segunda-feira, 16 de novembro de 2009

alívio literário

"Viver é muito perigoso..."

(Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

a (im) potência dos círculos

Quando encarou a imagem do espelho, precisou recorrer à velha dureza para seguir adiante. O coque esticado com grampos mais escuros do que o cabelo, o collant apertado em tons de cinza, a meia calça cor-de-rosa sem rasgos ou riscos e as sapatilhas de pontas desafiadoras denunciavam uma nova rachadura, talvez a maior de todas. Algum desespero inquietante já afastara o horizonte com tanta crueldade que apenas um resgate das grades do passado parecia capaz de colorir a vida de possibilidades.

Há dez anos não vestia as sapatilhas, há dez anos evitava aquele retorno antes tão incerto, há dez anos o mundo prometia aventuras dignas da alta literatura. Se estava ali agora, dividindo a barra com uma turma de crianças espantadas com os respingos de tristeza, é porque tudo se desmanchara mais uma vez. Antevia, porém, e sem dificuldade, a falência do mergulho – jamais teria dezoito anos novamente. Já desejava pouco demais para realizar tamanho avanço. Desejava cada vez menos: gestos vagos, inocências perdidas, perdões pelo excesso, construções atrasadas, mais tempo.

Olhou-se de perfil e contabilizou as destruições dos últimos meses; provavelmente jamais se manteria de pé sobre as sapatilhas novamente. O furacão arrancara todas as árvores: profissão, canções, parentes, amizades, rotina, projetos, parte da casa. Bastava um tantinho de equilíbrio para agilizar a retomada – mas onde? Quem lhe estenderia as mãos se continuava precisando estender aos outros? Sentiu medo dos abrigos hipotéticos.

Pensou nas novidades que povoavam o mundo descascado de então, tantas, diversas, cheias de promessas e alívios. Cuidaria bem da gata ainda sem nome? Ainda não sabia, como não sabia um sem fim de dados importantes, e urgentes, e inadiáveis. Conseguiria de fato? Sim, conseguiria, conseguiriam todos – assim era sempre. Limpou as lágrimas da alma, apertou o estômago dolorido em queimaduras de gastrite; encarou uma a uma as manchas roxas das pernas. Contara dezoito na semana anterior.

Equilibrou-se apenas na perna esquerda, recebeu um sorriso suave de criança. Retribuiu, rodopiou, abandonou o pior. Ainda havia amor, e ainda havia esperança, e ainda havia expectativa. Além do mais, não pode existir receio no coração das bailarinas. Agradeceu às sapatilhas, à vida, a ele. Não faltavam motivos.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

coração + agir = coragem*

Meio Silêncio
(Caio Fernando Abreu)

Águas de vidro à luz doentia da madrugada. Um vidro verde e fino refletindo longe o tremor das luzes da cidade. Aproxima lento o próprio dedo da ponta acesa do cigarro até senti-lo retrair-se num afastamento involuntário. O rosto do outro também parece feito de vidro. Um vidro ainda mais frágil que o da madrugada. Tem a impressão que se sair caminhando o ar irá quebrar-se em ruídos e estilhaços. A lua está tão bonita que dói por dentro, fala. Depois retrai-se como o dedo não queimado. Sempre o medo de chegar perto demais, de não poder voltar atrás, pensa, e solta devagar a fumaça pelas narinas.

"Quer ouvir música? meus dedos avançam até o rádio. Um gesto e três palavras para encher o silêncio. Que de tão repleto não cabe em si mesmo. Mas ele diz não. Sua resposta me enche de uma brusca vergonha. Como se tivesse descido mais fundo do que eu, dispensando as facilidades que também são fuga. A luz da lua bate nas pedras, elas brilham feito mil luas brancas, mil luas ásperas, mil luas à beira de um céu-rio sem estrelas. Está tudo quieto - há quanto tempo? - e meus ouvidos já não descosturam do silêncio o rumor dos carros passando distantes na estrada."

Olham-se, mas não se vêem. A escuridão não é uma parede, mas o silêncio os imobiliza na busca da palavra maior. Os dois fumam. As pontas acesas desvendam o escuro, e por instantes colocam um brilho avermelhado nas pupilas de ambos.

