bastam três camisas, duas calças e um sapato. Alejandro teima em querer tudo ao mesmo tempo, e tudo ao mesmo tempo geralmente não cabe em nenhuma mala.
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Parte da dificuldade com a mala provém de sua paixão pela moda, em especial a alternativa e de bom design. Quem já o viu nas ruas sabe que a aparência parece ser uma de suas coreografias mais criativas. O cabelo já foi comprido, raspado e curto, pintado com quase uma dezena de cores: azul, verde, descolorido, laranja, vermelho, cinza... Juntamente com música, sobretudo vinil, roupa é o item que mais compra. Para sentir-se bem com o que veste, preocupa-se, sim, com o corpo, mas sem a neurose típica dos bailarinos e das modelos. Evita bebidas fermentadas, mas não as noitadas. Dorme seis horas em dias de semana, mas apenas quatro quando enfrenta a madrugada. Foge do cigarro, mas se está saindo com alguma garota que fuma, quem sabe? Para contrabalançar, pratica musculação, em média três vezes por semana, e dança, dança muito, dança sempre.
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Não é só a juventude dos seus trinta e seis anos que confirma o modo como Alejandro leva a vida. Suas nove tatuagens também gritam algumas verdades. Da primeira, uma pequena rosa negra nas costas, até a mais recente, variados estilos convivem numa harmonia paradoxal típica do bailarino: beleza e agressão, filosofia e cotidiano, elegância com rasgos. Há três anos, mais ou menos, uma frase certeira passou a ocupar seu braço esquerdo recordando no dia-a-dia a promessa de libertação de toda arte de respeito, seja a do Sphex, seja a de Alejandro: “Ainda há caos dentro de vós”. Ainda, não, para sempre.
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domingo, 5 de abril de 2009
Nelson Rodrigues, o retorno.
Este mês completa um ano da minha defesa de doutorado no curso de Teoria Literária. Dito de outra forma, faz 365 dias que me RECUSO a destrinchar qualquer texto de Nelson Rodrigues, o jornalista, dramaturgo, ficcionista e polemista que me acompanhou de 2003 a 2008, lido, relido e trelido durante toda a minha aventura acadêmica. Antes disso, já tinha protagonizado também o meu TCC, no Jornalismo da UFSC, um site de 500 páginas humildemente chamado Tudo sobre Nelson Rodrigues, e supervisionado pelo meu querido Clóvis Geyer. Só agora, depois de depositar o intempestivo trabalho de 500 páginas (também) nas prateleiras acadêmicas necessárias é que resolvi voltar a falar no assunto. Para comemorar o fim do período sabático, levei para a cabeceira A menina sem estrela, crônicas autobiográficas do autor, compilação dos seus melhores textos - na minha modesta (e obstinada) opinião. Como muita gente me pergunta o objetivo da pesquisa, como se eu mesma fosse capaz de defini-lo, encaminho agora o texto de apresentação à banca, em 24 de abril de 2008. Já aviso de antemão que não há nada de jornalismo no projeto: Nelson Rodrigues e sua cena - dramaturgia da dupla tensão, cinema da síntese é uma pesquisa teórica embasada em análises estéticas do teatro do autor, e suas posteriores adaptações para o cinema. Ainda assim, como todo bom jornalista adora Nelson Rodrigues, e só tenho amigos bons jornalistas, achei que talvez pudesse interessar. O texto inteiro da apresentação segue em pdf., lá embaixo.
OBS: Um dos capítulos, acabei de saber, será publicado em breve, no livro Para uma história cultural do teatro, organizado pelo crítico Edélcio Mostaço, professor de poética e dramaturgia na Udesc.
Afinal, onde está Nelson Rodrigues?
