sexta-feira, 3 de junho de 2011

a vitória do oxigênio

Tom compreendeu cada uma das palavras escorregadias, assim como aceitou com tranqüilidade as lágrimas presas em esconderijos pela casa. Alguns muitos tempos atrás, Nina o enxergara da profundidade à superfície e mesmo assim decidira permanecer; aquela era a hora, então, de retribuir a delicadeza com que ela tratara todos os dramas e ensaios até a súbita explosão da gota d'água, justamente onde as névoas se concentravam. Quando as lágrimas se tornaram maiores e mais volumosas, exibidas num excesso na cama, resistentes a soluços e fungadas, levantou a namorada com carinho e olhou-a com toda calma do mundo. Nunca a vira chorar, disse. Nunca a vira chorar embora tanto já tivesse visto na vida, e tantas coisas que motivariam o choro até mesmo dos mais nobres, mais capazes, mais corajosos, continuou. Os raros - sussurrou. Era verdade, ela pensou; diante do choque das lágrimas inéditas daquele jantar de quase noivado, ignorou sua própria incapacidade diante dele. Era saudade do pai, mentiu, lamentando em seguida: continuava se sentindo incapaz de dizer a verdade. Já começava a delimitar, no entanto, os contornos daquele fato imprevisto, desprezado por ambos em suas ansiedades: eles não eram mais os mesmos. E talvez algo ali já fosse irrecuperável.


(velhas letrinhas blá blá blá...)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Paraíso perdido *

Prestes a completar 90 anos, romance de estreia de Scott Fitzgerald reconstrói a esperança e o fracasso de uma geração desiludida


Amory Blane cresceu entre taças reluzentes e festas glamourosas. Seleciona amigos em confrarias restritas à alta roda, debate assuntos polêmicos com a arrogância incansável dos imaturos, esnoba escolas exclusivas e faculdades que formaram presidentes. Retrato de uma geração deslumbrada com as infinitas possibilidades de ascensão social, não perde a fé no sonho americano e, sobretudo, no próprio futuro.

Este Lado do Paraíso (Cosac Naify, 335 pgs., R$ 69), porém, não se limita (apenas) à elaboração de personagens desesperadas por desfrutar a vida até a última gota – de álcool e prazer. Oscilando entre a euforia e o desespero, refaz a curva trágica de madrugadas plenas de dissipação, típicas da era do jazz, que culminam, sempre, em manhãs violadas por ressacas grandiosas.

Repleto de expectativas borbulhantes, o jovem Amory acaba vítima dos próprios delírios de ascensão. O excesso de ofertas e autoconfiança torna-o incapaz de aprofundar e amadurecer qualquer experiência, minando o futuro glorioso. Seu fim é o destino de boa parte da geração que viveu aqueles tempos de fortuna e modernização: pobre e solitário, sem diploma, sem futuro e com o frigobar vazio.

Sucesso absoluto de crítica e público, Este Lado do Paraíso vendeu inacreditáveis 50 mil exemplares, definiu uma época, disseminou gírias e ainda transformou seu autor em pop star. Com os bolsos cheios de dólares, Fitzgerald conseguiu casar-se com uma excêntrica dama da alta sociedade, Zelda, alcançou as colunas sociais e conquistou a tão desejada elite norte-americana. Era o passaporte que faltava para encarnar, ele mesmo, a falência do sonho americano tão bem retratada em sua ficção – morreu aos 44 anos pobre e solitário, alcoólatra e esquecido, como suas tristes personagens.

Mais do que contar a história do menino que prometia conseguir se tornar tudo aquilo que almejasse, analogia da prosperidade da nação americana antes da quebra da Bolsa de Valores de 1929, Fitzgerald evoca a decadência de uma geração que acorda miserável do sonho dourado – sem dinheiro e sem valores. A transformação das infinitas promessas da “nação mais poderosa do mundo” em uma espécie de desespero que tudo congela não apenas inaugura a ficção do autor como permanece como elemento central de sua poética.

Se prosseguiu abordando o tema durante toda a sua trajetória ficcional, como em Belos e Malditos (1922) e Suave É a Noite (1934), desenvolvendo um estilo mais amadurecido, embora com o mesmo frescor, é em O Grande Gatsby (1925) que explora os desdobramentos mais cruéis da escalada social. Seu herói, Jay Gatsby, mergulha tão fundo na ilusão do sonho americano que chega a morrer por ela. No fim das contas, este parece ser um chamado legítimo entre os protagonistas do autor, porta-voz da “geração perdida” da literatura americana. Afinal, como repete Amory Blane, “não quero repetir minha inocência. Quero ter o prazer de voltar a perdê-la”.