Perguntou se eu queria ouvir música. Não, eu disse sem pensar. Então ele calou como se tivesse ficado ofendido por eu recusar alguma coisa sua. Desconhecidos: como isso é, a um só tempo, terrivelmente bom e terrivelmente assustador. Pensar que eu estava só, no bar, esperando nem sei que, nem sei sequer se esperando: de repente os olhos me buscando no balcão em frente. Verdes. No primeiro momento foi a única coisa que percebi. Verdes, os olhos, atrás da fumaça, no meio das gentes, na frente do espelho. E o espelho refletindo o meu espanto. Depois vi os cabelos, a boca, os ombros. Mas era nos olhos, só nos olhos, que se fixava aquele mudo apelo, aquele grito. Nem sei. Aquela clara maldição. Saí, saiu. Não dissemos nada. Eu só tenho esperas. Ele traz a tranqüilidade de mais nada esperar.

"Um menino. Aquele ar espantado. Um pouco trêmulo. Cigarro atrás de cigarro. Tenho medo de tocá-lo. De quebrá-lo."

Eu disse: a lua está tão bonita que dói por dentro. Ele não entendeu. É tudo tão bonito que me dói e me pesa. Fico pensando que nunca mais vai se repetir, é só uma vez, a única, e vai me magoar sempre. Não sei, não quero pensar. Neste espaço branco de madrugada e lua cheia, preciso falar, e mais do que falar, preciso dizer. Mas as palavras não dizem tudo, não dizem nada. O momento me esmaga por dentro. O espanto esbarra em paredes pedindo exteriorização.

Você vê? as pedras parecem luas também. Ou estrelas, ele diz. Chão de estrelas. Vamos pisar nos astros distraídos? Ele ri. Nesse segundo cheio de riso alguma coisa se adensa. Nossos pés pisam em pedras. Mas por cima dos sapatos, sinto que são frias e duras, e sei que seu significado está em nós, não nelas. Uma vontade que a manhã não venha nunca. Vai voltar a grande busca. As noites vazias. Amargura de estar esperando. Repetir mil vezes: não quero esperar. E a certeza de que esse não querer já traz implícitas as longas caminhadas, o olhar devassando os bares, a náusea, os olhares alheios, a procura, a procura: seus ombros largos, um jeito de quem pisa mesmo em luas, não em pedras.

As sombras se projetam alongadas na praia deserta. Rumor de carros e faróis que devassam a noite sem achar. Pára de súbito, o corpo ferido por um sentimento indefinível. Precisa falar, precisa dizer.

Afinal, não foi para enfiar pérolas que você me trouxe aqui: eu digo. Ele está a meu lado. Então me olha sério, por um instante abalado, depois ri e diz: desista. Positivamente o cinismo não fica bem em você. E se com essa citação só quer mostrar que já leu Sartre, eu também já li. Por que feri? Por que feriu? Por que estamos dizendo coisas que não sentimos nem queremos?

"Um menino assustado querendo mascarar o medo com a agressividade. Um menino. Curvo-me para ele. Tão esguio que meus braços o rodeariam por completo. Por um instante ele ficaria inteiro preso dentro dos meus limites."

O rosto dele próximo do meu. Mais adivinho do que vejo o verde dos olhos deslizando pelas órbitas. A sua mão toca no meu ombro, sobe pelo pescoço, me alcança a face, brinca com a orelha, alcança os cabelos. O seu corpo cola-se ao meu. A sua boca vem baixando devagar, vencendo barreiras, colando-se à minha, de leve, tão de leve que receio um movimento, um suspiro, um gesto, mesmo um pensamento. Estou em branco como a noite. Ele me abraça. Ele está perto.

Ergue o braço lentamente, afunda as mãos nos cabelos de outro. E de súbito um vento mais frio os faz encolherem-se juntos, unidos no mesmo abraço, na mesma espera desfeita, no mesmo medo. Na mesma margem.