Provavelmente todos nesta sala já ouviram falar de Nelson Rodrigues. Contista, jornalista, cronista, romancista, dramaturgo e polemista, Nelson Rodrigues vem protagonizando parcela significativa da história brasileira desde a década de 40. A primeira impressão é ululante: somos todos seus íntimos. Permanecem até hoje suas frases cortantes, seu desprezo à esquerda, seu pioneirismo em Vestido de Noiva, sua coluna A vida como ela é..., suas máximas repetidas à exaustão: “a massa só serve para parir o gênio; depois que o pari, volta a babar na gravata”. Permanecem, sobretudo, suas adaptações, versões audiovisuais capazes de render uma nova película a cada ano. Provavelmente também todos nesta sala foram apresentados à sua obra através das telas de cinema, produtor de mais de vinte versões, ou das adaptações da TV Globo, com as séries A vida como ela é... e Engraçadinha. Diante deste quadro, a questão é: até que ponto as versões audiovisuais nos ajudaram a conhecer de fato Nelson Rodrigues?
Um dos maiores intérpretes do Brasil, sobretudo em suas tensões e seus desvios, Nelson Rodrigues parece ter dedicado seu olhar mais apurado à elaboração de seu teatro. Composto de 17 peças, iniciou em 1941, com A mulher sem pecado, e foi concluído em 80, com A serpente. Não houve tempo para seu projeto maior: uma autobiografia em nove atos. Concomitantemente às suas outras incursões ficcionais, e até mesmo jornalísticas, já que cobria editorias de polícia e esporte, as peças iam sendo criadas, lançadas, censuradas, amadas, discutidas, xingadas, mitificadas. Sempre polêmicas, como o autor. A dramaturgia de Nelson Rodrigues, porém, atualmente é pouco conhecida fora do círculo acadêmico – ao contrário do que acontece com suas crônicas do cotidiano, seu contos concisos, suas frases bombásticas, suas personagens já cristalizadas no imaginário nacional. Seu teatro costuma alcançar o público sobretudo através das típicas formas de arte do contemporâneo: o cinema e a televisão. E conhecer o dramaturgo Nelson Rodrigues através das versões cinematográficas de seu teatro, já podemos afirmar, quase sempre nos distancia ainda mais de sua poética.
Nelson Rodrigues e sua cena: dramaturgia da dupla tensão, cinema da síntese parte da tentativa de explicar um fracasso, o fracasso do cinema. Por que o cinema baseado em seu teatro quase nunca consegue dialogar de maneira efetiva com a autoria rodrigueana? Por que quanto mais se lê o seu teatro mais se descobre problemas estéticos e reduções simplistas nas adaptações? Por que quanto mais se conhece as suas peças menos se espera um novo lançamento? As respostas parecem explicar também as pechas, muitas contraditórias, tantas vezes incutidas em Nelson Rodrigues: tarado, pervertido, reacionário, moralista, imoral. Esta tese de doutorado, após pesquisa de cinco anos, iniciada ainda no mestrado, arrisca apontar algumas razões para o fracasso das adaptações cinematográficas, bem como busca explicar a cristalização de rótulos pouco esclarecedores das potências de sua autoria. Para explicar o fracasso do cinema, porém, partimos da tentativa de definir um sucesso, o sucesso do teatro rodrigueano.
Embora quase nunca realizada no cinema brasileiro, a autoria dramatúrgica de Nelson Rodrigues ultrapassa conceitos ao se pautar na renovação, insinuando posições demarcadas num para-além dos gêneros, do tempo e da própria história. No universo desta pesquisa, sua relevância histórica é pensada em relação à modernidade poética que implantou de modo pioneiro na dramaturgia brasileira, bem como à completude do processo de formação do teatro nacional. Nelson Rodrigues foi, e isto já parece consenso, o grande modernista do palco brasileiro. Após a análise das dezessete peças, a unidade do teatro do autor pôde ser definida aqui como a marca de uma dupla tensão, responsável por sua tensão estética e sua tensão temática. O movimento de dupla tensão, centro de seu teatro, parece fazer da ambigüidade e do acúmulo o seu norte.
Mais, aqui.
OBS: Um dos capítulos, acabei de saber, será publicado em breve, no livro Para uma história cultural do teatro, organizado pelo crítico Edélcio Mostaço, professor de poética e dramaturgia na Udesc.
Afinal, onde está Nelson Rodrigues?