As linhas da decadência

Estreia de Scott Fitzgerald no universo dos romances, Este lado do paraíso inaugura também um olhar exclusivo sobre a derrocada dos heróis da era do jazz, assinatura de sua poética. Os descaminhos da desilusão americana estão presentes em todos os romances do autor, retratados sempre com frescor e profundidade.

Belos e Malditos (1922) – Segunda obra, conta a vida cintilante e irresponsável de Anthony Patch, herdeiro milionário formado em Harvard, e sua bela e fútil Gloria. A narrativa amadurece muitos temas da estreia: ascensão social súbita, desperdícios em noitadas intermináveis, paraísos artificiais, bebedeiras infindáveis, sonhos despedaçados e muitas, incontáveis extravagâncias.

O Grande Gatsby (1925) – Considerado por muitos a obra-prima do autor, condensa na trajetória duvidosa de Jay Gatsby a grande curva trágica da geração perdida. De garoto pobre a contrabandeador da lei seca, o protagonista arma-se de dinheiro e mistério para reconquistar a hesitante Dayse, namorada de adolescência que lhe trocou pelo milionário Tom Buchanan.

Suave é a noite (1934) – Tristemente autobiográfico, narra a ascensão e derrocada do alcoólatra Dick Diver, espécie de prodígio maldito, que abandona a medicina por uma vida de dissipação ao lado da mulher Nicole Diver, louca e milionária – livremente inspirada em sua mulher Zelda Fitzgerald. O autor levou oito anos para conseguir concluir o romance, dividido entre a ficção e constantes rehabs para amenizar o alcoolismo.

O Último Magnata (1941) – Obra póstuma, alimentada pelas derradeiras experiências profissionais do autor, como roteirista de cinema. A história persegue a trajetória do produtor Monroe Stahr (baseado em Irving Thalberg, antigo chefe da MGM), focalizando a encantadora Hollywood da década de 30. Fitzgerald morreu subitamente, de ataque cardíaco, enquanto ainda trabalhava nos últimos capítulos. A obra foi finalizada pelo seu amigo e editor, Edmund Wilson.


(texto originalmente publicado no DC Cultura, 22/05/2011)

quinta-feira, 12 de maio de 2011

quase só medo

Olhou para a bela casa azulejada e não conteve o suspiro: alguns sentimentos jamais deveriam passar da esperança à realidade. Ainda havia uma dor miserável ali, impura e resistente, capaz de enferrujar as expectativas mais legítimas. O mesmo medo paralisante das outras duas tentativas, impróprias, rasgadas, inacabadas. Mas sempre lhes fora mais conveniente engrossar os escudos e bloquear as fechaduras. Evitar o futuro com corridas estapafúrdias, oferecer as mãos cheia de limo para escapar do coração. Assumir o palhaço trágico, transformando em blague experiências indizíveis, compartilhar a graça para não sufocar de nada, velhos senhores de trevas tão caprichosas. Olhou a bela casa azulejada e não conteve a coragem: tentaria de verdade aquela vez. E se estavam ali, remodelados como em sonhos distantes, é porque precisavam vestir aquelas plumas.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

c'est interdit penser à autre chose

Lado a lado, e com as taças já pela metade, tentaram retomar assuntos abandonados na noite anterior. Tom estava seguro, sem dúvida, mas em nenhum momento recorreu à violência enrustida com que conduzia com destreza as conversas de juventude. Mesmo mais suavizado, colorido agora nas tintas do sépia, constrangia com o oferecimento daquele vasto cardápio de confiança, exatamente como ela o violentara no último jantar, pela tranqüilidade com que atravessara cada dúvida no sofisticado restaurante. Nina, como ela própria já imaginava, não conseguia mais atordoá-lo com assertivas, muito menos extorquir as palavras certas com pulso firme e decidido; a noite passada fora demasiadamente promissora para que brincasse de exercitar valentias. Era como se tudo tivesse adquirido certa gravidade, mais uma carga de definitivo, e não gostaria de autorizar qualquer borrão às linhas daquela reescrita. Era difícil para ambos aceitar tamanha entrega, um diante do outro, driblando dores e humilhações, camuflando em palavras bem escolhidas tudo o que não conseguiam iluminar, brincando de voltar ao passado quando desejavam apenas revolver o futuro. Imaginavam-se, no entanto, cúmplices também naquilo, e isso tornava o sofrimento um pouco mais leve.

