terça-feira, 23 de novembro de 2010

sobre os encontros definitivos.

"De repente, a longa fila, já pela metade, virou-se inteira para observar o imenso buquê de quase cinqüenta rosas vermelhas que forçou o caminho até a escritora, paralisando o autógrafo no meio da frase, justamente a dedicatória do exemplar do avô. Somente quando estava quase colado à mesa, encontrou abrigo para descansar as flores todas, revelando não apenas a identidade já imaginada como também um indiscreto corte na sobrancelha esquerda, escondido por uma gaze. Era o mesmo Tom de sempre, ela pensou, depois de passar delicadamente os dedos no supercílio namorado. Ouviu em sussurros que não devia se preocupar, batera com o carro em Brasília, e aquilo era só a reação do vidro, brincou. Não duvidou da veracidade da informação, e beijou o namorado com demora, mesmo reconhecendo nos olhares dos outros o velho misto de curiosidade e preocupação. Já haviam lhe contado do prêmio, disse, arrepiando-a com as palavras ao pé do ouvido; e era muito bom reconhecer a validade daquele tabefe, afinal. Nina, sorrindo, garantiu que não pediria desculpas; ele não merecia. Tom revidou que aquela, sim, era a sua menina; se pedisse perdão, perderia pontos valiosos. Beijaram-se mais uma vez, e ela até gostou de desafiar aqueles olhares. Juntaram-se num abraço de quase cinco minutos, presos num aninhamento consolador; ela logo observou ali que sua felicidade mais legítima crescia sempre envolta numa necessidade de chorar até se perder. Diante daquele cenário de excessos, diferenciou, pela primeira vez, o que era de verdade e o que era contingência; o que era costume e o que era amor; o que era felicidade e o que era apenas alegria. Quase se assustou: já não sabia viver sem Tom."

(romance de gaveta, na correção final)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Alegria, alegria.

Desde os 10 aninhos repito que jamais ultrapassaria os 30 sem um pós-doutorado nível máximo no currículo. Pois é.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O Esconderijo do Homem Triste*