* post dedicado às felizes proximidades.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

urgente & loucamente

- Ainda dá tempo - Frederico sugeriu, com os olhos molhados.
- Tempo há.
Lívia fez uma pausa, para continuar:
- A esperança é que sempre termina antes do tempo.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

surpresa das boas

Nunca fui tarantinomaníaca, longe disso. Do diretor nerd & over & pop, gosto de Cães de Aluguel, cujo roteiro considero genial, e Pulp Fiction, bacaníssimo (principalmente pelo retorno do carismático John Travolta). Adoro também, e muito, Natural Born Killers, mas como Tarantino garante que Oliver Stone destruiu o roteiro dele, não posso reinvindicar o posto de fã (ainda que Juliette Lewis permaneça até hoje como minha musa suprema). No mais, nunca consegui terminar Jackie Brown, muito menos Kill Bill, chatíssimos - na minha modesta opinião de poucas referências. Despida, então, de QUALQUER expectativa, fui assistir Bastardos Inglórios, crente de que a apropriação do tema 2ª Guerra Mundial pelo amante dos miolos estourados resultaria em algo, no mínimo, kitsch e mal intencionado.

Adorei me enganar redondamente.

Bastardos Inglórios reúne as melhores armas do diretor (sem trocadilhos): diálogos afiados, roteiro bem amarrado, estruturação circular, referência pop, trilha surpreendente, violência gratuita, releitura dos seus clássicos (jamais os clássicos da história do cinema), cultura do pastiche, kitsch como orientação e aquelas tantas oitavas acima, sua marca mais original. Desta vez sem picotes (estréia no estilo?), o roteiro é dividido em capítulos que narram duas histórias mais ou menos paralelas, com uma penca de rabichos pelo meio (destaque para a espiã trapalhona de Diane Kruger e a maravilhosa historinha do herói de guerra ovacionado pelo povo alemão, apaixonado pela maior inimiga da sua amada pátria).

A primeira história central é a da bela Shosana, única sobrevivente de um massacre judeu, dona de um cinema na França. A segunda, do bando Bastardos Inglórios, "sanguinários" dispostos a exterminar o nazismo com as estratégias mais primitivas ("o negócio é abater todos os uniformes nazi"; "só vale escalpelado"). A motivação para ambos os núcleos é a mesma, mas nenhum deles sequer desconfia da coincidência, o que rende momentos muito engraçados, sobretudo no desfecho - uma sucessão de confusões que, graças ao improvável sucesso, culmina numa espécie de justiça tardia para toda a civilização ocidental ainda assombrada pela ascensão de Hitler.

Descontado o primor do roteiro, repleto daqueles viciozinhos deliciosos de Tarantino, como concluir sempre com alguma gag exposta no primeiro terço do enredo, o filme chama a atenção por conseguir imprimir ao evento de horrores uma visão exclusiva (e original). A Alemanha nazista de Tarantino é o território de proliferação do kitsch, do bizarro, do freak, do estúpido, do nonsense e do gratuito. Tudo aqui rima com simulacro, absurdo - inclinação que potencializa ainda mais os préstimos da exploração da violência gratuita, colocada à serviço de uma história (História) que se alimenta desta mesma aviltante gratuidade.

Bastardos Inglórios apela para o pastiche como estilo de narrativa, o que fica bastante evidente já a partir do segundo capítulo*, sobretudo com os histrionismos de Brad Pitt no papel de Aldo, o chefe do bando (atuação que não agride, já que dialoga com a estética do filme). A 2ª Guerra Mundial aqui é refeita com base numa paródia (relativa) que consegue ser debochada, crítica e respeitosa ao mesmo tempo. Diferentemente de A vida é bela, que imbeciliza a tragédia dos campos de concentração ao apostar num enredo fabular, Tarantino constrói uma versão inteligente que nos traz um Hitler histérico, um Goebbels medroso e um chefe da polícia nazista vaidoso e confuso. E já estava na hora de alguém sujar as mãos pra falar dessa gente com menos dados e mais rancor.