terça-feira, 10 de maio de 2011

permanências

Degustaram a sobremesa envolvidos num silêncio equilibrado entre a esperança e o sossego; como nos velhos tempos, bastavam-se, e compreendiam-se, e distraíam-se, apenas. Ao fim da refeição, sabiam ambos, a mais significativa das intimidades já fora resgatada, e nem todas as famílias, conversas e cidades, e nem todos os dias, luas e passados conseguiriam explicar a facilidade da restauração. Para Nina, Tom soava menos selvagem, menos seguro, muito mais delicado, e era bom encontrá-lo assim. Menos dramático; mais atencioso e verdadeiro. A Tom, Nina parecia mais madura, mais calma, muito menos convicta, novos contornos capazes de aproximá-los ainda mais, como testemunhas da vida um do outro, do que quiseram ser e não conseguiram, do que desejaram ter e não encontraram à venda, do que sonharam se transformar e enfim tiveram coragem para se tornar. Já não possuíam qualquer dúvida sobre o próximo encontro, seria o mais breve possível, como escancarou o convite: almoçariam juntos no dia seguinte? Claro, e Nina não conteve o sorriso largo, enquanto mastigava a última raspa de chocolate do doce. O excesso de “experiência concentrada” até a turma percebia, ele continuou, o que desejava saber, no entanto, talvez confirmasse a única sentença imune às tempestades do verão: alguém depois dele lhe jurara não morrer?

segunda-feira, 9 de maio de 2011

canções de outono

"Olhou bem para o pai, parado em sua frente, e reparou triste naquele perfil bonito que agora apenas insinuava o retrato de outrora. Viu-o cheio de falhas, na memória, na lógica, nos sentimentos, escondido por trás de um monte de títulos que afinal não serviram para muita coisa. Não podia mais obtê-los, já não podia sequer usufruir os já existentes. Tão inteligente e tão respeitado; tão incompreensível em sua doença inédita. Pensou pela primeira vez em desistir; a distância metafórica do pai lhe dizia que chegara longe demais com aquela visita forçada, e era realmente muito difícil caminhar por entre as curvas de uma loucura tão estranhamente lúcida como aquela. Sentia-se sem munição, a não ser aquelas que vêm do coração, e estas, geralmente, atingem sempre alvos interditados ou impróprios. Baixou a cabeça, deixando escorrer o lenço cor-de-rosa, e cobriu os olhos com a mão. Só conseguiu sair de si ao observá-lo devolvendo o lenço ao seu cabelo agora trançado, enquanto ouvia, baixinho em seu ouvido: então conseguira encontrar alguém à sua altura? Encarou-o, mais esperançosa do que nunca, e abraçou-se nele, deixando-se morrer ali, naquele instante. Teria dado um pedaço de seu talento, o mais especial, para escutar do pai qualquer resto de voz àquela tarde. Enlaçaram-se uma outra vez, e ela só aceitou deixar o quarto após ouvir numa segunda frase mal costurada que ele faria de tudo para melhorar o quanto antes. Ela precisava dele, afirmou, muito mais do que ele dela, pensou, sozinha. Antes de fechar a porta, devagarzinho, com cuidado, ainda observou o arrastar violento das cortinas, vedando novamente o quarto de qualquer contato externo".



(velhas letrinhas em correção)

sexta-feira, 8 de abril de 2011

dupla comemoração

Um dos meus romances de cabeceira completa 90 anos agora:

"Sabia que deus não existia em seu coração; suas ideias ainda eram tumultuadas; a dor estava sempre presente; a nostalgia da juventude perdida não o abandonava. Porém, as águas da desilusão haviam depositado um sedimento em sua alma, a responsabilidade e o amor pela vida, o ligeiro estímulo de antigas ambições e sonhos não realizados".
(Este lado do paraíso, de Scott Fitzgerald)


E um dos meus mais novos livros de cabeceira acaba de despontar na aldeia global. :o)