Não sei o que me aconteceu para ficar tão triste.
Lembro-me de ter percorrido meio mundo à procura de imagens. Tinham-me dito: é no movimento incessante de quem viaja que encontrarás a imobilidade que desejas.
Mas eu não sabia para onde ir. Deambulei anos a fio, e nunca encontrei as imagens que queria. Gastei as parcas forças que tinha neste trabalho, até que um dia me perdi junto ao mar.
Resolvi construir, ali mesmo, uma casa.
Tencionava não sair mais daquele lugar onde me perdera. Imobilizar-me, viver e envelhecer dentro de quatro paredes nuas erguidas pelas minhas mãos. Morrer frente ao mar, sozinho, como num romance que lera havia anos. Esperar que a casa se esboroasse e me servisse, por fim, de túmulo.
Assim não aconteceu. Algum tempo depois, a casa transformou-se subitamente em prisão. E talvez tenha sido isso que me pôs, assim, triste para sempre. Custava-me a crer que aquilo que eu próprio construíra acabasse de me atraiçoar.
Assustei-me e fugi nessa mesma noite. Ignoro o que se passou com a casa.
Não sei se ainda existe... o que sei é que a meio daquela fuga deseperada ocorreu-me o que me levaria, enfim, a encontrar o esconderijo para a minha imobilidade.
É desse lugar iluminado que, hoje, vos falo.
Fui ter com um fotógrafo meu amigo e pedi-lhe para me retratar. Ele acendeu um foco de luz. Sentei-me no centro dele. A máquina disparou sem cessar.
Gesticulei, abri os braços, mexi-me muito - como se soubesse que nunca mais o voltaria a fazer.
Quando o meu amigo mergulhou o papel fotográfico no revelador, eu também mergulhei. Mas devo ter desmaiado uns segundos, talvez minutos, porque ao retomar consciência senti as pernas e os braços dormentes - e todo o meu corpo estava mole.
Um véu de luz toldou-me a visão. Ceguei por instantes, mas não foi uma sensação desagradável. Depois, o corpo começou a ondear, a impregnar-se no papel e a coincidir com o retrato que o meu amigo fizera de mim.
Segundos mais tarde uma pinça metálica tirava-me do revelador. Senti, então, a frescura da água - e toda a superfície da folha de papel, o meu novo corpo, brilhou. Em seguida deixei-me enteorpecer na temperatura tépida, voluptuosa, do fixador.
Tinha encontrado o esconderijo.
E aqui estou, diante de quem me visita e olha. Apesar de não ter deixado de ser um homem triste, adquiri a vantagem de estar sentado, e de já não precisar fugir ou desejar seja o que for.
Mas o pior momento do dia é aquele em que nos separamos. Não consigo dormir. Fico noite fora com a minha solidão - e quem esteve a ver-me parte com o susto de continuar a existir.
Nenhum de nós é capaz de murmurar: fica comigo e toca-me. E a noite cai, de certeza, mais escura para quem parte.
Eu sou apenas a imagem do que fui. Não sinto nada.
Certa vez, um homem e uma mulher pararam diante de mim. Olharam-me muito tempo.
Aproximaram-se, afastaram-se, voltaram a aproximar-se do vidro que me protege. O nariz da mulher quase me tocou nos joelhos.
De repente, a mulher inclinou a cabeça, sobressaltou-se e disse:
- Zé, perdi o vidro do relógio.
O homem baixou-se e procurou-o. Quando o encontrou, deu-lho. Mas ela argumentou:
- A culpa foi tua. Eu não queria vir aqui.
O homem, muito sério, respondeu-lhe.
- Francamente, Fátima, não te toquei no pulso. Não mexi no tempo. Nunca mexo no tempo...
Outras vezes, quando não está ninguém a olhar para mim, ponho-me a cismar:
A luz é o meu túmulo.
Em tempos, os meus gestos tiveram o rigor da abelha que rouba o pólen à flor. Com esses gestos quis construir um espaço para o silêncio. Uma morada onde fosse possível ignorar o mundo, ou esquecê-lo.
De vez em quando, aceito ainda o mistério das palavras que me cercam e não coincidem, em nada, com a realidade. Eu só quis celebrar a vida.
Encontrar o esconderijo onde fosse possível um derradeiro acto de paixão. O esconderijo onde pudesse, de novo, tocar teu rosto e recusar a aridez da calúnia.
Mas a luz é o meu túmulo.
A pouco e pouco incendiaram-se os negros profundos, o círculo luminoso aprisionou-me, e as mãos gesticularam sem sentido. O interior das paisagens guardou a tua ausência. E numa última visão a madrugada irrompeu do mar adormecido.
As mãos abriram-se novamente, quando o dia começou a devorar a nudez do corpo.
Comovido, perdi a voz.
Não podia chamar-te, lembro-me, por isso desatei a escrever o teu nome nas paredes da cidade. Tempo perdido. Já não podias ouvir-me nem ler-me.
Foi quando desejei, com ardor, este esconderijo.
Aqui, pelo menos, respiro ar condicionado, e um foco de luz simula a eternidade dos dias.
Não há emoções, nem palavras ditas em voz alta. Não acontece nada, nem se ouve respiração alguma.
Quem me visita diz coisas fantásticas a meu respeito. Nunca confirmo nem desminto. Limito-me a ouvir e calo-me. Porque há coisas que devem correr com o tempo e, mais tarde ou mais cedo, nele se apagam.
É claro que também há coisas guardadas na minha memória de papel. Mas essas, já não tenho a certeza de que alguém as tenha dito ou eu as tenha, de facto, ouvido.
Por vezes ponho-me a sorrir, mas ninguém consegue ver que sorrio, porque o retrato que me esconde - como eu - está morto e desfocado.
E a luz é o nosso túmulo.

* Lindo demais esse texto do Al Berto. É como eu sempre falo: esperança há muito deixou de ser luxo; é sobrevivência.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

sem poeira pelos cantos.