Provavelmente todos nesta sala já ouviram falar de Nelson Rodrigues. Contista, jornalista, cronista, romancista, dramaturgo e polemista, Nelson Rodrigues vem protagonizando parcela significativa da história brasileira desde a década de 40. A primeira impressão é ululante: somos todos seus íntimos. Permanecem até hoje suas frases cortantes, seu desprezo à esquerda, seu pioneirismo em Vestido de Noiva, sua coluna A vida como ela é..., suas máximas repetidas à exaustão: “a massa só serve para parir o gênio; depois que o pari, volta a babar na gravata”. Permanecem, sobretudo, suas adaptações, versões audiovisuais capazes de render uma nova película a cada ano. Provavelmente também todos nesta sala foram apresentados à sua obra através das telas de cinema, produtor de mais de vinte versões, ou das adaptações da TV Globo, com as séries A vida como ela é... e Engraçadinha. Diante deste quadro, a questão é: até que ponto as versões audiovisuais nos ajudaram a conhecer de fato Nelson Rodrigues?
Um dos maiores intérpretes do Brasil, sobretudo em suas tensões e seus desvios, Nelson Rodrigues parece ter dedicado seu olhar mais apurado à elaboração de seu teatro. Composto de 17 peças, iniciou em 1941, com A mulher sem pecado, e foi concluído em 80, com A serpente. Não houve tempo para seu projeto maior: uma autobiografia em nove atos. Concomitantemente às suas outras incursões ficcionais, e até mesmo jornalísticas, já que cobria editorias de polícia e esporte, as peças iam sendo criadas, lançadas, censuradas, amadas, discutidas, xingadas, mitificadas. Sempre polêmicas, como o autor. A dramaturgia de Nelson Rodrigues, porém, atualmente é pouco conhecida fora do círculo acadêmico – ao contrário do que acontece com suas crônicas do cotidiano, seu contos concisos, suas frases bombásticas, suas personagens já cristalizadas no imaginário nacional. Seu teatro costuma alcançar o público sobretudo através das típicas formas de arte do contemporâneo: o cinema e a televisão. E conhecer o dramaturgo Nelson Rodrigues através das versões cinematográficas de seu teatro, já podemos afirmar, quase sempre nos distancia ainda mais de sua poética.
Nelson Rodrigues e sua cena: dramaturgia da dupla tensão, cinema da síntese parte da tentativa de explicar um fracasso, o fracasso do cinema. Por que o cinema baseado em seu teatro quase nunca consegue dialogar de maneira efetiva com a autoria rodrigueana? Por que quanto mais se lê o seu teatro mais se descobre problemas estéticos e reduções simplistas nas adaptações? Por que quanto mais se conhece as suas peças menos se espera um novo lançamento? As respostas parecem explicar também as pechas, muitas contraditórias, tantas vezes incutidas em Nelson Rodrigues: tarado, pervertido, reacionário, moralista, imoral. Esta tese de doutorado, após pesquisa de cinco anos, iniciada ainda no mestrado, arrisca apontar algumas razões para o fracasso das adaptações cinematográficas, bem como busca explicar a cristalização de rótulos pouco esclarecedores das potências de sua autoria. Para explicar o fracasso do cinema, porém, partimos da tentativa de definir um sucesso, o sucesso do teatro rodrigueano.
Embora quase nunca realizada no cinema brasileiro, a autoria dramatúrgica de Nelson Rodrigues ultrapassa conceitos ao se pautar na renovação, insinuando posições demarcadas num para-além dos gêneros, do tempo e da própria história. No universo desta pesquisa, sua relevância histórica é pensada em relação à modernidade poética que implantou de modo pioneiro na dramaturgia brasileira, bem como à completude do processo de formação do teatro nacional. Nelson Rodrigues foi, e isto já parece consenso, o grande modernista do palco brasileiro. Após a análise das dezessete peças, a unidade do teatro do autor pôde ser definida aqui como a marca de uma dupla tensão, responsável por sua tensão estética e sua tensão temática. O movimento de dupla tensão, centro de seu teatro, parece fazer da ambigüidade e do acúmulo o seu norte.
Mais, aqui.
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