Bastardos Inglórios ainda acerta as contas com o passado, apostando num desfecho apoteótico e insano, bem à Tarantino, que diverte ao mesmo tempo em que nos faz pensar sobre os rumos do mundo pós-Shoah**. E conseguir reler um tema de tamanha complexidade, sobretudo tão afastado do seu próprio universo, não é pouca coisa.

Bonzíssimo - mesmo sem a Juliette Lewis.

* Em tempo: os primeiros 20 minutos do filme já compõem o rol das melhores aberturas da história do cinema (alimento essa lista há anos). Muito, muito, muito bom. Magistral.

** Pra quem não sabe, Shoah é o termo hebreu que designa catástrofe. Vem sendo utilizado no lugar de holocausto, que significa sacrifício, por ser considerado mais adequado ao massacre perpetrado pelos nazistas e aliados contra os judeus (só fui saber disso na pós, quando estudos de testemunho da Shoah viraram uma das minhas obsessões, por isso a explicação).

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

meus mais (parte dois)

:: Palmeiras Selvagens (William Faulkner, 1939)*

"Estamos entre a dor e o nada", sentencia uma das personagens centrais da narrativa, o médico e virgem Henry Wilbourne, de 27 anos. Charllote, a perturbada companheira, casada e mãe de duas filhas, ouve calada, atada aos próprios fantasmas. Tentando driblar os sofrimentos indizíveis desta paixão de verão, o casal exila-se numa praia, de frente para a natureza selvagem. Ilhados, então, apenas um e outro, potencializam ao máximo as feridas e exercitam alguns tipos cruéis de intimidade: rancor, ódio, mágoa, desencontros, desacertos.

Palmeiras Selvagens, a história de (des) amor, é apenas uma das partes do romance de Faulkner. O Velho, apelido do Rio Mississipi, compõe o restante da obra, recebendo o mesmo número de páginas. Deslocado da temática anterior, e estruturalmente recusando qualquer elo narrativo, o escritor esmiúça aqui a luta de um presidiário para sobreviver à furiosa enchente, após cair na água durante o translado de bote e ser tragado pela correnteza do dilúvio.

Aparentemente, não há conexão entre as duas fatias. Conhecido pela habilidade na arquitetura dos romances, pensados e erguidos a partir de sofisticados artifícios, Faulkner agora dispensa qualquer intersecção, recusando os manjados (e muitas vezes necessários) cruzamentos ao fim da narrativa. Não espere explicação, nem alento, sequer sugestão. Ainda assim, concluída a leitura, permanece uma impressionante sensação de que estamos lendo versões diferentes de um mesmo ato, o ato da resistência.

Autor (por excelência) das mazelas e idiossincrasias do sul americano, projeto central da sua ficção, Faulkner é especialista no retrato dos limites da experiência humana. Até quando resistimos? Até onde vai a nossa força? Quanto possuímos de fé? Somos corajosos ou acomodados? Em Palmeiras Selvagens, anterior ao Nobel de 49, esta espécie de ética da persistência costura os grandes achados do texto, unindo, relativamente, as duas narrativas.

O presidiário que inspirou seu assalto em leituras de folhetins tenta desesperadamente manter-se vivo em meio à fúria destrutiva da natureza. O casal insólito (e proibido) luta para sobreviver diante das impossibilidades do contemporâneo. Charllote, aparentemente frágil, é quem mais insiste: "aguento meses seguidos de fome no estômago, mas não aguento um minuto sequer de fome no peito". Uns remam, literalmente, contra as forças da chuva. Outros, contra as forças internas. Para Faulkner, são todos uns desgraçados, mortificados por batalhas inglórias.

Se o tema da resistência insinua-se nas entrelinhas, não há quase nada de factual no plano aparente. O visto não passa de uma sequência de cenas, historinhas, cotidianos. O ápice do drama, inclusive, está já na abertura do romance: o aborto de Charllote, que marca a consequente condenação de Henry, autor do feito, a 50 anos de cadeia, por homicídio. Na segunda narrativa, o auge da atividade ocorre quando o presidiário ajuda num parto, roçando certo contato com a trajetória do casal enclausurado, e desafiando as leis da lógica e do dilúvio.