Usar cores fortes. Voltar a mim mesma. Escutar mais hip hop. Esquecer, perdoar, abandonar. Cortar o cabelo nos ombros. Comprar o primeiro batom. Aceitar a vida acadêmica. Retornar a Freud e Foucault. Reformar, cortinas e sonhos. Caminhar, mesmo sem saber para onde. Aceitar, recolher, transformar. Agradecê-los, mainha e painho. Voltar: à literatura, à vida. Renovar.


"Nos minutos seguintes de silêncio, cúmplices da mentira maior, aproveitou para reviver a tristeza insuportável daqueles dias chuvosos anteriores à partida para as novas terras. O pai, seu melhor amigo, de fato, enfim morrera da doença misteriosa que não compunha o repertório dos médicos. O namorado, a quem sempre se referia no diminutivo, já não a satisfazia em nenhum aspecto, sequer servia para apagar as lembranças da fresca madrugada. Havia ainda Beto, e desde que batera os olhos naquele músico tão carioca, em espírito e sotaque, deduziu a oportunidade de encontrar ali, e talvez apenas ali, uma redenção possível. Ao mesmo tempo, pensava todos os dias no doutorado quase abandonado, oportunidade exclusiva daquele momento, dando-se conta, cotidianamente, da vida pouco satisfatória, entre uma e outra aula particular, desperdiçando as horas como revisora de uma pequena editora local. Havia ainda todos aqueles princípios, fantasmas diante do precipício, insistentes em provocações típicas de tempos heróicos: ainda havia escolha, ainda havia chance, ainda era possível reescrever tudo de novo desde a dedicatória".

(velhas letrinhas caminhando para publicação)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

os perdões possíveis.

Abri a porta com o coração cheio de susto. Bastou rever aqueles olhos azuis para tudo se aquietar novamente. Com a voz embargada pelos anos todos em vão, no escuro silencioso das despedidas, ela ainda conseguiu escolher as palavras mais difíceis:

- Se tudo fracassar mais uma vez, quero que você jamais esqueça uma coisa. Isso aqui, nós, é a intensidade mais cheia de alma que já presenciei em toda a minha vida.

Sorri, desejando completar: "o que separou a gente foi guerra, Lívia". Mas afirmar isso era quase o mesmo que sugerir uma guerra concluída, já inexistente. Estacionei no silêncio: aos quarenta anos todos sabem que algumas guerras liberam fantasmas permanentes.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

perdões impossíveis.

VIVER
(Carlos Drummond de Andrade)

Mas era apenas isso,
era isso, mais nada?
Era só a batida
numa porta fechada?
E ninguém respondendo,
nenhum gesto de abrir:
era, sem fechadura,
uma chave perdida?
Isso, ou menos que isso,
uma noção de porta,
o projeto de abri-la
sem haver outro lado?
O projeto de escuta
à procura de som?
O responder que oferta
o dom de uma recusa?
Como viver o mundo
em termos de esperança?
E que palavra é essa
que a vida não alcança?

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Respirando no outono

Always A Use
(Madeleine Peyroux)

Maybe ain't no use in sayin' what I want it to be
Maybe ain't no use in playin' a tune
Maybe ain't no use in singin' my blues
But there's always a use in you and me

Maybe ain't no use in watchin' through the window
As the towns and our lives roll on by
Maybe it ain't worth all the trouble in thinkin'
But there's always use in you and I We can make it true

We can work on it too
We can be what we want it to be
We can be together
As two or as three'cause there's always use in you and me

Maybe ain't no use in sayin' what I want it to be
Maybe ain't no use in playin' a tune
Maybe ain't no use in singin' my blues
But there's always a use in you and me

We can make it true
We can work on it too
We can be what we want it to be
We can be together
As two or as three' Cause there's always use in you and me

Maybe ain't no use in watchin' through the window
As the towns and our lives roll on by
Maybe it ain't worth all the trouble in thinkin'
But there's always use in you and I.