Enquanto o primeiro texto parece determinado segundo leis trágicas, sobretudo pela plena consciência dos envolvidos na inviabilidade do projeto que tentam manter de pé, persistindo dia após dia no erro, O Velho mantém certa dose de humor, característica do autor (evidente em Enquanto agonizo**). Até mesmo pelo empenho bizarro do presidiário: chegar a qualquer lugar onde consiga se entregar à polícia e voltar à cadeia. Quando consegue retornar, finalmente, enfrenta uma horda de burocracia para se "alojar" porque é dado como morto.

De resto, pouquíssima ação, justificada num projeto ficcional calcado na reconstrução da vontade humana como uma pálida intenção diante das verdades do mundo. As personagens do autor estão sempre à deriva: da história, da natureza, dos desejos, da experiência, da vida. Se a enchente é obra do acaso, nos obrigando à entrega, o amor aqui também recusa o paliativo da escolha: imperativo, ele devora os sujeitos. Não temos, no fundo, a oportunidade de agir.

Em Faulkner, o monumental está sempre no entrevisto. O mundo quase sempre é sugerido como um espaço inabitável, embora tal sentença não se torne texto em nenhum momento. Há sempre algo maior que assombra a existência individual - por certo um resquício escamoteado das incertezas levantadas pelos anos de Guerra Civil, na construção do ethos sulista. Talvez por isso não seja o fracasso que derrota o indivíduo faulkeriano, e sim a desistência.

Ao passo que economiza na ação, esteticamente constrói uma obra majestosa (e o adjetivo não é gratuito). Especialista em escrever sobre nada, Faulkner narra com toda a categoria o insólito, descortina o corriqueiro, transforma cenas prosaicas em narrativas construídas à facão, num labirinto de escolhas cuidadosas e originais. Posicionar a humanidade entre a dor e o nada foi a forma encontrada aqui para dar voz a uma das máximas da sua civilização: estamos sozinhos, somos sozinhos, do princípio ao fim. E a maneira como realiza tal empreitada, com frases sinuosas, recortes imprevistos, monólogos sem travessão e todo tipo de digressão, sobretudo as descritivas, esmaga qualquer escritor. Qualquer, mesmo. Mestre absoluto.

* Sei, sinto e reconheço a superioridade de Luz em Agosto, romance de 1932, para a compreensão da obra do autor. É gritante a diferença, em relação a qualquer outra experiência literária, e eu mesma acho um dos livros mais bem escritos de TODOS os tempos. Ainda assim, mesmo bem menos ambicioso, não tão perfeito na mescla de tema e estrutura, não tão representativo da sua ética e dos seus dilemas, meu eleito sempre foi/será Palmeiras Selvagens. Sem qualquer razão além da mais indesejada no cenário crítico: me fala ao coração.

** Nunca consegui concluir O som e a fúria, de 1929. Ainda espero triunfar na empreitada.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

resenha para um amigo

Sem medo do clássico*
(versão do autor)

João Hernesto Weber pertence àquele rol de professores que marcam a trajetória dos alunos, seja pela ironia impressa nos debates orientados em sala de aula, seja pelo extenso conteúdo apresentado nas grades. Acompanhar seu pensamento, porém, já não é exclusividade dos freqüentadores dos embates literários brasileiros, circunscritos num universo de congressos, pesquisas e artigos científicos. O lançamento de Tradição Literária & Tradição Crítica, sua mais recente coleção de ensaios, expande a experiência do autor para além dos limites da academia, reposicionando ricas discussões sobre o Brasil, a literatura daqui e sua crítica.

A direção de Weber, importante frisar, é avessa a modismos teóricos de qualquer espécie. Se a universidade muitas vezes remaneja expectativas em função do filósofo estrangeiro em voga no momento, ele dispensa o hype e se debruça sobre a cartela habitual de preferências, com raízes bem fincadas. Pensando o processo de formação da nossa literatura, dialoga com Antonio Candido, Roberto Schwarz, Alfredo Bosi, pelos quais nunca deixou de nutrir certo “respeito-ternurinha”, como sugere já na escolha da epígrafe, de Carlos Drummond de Andrade. Analisando nossos pontos altos, recorre a ficções do porte de Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos. Na base da paisagem, norteando o pensamento, multiplicando a profundidade, a sombra do filósofo alemão George Lucacks, autor de Teoria do Romance. Weber é clássico, e Tradição Literária & Tradição Crítica comprova a eternidade do olhar que lança sobre povo e nação, ficção e história, ordem e desordem - sempre na releitura dos seus eleitos.

Estimulado pelo objetivo de relacionar literatura e sociedade, legítima missão à linhagem de Weber, e título de clássico recorrente ao longo do livro, o grupo de 14 textos compõe um sofisticado painel das discussões formativas mais relevantes da nossa historiografia crítica. A complexidade aqui está no intercruzamento, perseguido também, do pensamento brasileiro com as ficções mais profícuas da nação. Discutindo afastamentos e zonas de contato entre as teorias de Candido, Schwarz, Raymundo Faoro e outros tantos, em Algum “desconforto crítico”, Weber revitaliza a obra de Machado de Assis, construindo sua própria Capitu, ao mesmo tempo em que remete às construções de Schwarz sobre as meninas do bruxo do Cosme Velho. Partindo do título do livro de poemas de Guilhermino César, também crítico e historiador, em Arte de Matar, desconstrói o discurso contemporâneo das desconstruções, numa metateoria repleta de ironia, reivindicando a validade das análises marxistas que buscam relacionar literatura e sociedade. Clássico, sem dúvida, inclusive nas críticas.

Quando discute diretamente formação, seja crítica ou literária, Weber ratifica a potência de um pensamento que resiste mesmo diante das flutuações teóricas típicas do meio por onde transita. Sua compreensão da importância de Antonio Candido, bem como das relações tecidas entre o crítico e seus seguidores, ainda que distanciadas em tantas instâncias, ajuda a explicar não apenas os (des) caminhos da nossa literatura como também a própria consolidação da experiência intelectual brasileira. A riqueza da abordagem encontra-se nos desdobramentos infinitos: enquanto desvela a literatura por meio da estrutura social, e a própria sociedade por meio da ficção, Weber ainda incute significado nos desdobramentos da trajetória de cada um dos críticos com quem dialoga, ao longo dos ensaios. O Candido autor de Formação da Literatura Brasileira, por exemplo, difere em muito do ensaísta de Dialética da Malandragem, quando já revia os próprios vácuos teóricos. Lançar luz sobre tais nuances, imperceptíveis muitas vezes, é um empreendimento executado com cuidado (e raro respeito) pelo pesquisador.

Dotado de incisivo espírito crítico, até mesmo quando discorre sobre os seus mais caros companheiros de jornada, Tradição Literária & Tradição Crítica oferece lições definitivas ao leitor sobre o que é ser brasileiro. Discute nossa formação, literária e crítica, apontando pontos culminantes e seqüestros impróprios; revê e relê nossos clássicos, incentivando o consumo permanente; apresenta novas entradas de leitura, expondo em muitas páginas abordagens diferenciadas e originais, sobretudo nas análises de Machado de Assis e Guimarães Rosa; homenageia um método de trabalho que permanece contemporâneo mesmo em meio à enxurrada de novidades, ao mesmo tempo em que se posiciona no centro dele, fazendo parte, agora ele próprio, Weber, de uma tradição que ajudou a esboçar, construir, pensar, analisar, consolidar.

Tradição Literária & Tradição Crítica interessa a qualquer brasileiro. Estudiosos e curiosos encontram aqui uma chance única de conhecer um olhar apurado sobre os atos mais definitivos da crítica e da literatura brasileiras. Ex-alunos e colegas têm ainda mais sorte: as 167 páginas de ensaios nos levam de volta às salas de aula, palco no qual o autor apresenta ao vivo as lições ofertadas aqui. Essa, sim, é a melhor parte.

Jade Martins é doutora em Teoria Literária pela Universidade Federal de Santa Catarina.

* Texto publicado no caderno DC Cultura, do Diário Catarinense, em 17 de outubro.